quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O passeio da Peste

O PASSEIO DA PESTE


Estamos em uma aldeia de indios baptisados á margem do rio Tieté.
Administra-a o venerando jesuita, padre Domingos Salazar, homem dos seus cincoenta annos, e que ha vinte se occupa na ardua missão da catechese, segregado da sociedade civilisada e do convivio dos seus irmãos da Ordem.
O sol começa a afundar-se por detraz das serranias azues que se empinam ao longe; chilram cigarras no arvoredo de folhagem amarellada pela canicula; e a caboclada, que já terminou nesse dia os trabalhos a que a obriga o severo jesuita, estira-se nas rêdes de tucum, a bocejar enlanguecida pelo fortissimo calor do dia.
O padre Domingos Salazar, com as mãos cruzadas sobre o peito magro, de physionomia carrancuda, a resmoer no cerebro um pensamento que, pelas rugas fundas da fronte, parece afflictivo, passeia vagarosamente na frente do seu ranchinho, um pouco affastado dos da tribu, e de vez em quando levanta os olhos para o céo onde leves nuvens se esgarçam, varridas por brisas altíssimas.
Já ha um mez que não chove: o milho plantado pelos bugres está torcendo as folhas e secando o pendão, antes que o póllen se tenha derramado sobre a boneca e gerado o fructo; vão escasseando as aguas correntes e as dos charcos começam a apodrecer, exhalando emanações pestilenciaes.
O padre Domingos Salazar sente-se incommodado com a prolongação da secca; o calor tornou-se insupportavel; a colheita do milho e da mandioca está irremediavelmente perdida, e, o que é mais grave, annuncia-se a invasão de uma epidemia qualquer no aldeiamento.
Já dois meninos, que andavam no brejo a pescar trairas, caíram com febres de máo caracter; já vagam bugres pelo matto, colhendo a casca do pau-pereira para rebater as malignas.
Indubitavelmente as cousas iam mal, e o padre Domingos Salazar sentia-se embaraçado sobre o modo de resolver a crise com que se achava a braços.
A aldeia cerca de trinta leguas do primeiro povoado colonial. Não havia remedios para debellar o mal, si irrompesse, e, além disso, a caboclada era refractaria, por indole e natureza, a qualquer prescrição hygienica.
_ “ João tá com febe”, disse de repente uma cabocla que surgia no oitão da cerca, agravando assim, com annuncio tão desagradavel, o desasocego do jesuita.
A cabocla trazia ao collo um menino de quatro para cinco annos, que tinha os olhos quebrados e a pelle afogueada por intensa febre.
_” Com certeza deixaste que se metesse com os outros pelos brejos. Agora ahi o tens com uma maligna, talvez”, observou o padre Domingos Salazar em tom aborrecido e tomando o pulso ao doentinho. “ Está ardendo em febre...É isso, não fazeis caso do que digo!...”
Diversos caboclos approximaram-se para ver a criança enferma, e o padre Salazar, entrando no seu ranchinho, de lá trouxe um cobertor de lã.
_ “ Agasalha o menino com este cobertor e deita-o na rêde. Ao mesmo tempo faze coser estas hervas em pouca agua e logo que estiverem fervendo, tira a panella do fogo e vem dizer-me”.
E voltando-se para os seus administrados que o rodeiavam nesse momento, exclamou em tom imperativo:
_ “ Previnam ás mulheres que emquanto não chover não consintam que a criançada se metta pelos bréjaes. Ha muitos dias que não chove, teem morrido peixes e caranguejos em grande quantidade, e com esta soalheira apodrecem e desprendem vapores que envenenam as criaturas”.
Os caboclos ouviram em silencio, habituados como se achavam a obedecer em tudo ao austero discipulo de Loyola. Um delles, porém, já velho e que era o cacique do bando aldeiado, abanou a cabeça, como que duvidando que a causa da enfermidade que começava a declarar-se entre os seus fossem as emanações putridas dos charcos , e disse:
_” Peste, vem do brejo?! Hum! Póde ser, mas não tenho fé”. E voltando-se para os caboclos: “ Não se lembram daquelle tupinambá que passou por aqui na lua-nova?”
_ Que tem o tupinambá com as febres? Interrompeu o padre Salazar contrariado.
_ “ Desconfio que elle andava passeiando a Peste. Não te lembras, padre, como elle caminhava tão vergado para o chão, sendo no emtanto ainda moço? E parecia tão triste, tão cansado! Andava com certeza passeiando a Peste. Infelizes de nós”!
Todos os caboclos approvaram o que dissera o maioral, e o padre Salazar, que percebeu naquellas palavras a revelação de uma lenda religiosa ou de um mytho, mordido pela curiosidade, abancou-se em um toro de madeira que havia no terreiro, e pedio ao indio velho que lhe contasse por que forma a Peste passeiava.
Então, o indio, sentando-se ao lado do padre, ao passo que os outros, interessados na audição da lenda, se acocoravam no chão, contou em tom pausado e grave a seguinte historia:

* * *

“ Era no tempo dos cajús maduros, e todo o povo dos guayanazes andava na colheita dos fructos, para com elles preparar o cajuí , a excellente bebida com a qual se embriagaria no poracê, a grande festa sagrada da Nação.
“Isto deu-se antes que os portuguezes chegassem aqui pela primeira vez, e muitas gerações já passaram depois, que tal aconteceu.
“ Um homem d`aquelle povo, ( Irerê-una chamava elle) saiu uma manhã para colher cajú, e tendo já enchido um grande panacú, como o sol estava muito quente, e elle se sentia um tanto cansado, deitou-se á sombra da arvore e adormeceu profundamente.
“Todos se recolheram ás suas casas, e Irerê-una lá ficou, dormindo a somno solto debaixo do cajueiro.
“ Quando despertou já o sol se ia sumindo atraz das serras e Irerê-una admirou-se de ter dormido tanto.
“ Logo levantou-se, e preparava-se para lançar o panacú ás costas, quando uma visão extranha o fez pasmar, e por tal forma o assustou que lhe tirou os movimentos.
“ É que lá ao longe, por entre os ultimos cajueiros da praia, assomava uma mulher muito alta e de singular aspecto e feições, envolta em longo sudario branco, que, com o andar e com a aragem vinda do mar, se agitava brandamente. Os cabellos em alvoroço lhe escapavam por baixo do sudario. A physionomia era esquálida e severa. Os braços longos resequidos tinha-os ella cruzados sobre o seio no qual não se viam as eminencias dos peitos. A pelle de seu rosto era avermelhada, sanguinea e pintalgada de manchas negras e roxas, de um roxo de gangrena. Os olhos eram fundos e despediam um lampejo constante, fino como a lamina de uma faca.
“ A mulher ia cada vez se approximando mais, e já estava perto...Irerê-una teve medo, muito medo, e voltando as costas ao medonho Phantasma tentou fugir...
“ Não o poude, no emtanto: a Mulher-Phantasma estendeu um braço muito longo, sem fim, e pousou a mão sobre o seu hombro, fazendo o infeliz deter-se.
“ Irerê-una soltou um grito de pavor e caiu de joelhos a tremer-lhe o corpo todo. O contacto da mão da mulher extranha causára-lhe o effeito de uma cobra que se enroscasse ao pescoço.
_” Sabes, quem sou eu?” perguntou-lhe a medonha Apparição.
_”Bem te conheço, és a Peste!” respondeu Irerê-una, quase a sucumbir de medo e horror. “ poupa-me, deixa-me viver!”
_ Sim, sou a Peste! Confirmou o Phantasma” Andava a procura de um homem! Tu me appareceste, tanto melhor! Chegou o tempo de dar o meu passeio por entre os vivos, e assim desci do Céo num raio de lua-cheia. Escolhi-te; vais servir-me de montaria; desde já trepo em teus hombros, e tu me conduzirás a todas as nações desta terra, a todas as tabas, a todas as ócas.Vou fazer a minha colheita de vidas. Anda homem, caminha!...caminha!...Em paga de teu serviço não te matarei: sobreviverás a todos os homens!”.
“ E dizendo isto, a Peste saltou no cangote de Irerê-una, e , ahi agarrando-se, começou o pobre indio a caminhar.
“ Irerê-una não sentia peso algum nas costas, porém todas as vezes que levantava a cabeça dava de rosto com a medonha mulher de rosto avermelhado, pintalgado de um roxo de gangrena.


* * *
“ E começaram a caminhar _ o homem sempre carregando a assombrosa mulher.
“ Irerê-una levava a Peste a toda parte.
“ Tudo eram alegrias e festas pelas tabas, antes da sua passagem.
“ Bebia-se o cajuí, dansava-se o poracé e o yeroqui, tocava-se o boré e a inubia; o maracá chocalhava. Os homens contavam uns aos outros as suas façanhas de guerra e de caça; as mulhers cantavam; as crianças folgavam, cambalhotando na areia dos regatos, ou balançando-se nas cipoadas; as velhas torravam formiga vermelha para extraírem o veneno com que se hervam as settas.
“ Tudo eram festas, defumava-se a carne dos animaes mortos pelos mattos, secava-se o peixe colhido nas piracemas; limpavam-se os caminhos para a visita solemne dos pagés.
“ Mas para logo mudavam-se as cousas, desde que por ali passava Irerê-una com o terrivel Phantasma que o cavalgava.Dansas, festas, cantos de moças, prosas de guerra e de caça, folguedos de crianças, trabalhos divertidos _ tudo desapparecia, para dar logar ao pranto, aos gemidos, ás dores cruciantes, ás longas agonias e á morte.
“ Por onde Irerê-una passava, ficava um longo rastro de cadaveres, pela maior parte insepultos, a apodrecerem ao sol e servindo de pasto aos corvos.
“ Crianças, mulheres, guerreiros valentes, pagés venerandos, tudo a Peste matava. As aldeias transformavam-se em tristonhas tapéras, as canoas vagavam pelo rio abaixo abandonadas pelos remadores, ás vezes transportando um cadaver colhido pela Peste e por ella fulminado em meio da corrente.

* * *

“ Irerê-uma levou primeiro a Peste ás aldeias de seus inimigos: aos caethés do sul, aos tupinambás da margem do mar, e depois, não havendo mais taba, nem oca, nem tujupar que não visitasse, foi obrigado a levar o flagelo a sua própria nação, áquelles bons goyanazes, dos quaes elle se orgulhava de ser membro.
“ Pobre Irerê-una ! Quanto lhe doía na alma ver cair um por um todos os guerreiros que ao seu lado autr´ora combatiam com galhardia, os melhores caçadores da tribu, e as donzellas, as casadas, as velhas, os pagés reverenciados e a criançada alegre!
Quanto se amargurava o seu pobre coração em ver todo aquelle povo, que era o seu, fulminado pelo Phantasma horrendo, e a apodrecer pelos caminhos, sem ter mais quem se occupasse em sepultar os cadaveres!
“ Mas que fazer? Todas as vezes que Irerê-una estacava, o Phantasma esporeava-o, obrigava-o a caminhar, e a levar por toda a parte a devastação.

* * *

“ Tendo afinal Irerê-una chegado á margem de caudalosa torrente que bramia no fundo de um medonho abysmo, disse á Peste:
_ Deixa-me agora Peste; já mataste todos os da minha nação e os das nações visinhas; destruiste todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças, e não ficou taba habitada; deixa-me, pois, terrivel Peste, nada mais tens a fazer aqui!...
_ “ E aquelle tujupar que se vê ali, na encosta do morro, quase a desapparecer por entre as pacoveiras” disse a Peste apontando para uma pequena choupana sumida entre a folhagem. “ Ali há gente, homem, leve-me lá”.
_ “ Mas aquelle tajupar é meu, Peste; Ali vivem minha mulher e filhos”.
_ “ Não Peste, não posso! Como poderei ver atirados á lama do tibycoe, entes que me são tão caros?! Minha mulher é a minha ventura, minha alegria, minha melhor companheira! Meus filhos, serão os perpetuadores do meu nome, os que se encarregarão de dizer aos vindouros as minhas bravuras e minhas virtudes!”
_” Leva-me ao teu tajupar” ordenou novamente a Peste.
_” Não, não posso; por tal preço seria a vida para mim pesada em extremo, não poderia sobreviver ao anniquilamento de minha mulher e de meus filhos, que tanto prezo”.
_ “E dizendo isso, Irerê-una, o malfadado, lançou-se de cabeça para baixo no abysmo , e despedaçou-se nas pedras do fundo. A água tingiu-se com o seu sangue e os seus membros foram arrastados pela torrente.
_” A Peste, assim que o infeliz despenhou, deixou-o, mas como não possuía mais montaria, não poude transportar-se ao ranchinho da encosta do morro, e despedindo-se da Terra voltou ao Céo, subindo por um raio da lua. Sacrificára-se Irerê-una para salvar sua família. Foi ella o tronco da nova nação goyanaz”.

* * *

O padre Salazar, com o queixo magro, sumido entre as mãos compridas, tinha ouvido attentamente toda a exposição desta lenda selvagem que para aqui transportamos, apenas alterando a linguagem do narrador. Logo que o velho cacique terminou, dirigiu-lhe a palavra:
_ “ E assim, João Baptista, deconfias daquelle pobre Tupinambá que por aqui passou na lua-nova?”
_ “ De certo. Não vias, padre, como elle caminhava de cabeça tão baixa, que parecia vergado debaixo de um peso tão grande? Póde muito bem ser que o infeliz andasse a passeiar a Peste pelo Mundo”.


De O livro dos Phantasmas
por viriato Padilha
Edição 1925