O CAIPORA
Um dia perguntei ao velho Dominguinhos por que motivo elle, que quasi não sahia do matto, todavia não caçava durante o mez de agosto. A resposta que obtivemos foi a pequena historia que dentro em pouco vamos relatar.
Comtudo, antes de principiarmos essa narração, precisamos fornecer alguns esclarecimentos sobre o importante personagem que nella vai figurar como principal actor.
O velho Dominguinhos era um pardo de setenta annos bem puxados, pequenino, magro, enfezado mesmo, porém vivo, e o mais habil e apaixonado caçador que temos conhecido.
Dominguinhos caçava desde menino. Durante toda sua juventude e idade madura batêra de espingarda ao hombro as nossas formosas florestas, e ainda no ultimo quartel da vida não sahia do matto.
A caça constituiu, por toda a sua longa existencia, a exclusiva profissão e o unico vicio que tinha. Com a caça e pela caça considerava-se um mortal feliz, e na verdade o era.
Ninguem melhor do que elle arremedava as aves, ninguém como elle farejava um veado ou uma pacca.
Dominguinhos conhecia perfeitamente todas mattas da visinhança do logar em que residia, e mesmo as dos municipios limitrophes. Era sabedor perfeito dos sitios por onde passavam varas de caitetús e queixadas, de todas as pastagens dos veados; poços em que iam refocilar-se as capivaras; das trilhas das paccas, dos muricys a que se juntavam os jacús; dos poleiros dos macacos; dos taquaraes por onde vagavam as capivaras; era perito em fabricar mundéos, arapucas, laços de força, quebra-cabeças, de pegar pelhas; conhecia perfeitamente os usos, costumes e manhas de todos os animaes, desde o lagarto até a onça, desde a rolinha ao mutum, e sobre elles discorria de modo a fazer pasmar qualquer naturalista.
Além disso Dominguinhos era curado de cobra e como possuia antidotos efficazes contra mordedura de qualquer ophidio, era muito estimado dos fazendeiros em cujas casas passava todo tempo em que não estava no matto. Eram esse fazendeiros ainda que abasteciam de polvora e chumbo, pois Dominguinhos era pauperrimo e toda a sua fortuna resumia-se na sua excellente espingarda Laport, em duas cadellinhas já velhas, a Firmeza e a Namorada, e em um cachorro magro e pellancudi, o Penacho.
A physionomia de Dominguinhos denunciava a sua profissão. O seu rosto tinha feições de bicho do matto; o seu focinho de tatú e os seus olhos espremidos, porém espertos, e penetrantes, assemelhavam-se ao de uma raposa á espreita da caça em um cerrado. O seu andar era macio, parecendo a todo momento querer surpreender inhambós na latada.
No mais um bom homem. Nunca se ocupára em fazer nem bem, nem mal a pessoa alguma. As caçadas não lhe davam tempo de pensar no resto da humanidade, a não ser quando se tratava de mordeduras de cobra, porque, então, entrava em scena com os seus antídotos.
Dominguinhos era simplesmente um caçador, mas um caçador ás direitas.
Eis o retrato do singular personagem a quem perguntei um dia por que motivo não caçava durante o mez de agosto, tendo observado nelle tão curiosa anomalia
* * *
Foi assim que começou:
“ Desde menino ouvia dizer que o mez de agosto era aziago, por causa do dia 24, que, como vomecê sabe, é o de S. Batholomeu, quando tudo quanto é judeu anda solto por este mundão de Christo.
Ouvia falar a miudo que no mez de agosto não se devia fazr umas tantas cousas, e principlamente não era bom gente internar-se na mattaria, para não ter algum mau encontro.
Ouvia tudo isso, porém, vomecê sabe que, quando a gente é moço entra tudo por um ouvido e sae por outro, até que afinal tantas se leva na cabeça que se toma caminho, quer queira, quer não, mas á sua custa, e Deus sabe, ás vezes com que sacrificios.
Assim elles estavam falando p´ra ahi que não era bom caçar no mez de agosto
e eu todo o dia no matto, até que de uma vez me estrepei deveras para nunca mais.
Já lhe conmto como foi.
Foi em uma vespera de S. Bartholomeu. Antes que a manhã rompesse puz ao hombro a espingarda, uma Laport trouxada, de confiança; enfiei o embornal da munição; afivelei á cintura o facão; em outro embornal metti um pedaço de carne de vento e farinha; e, com Deus, Nossa Senhora e os Anjos da Corte-do-Céo penetrei na floresta.
Queria ver de perto naquella madrugada um macuco que sabia estar empoleirado n´um jaracatiá que havia bem no cocuruto da serra. O diabo do bicho andava a fazer-me fosquinhas havia um par de dias; eu piava, elle respodia; tornava a piar e elle vinha chegando, mas... quando já estava á distancia do tiro, não sei como o endemoninhado me avistava, e antes que tivesse tempo de levar a espingarda á cara, lá ia elle, tic, tic, tic pela folharada seca em fora, que ninguém mais o pegava.
Ninguém ignora que o macuco é um bicho muito ladino; quem não souber ou não tiver paciencia não o tira do matto, mas Deus está ahi mesmo.
Eu, porém, nunca permitti que bicho algum tivesse mais astucia do que eu e aquelle macuco estava jurado.
Persegui-o durante alguns dias, até que afinal, numa tardinha percebi que se empoleirava num pé de jaracatiá e assentei de dar cabo delle no outro dia de manhã. Podia ficar no matto aquella noite para fazer-lhe tocaia, mas não tinha trazido mantimento, estava com fome e assim foi-me preciso vir dormir em casa.
Quando entrei, ainda estava escuro. De uma ramalhada, levantava-se um bando de jacús, de outra corria uma cotia, mas o meu primeiro tiro estava guardado para o ladrão do macuco que me havia feito aguentar durante tantas horas as mordidellas de pernilongos.
Podia apparecer qualquer caça , que della eu nada queria. Emquanto não atirasse ao chão o macuco do jaracatiá, e o não esganasse na minha fieira, o meu tormento não cessaria.
Fui subindo, impassivel sempre, indifferente de todo á grande quantidade de caça que se me ia deparando pelo caminho. Quando o dia vinha rompendo, já estava no cocuruto da serra, bem debaixo do jaracatiá.
Olhei para a arvore: o macuco estava alli mesmo, de peito aberto para mim. Vomecê nunca foi amigo de caçadas? Não pode por comseguinte fazer ideia da alegria que se apossa de um homem que tem esse vicio, quando estica o cano da Laport para boa caça: um macuco, um veado, uma paca, uma anta, etc. Qual! Até a respiração da gente escapole do peito sem querer!
Fiz pontaria, bem certa: queria ver o bicho dar um tombo redondo. O macuco já estava resevado; seria um presente para o dr. Chiquinho, moço muito meu camarada e amante da caça.
Ah! Meu senhor! Preferia antes ter perdido um olho ou o braço direito do que errar aquelle macuco! Fiquei damnado da minha vida. Não pude conter-me e exclamei:
_ “ Vait-te, desgraçado, dou-te de presente ao Diabo!”
A minha vontade era partir o cano da espingarda de encontro ao jaracatiá. Não o fiz, todavia... Como?!... Uma espingarda que já havia te matado onça! Não!isso, nunca!
Resolvi voltar para casa, mas Deus, Nossa Senhora e os Anjos da Corte-do-Céo é que sabiam como eu estava! Errar um macuco na bucha, e depois de uma trabalheira d´aquellas?! Era para um homem nunca mais dar um tiro em toda sua vida.
Na descida, novamente esbarrava com toda especie de aves e de animaes de caça. E conservei-me ainda indifferente, mas desta vez raivoso, desesperado, pois que caçador que erra macuco ou veado não deve dar mais um tiro durante sete semanas. É uma vergonha!
Nisso ouço uma grande roncaria. Devia de ser uma vara de porcos que se approximava.
_” Não”, disse comigo mesmo, “ porco do matto não passa de rabo em pé, perto de mim. Isso mais devagar!”
Carreguei ás pressas a espingarda, e trepei a um tronco que se achava perto.
Vomecê deve saber que o porco do matto, logo que se esteja levantado do chão uns cinco palmos, nenhum mal faz porque não levanta os olhos e só morde para os lados.
O tronco em que trepei era uma cepa de óleo-vermelho, que haviam derrubado para delle se fazerem eixos de carro.
A porcada cada vez roncava mais perto. Ah! Excomungados! Iam-me pagar o tiro errado do macuco.
Pouco depois vi de facto a porcada surgir lá embaixo na grota. Eram innumeros os porcos. Escolhi um, que vinha de cachaço levantado e a estalar os dentes. Aquelle era meu, com certeza. Quando, porém, já ia puxar pelo gatilho, vi uma cousa, que, ainda quando me lembro se me arripiam as carnes. Que dia de S. Bartholomeu mais arrenegado!
No fim da manada e montado no cachaço de um dos maiores porcos, vinha o Cousa-Ruim!....Nem era bicho, nem era gente!...
Parecia-se, em verdade, com um homem, mas tinha o corpo todo pelludo e era de rosto fechado. Mas, o que é ainda mais para admirar, o Maldito trazia a tiracollo o macuco que eu havia errado.
Lembrei-me então, de tudo.Pois eu não havia dado aquelle macuco ao Diabo? O Diabo havia-o caçado.
Os porcos passaram todos, e não tive coragem de atirar nelles.
O Cousa-Ruim passou tambem, rente por mim. De vez em quando soltava um grito exquisito , para tocar a vara de porcos, e dentro em pouco tudo desappareceu _ os porcos e o Demonio!
Tratei de bater para minha casa... Quem disse, porém, que podia sair do matto?!...Qual! aquillo parecia até cousa mandada!
Um matto em que eu andava todo dia, e a qualquer hora, mesmo da noite! Pois, meu senhor, perdi-me: o caminho era ali mesmo, e eu ia andando. Mas, d´ahi a pouco, esbarrava numa moita de corumbaba por onde nem um rato passaria. Seguia por outro lado: tambem havia caminho por ali. Mas, d´ahi a bocado, via em frente uma tapada de brejaúba, com cada espinho que só uma cobra por ali poderia penetrar.
Bato para aqui; bato para li... Qual ! nada! Não sahia do mesmo logar! Não havia que duvidar, estava perdido!...
Assim passei todo dia, e já a noite se avisinhava sem que eu pudesse compreender como fora que me sucedêra aquillo, num matto em que era tão vagueano, quando então, me lembrei do que havia contado um caboclo velho. Ah! Agora compreendia porque me tinha perdido!
O Demonio, que tinha visto passear montado no porco, era o Caipora, e era quem não me deixava acertar com o caminho. Comtudo havia um meio de me ver livre d´aquella peste, segundo me ensinára o caboclo. Era dar-lhe fumo. Cortei logo uma porção do que tinha para o meu gasto, e sacudi-o numa touceira de taquara, dizendo:
_ “ Toma, Caipora, deixa-me ir embora...”
No mesmo instante o Cousa-Ruim, que passára montado no porco, saltou diante de mim, e, fazendo caretas, embrenhou-se por entre as taquaras, apanhou o pedaço de fumo, e poz-se no mundo.
Immediatamente acertei o caminho, e duas horas depois achava-me em casa.
De então por diante jurei nunca mais caçar durante o mez de agosto. Não que n´aquelle dia suei frio!...
De " O livro dos phantasmas"
Por Viriato Padilha
Edição 1925 / Rio e Janeiro
domingo, 12 de julho de 2009
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