quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Casa mal Assombada

A CASA MAL-ASSOMBRADA




De um momento para outro o alferes de milícias de Villa Rica, João Rufino, apresentou-se cheio de dinheiro, naquellas Minas, bem enroupado, melhor montado, com armas garantidas, e a fazer uns gestos tão em desaccordo com sua anterior pobreza, que punha toda gente de boca aberta.
Onde fôra elle desentranhar dinheiro? Heranças não recebêra, pois bem conhecida era toda sua familia, paupérrima; no jogo, também não era possivel, pois nunca o tinham visto com semelhante defeito; para se dizer que passára algum contrabando de ouro ou diamantes, tambem não se podia admittir, pois João Rufino na verdade era um individuo muito alegre e folgazão, porém de conducta irreprehensivel.
O certo foi que os pacatissimos mineiros não atinaram com aquelle mysterio, e João
Rufino continuava a assombral-os com as suas incomparaveis despezas.
No emtanto o dinheiro de João Rufino, a acreditar-se na lenda que elle proprio se
encarrregára de divulgar, viera por bom caminho. E assim, depois de se ter divertido durante algum tempo com a curiosidade dos patricios, deliberou contar-lhes tudo, escolhendo para isso uma noite em que dava a ceiar a diversos amigos.

* * *


Achavam-se os seus convivas na sobremesa, tendo já devorado uma excellente canja feita de três gallinhas que rachavam de gordas, uma bem tostada leitoa e outras cousas suculentas, tudo regado com excellente vinho, quando João Rufino, dirigindo-se a elles, lhes falou deste modo:
_” Senhores, reservo uma surpreza para rematar esta modesta ceia. Em geral os meus amigos e conhecidos e quase a população de villa Rica teem-se admirado da minha rapida fortuna e sobre ella feito commentarios os mais variados. Em verdade é para merecer reparo uma transformação tão rápida, e por isso não podiam espantar-me, por mais extravagantes que fossem , mesmo quando fossem lesivos á minha reputação. E, si até esta data não vos fiz sabedor do que me succedeu, é porque há cousas tão espantosas que a mente recusa acredital-as. Todavia não tenho o direito de prolongar por mais tempo a vossa junsta anciedade, e hoje vos informarei dos extraordinarios acontecimentos que me conduziram á opulencia”.
Este exordio de revelação encheu os convivas da maior satisfação, pois a curiosidade era geral e rumores aprobativos fizeram-se ouvir em toda a mesa.
João Rufino, então, passando os convidados para uma outra sala, onde fez servir perfumoso café, narrou a sua aventura, em meio da mais circumspecta attenção.
Assim falou João Rufino:
_ “ Senhores, a fortuna que hoje desfructo chegou-me por vias honestas; e, si é certo que a não alcancei pelo trabalho e por uma rigorosa economia, durante annos , devo-a no emtanto á minha coragem, e, por conseguinte, é com toda a justiça que a gozo.
“Sabeis perfeitamente que em dezembro do anno passado, isto é, ha quatro mezes, fui encarregado pelo commandante do meu regimento de milicias de ir ao Rio de Janeiro comprar fardamento para a tropa e arreios para a nossa cavalhada. Parti d`aqui na ante-vespera de Natal, e no dia-de-Reis já me achava muito além de Mathias Barbosa, apezar do pessimo estado dos caminhos. Nunca havia feito tal viagem, e assim era facil desviar-me da verdadeira estrada. Foi o que me aconteceu.
“ Pouco adiante de Mathias Barbosa, deixei o verdadeiro caminho á direita e tomei á esquerda. Por elle andei cerca de tres horas, e já ia anoitecendo, sem encontrar pouso, quando deparei alguns viajantes que vinham para Mathias. Disseram-me elles que me achava errado, mas que não me era preciso voltar atraz para ganhar a estrada; d´ali á distancia de legua e meia, existia um caminho á direita que ia desembocar na referida estrada. Informando-me mais si existia alguma casa que me servisse de pouso, responderam-me que a primeira pousada era para mais de quatro leguas puxadas. Em todo esse percurso só havia uma casa, completamente isolada, onde ninguem pernoitava por ser considerada mal assombrada.
“ Voltar para Mathias, com os viajantes, não me era possivel; retroceder ao ponto em que havia errado o caminho, nada adiantava. Assim, só me cumpria proseguir na direcção que levava.
“ Perguntei-lhes, então, em que consistia a assombração da unica casa que ficava á beira da estrada, e elles disseram-me que ali vevêra autr´ora um individuo extremamente avarento; e que , desde o dia de sua morte, alguns viajantes perdidos, que por acaso pernoitavam na sua habitação, ouviam á noite ruidos extranhos: arrastar de correntes, som de passos pelas salas, bem como eram visitados por Visões assombrosas.
“ Agradeci aos viajantes todas essas informações, e despedi-me delles, disposto a viajar toda a noite afim de reganhar a estrada real.
“ Caminhando, ia pensando nos mysterios da casa asssombrada, nos quaes, para dizer com franqueza, pouco acreditava.
“ O sol entrava na sua agonia sanguinolenta do occaso. Já nos pontos em que o caminho serpenteava por baixo de moutas sentia-se a invasão das sombras crepusculares, e os insectos nocturnos davam os primeiros chilros prenunciadores da grande harmonia da noite, quando senti que o meu cavallo começava a banhar-se de suor frio, e da andadura ia pouco a pouco descambando para o passo pesado. E essa?! O pobr bicho ia afrouxando e naquelle andar não deitaria mais de meia legua.Conheceis perfeitamente o meu tordilho, não? Era um animal valente, mas desde Villa-Rica eu ia puxando por elle, em marchas diárias de seis leguas, e naquelle dia já havia vencido sete. Não era, pois, de admirar que o pobre animal desse de si.
“ Isso, no emtanto, contrariou-me extraordinariamente, mas continuei a caminhar.
“ D´ahi a um quarto de hora cheguei á porteira de um largo pasto todo grammado, em cujo centro existia uma grande casa silensiosa. Era a Casa-mal-assombrada! Nem uma voz humana, nem o latir de um cão, nem o pio de uma ave domestica! Tudo parecia morto ali!
“ O sol acabava de sumir por traz das grimpas da Mantiqueira, e a noite approximava-se.
“ Puz-me a pensar; O meu cavallo estava quase frouxo; avançar mais, seira arriscar-me a estragar o animal, sem nada adiantar; ali, pelo contrario, estava um bom pasto para o pobre bruto, e uma casa que me daria guarida durante a noite. Porque, pois, desprezar tão providenciaes commodidades, somente com medo de Phantasmas, cousas naturalmente creadas pela imaginação do vulgo ignorante e supersticioso?
“ Eu nunca fui medroso, graças a Deus! Dispuz-me, pois, a passar a noite ali mesmo. Estava bem armado. Que podia , temer, portanto?!...
“Tomada essa deliberação, abri resolutamente a porteira e penetrei no pasto. A porteira rangeu no enorme gonzo, e fechou-se em seguida, esbarrando com força no batente de cabiúna. Logo após, ouvi um grande gemido, muito prolongado e alto, partido, não sei de onde, mas que me produziu um arrepio em todo corpo. O meu cavallo espetou as orelhas e estacou nas patas dianteira, mas não esmoreci: quando tomo uma resolução, tenho por costume leval-a até o fim, custe o que custar.
“ Assim, dei uma chibatada no animal e orientei-o para a casa.
“ Antes de chegar ao terreiro, era preciso transpor a porteira de um curral. Abri-a, e ,, exactamente como succedeu com a primeira, logo se fez ouvir outro gemido, mais soturno e mais prolongado ainda que o anterior. Os cabellos tornaram a areepiar-se-me, e o cavallo bufou. Não me importei. Apeei-me e tratei de tirar a sella do pobre animal, pois queria passar minuciosa revista na casa, antes que anoitecesse de todo.
“ Fiz isso. Depois de soltar o bicho no pasto, carreguei os arreios nos braços, e subi com elles a escada de uma varanda já um tanto carcomida que havia na frente da casa, e penetrei na primeira sala da habitação, cujas janellas e portas estavam abertas de par em par. Mal apenas collocára eu o pé na soleira da porta, um outro gemido, ainda mais lúgubre e duradouro que os outros, fez-se ouvir, e parecia tão lacinante, tão maguado, que bem contra a vontade senti o sangue esfriar-me no corpoi e os arreios caíram-me das mãos tremulas! O meu tordilho, que já então se espojava satisfeito no pasto, ao ouvir essa cousa medonha, ergueu-se de um salto, e disparou, dando a prova mais cabal de se haver tambem assustado.
“ Todavia eu tinha que dormir naquella habitação, quer fosse mal assombrada, quer não; havia feito tal proposito, e nada me poderia demover delle. Por isso tirei dos coldres as pistolas, e enchendo-me de animo devassei toda casa; atravessei salas, quartos, corredores e nada encontrei. Tudo estava silencioso! Quando voltava, porém, para a frente da habitação, vi em um dos cantos da primeira sala um frango pellado, de pernas muito compridas, que ali procuava aninhar-se, como se tivesse aquelle costume.
“ Admirou-me ver aquella ave, pois quando atravessára a primeira vez a sala não a tinha percebido. Comtudo não me preocupei por muito tempo. Seria, pensei eu, algum pinto perdido por qualquer pombeiro, e que entrasse emquanto me occupára em revistar a casa.

* * *


“Devia ser isso mesmo, e nem podia ser outra cousa. Quanto aos gemidos, não os regougam tão tetricos as corujas grandes? Conduzi para dentro da sala os arreios; tirei de um picuá o resto do meu almoço; comi-o tranquilamente, e , depois, estendendo a manta, bairetro e o capote, fiz deles um leito em que me deitei, confiante em Deus e na minha coragem, tendo antes posto ao alcance das mãos as pistolas e o meu facão de viagem.
“ Deitei-me, porém não adormeci, embora estivesse bastante cansado. Contra a minha vontade, rolavam-me no cerebro cousas phantasticas, e, á medida que a noite se adiantava, cada vez mais me visitavam taes pensamentos.
“ Devia de ser mais de onze horas e meia , e ainda eu me conservava acordado, quando pouco a pouco vi a sala ir se enchendo de uma claridade dúbia, quase insensível no começo, mas que mais e mais ia augmentando. Não podia perceber de onde vinha essa luz extranha, amarellada, livida, pois não era noite de luar.
“ O pinto magro, pellado, que dormia no canto da sala, saiu para o centro. Batendo as azas e suspendendo o pescoço, cantou desentoadamente, com um esganiçar irritante, pronunciando estas palavras que ouvi arripiado de horror:
_” É meia-noite: não vens hoje?” E recolheu-se ao canto.
Immediatamente do tecto da casa partiu uma voz assombrosa que gritava;
_” Gaspar, eu caio”
O pinto lá no seu canto respondeu:
”Não caias!”
A voz tornou a gritar:
“Gaspar eu caio!”
“ E o pinto outra vez respondeu:
_” Não caias”
“ Ainda uma terceira vez a voz falou:
“ Gaspar eu caio!”
“ E eu, cheio de impaciencia e ao mesmo tempo apavorado com o que estava presenciando, exclamei:
_” Pois caia!”
“ Mal havia proferido tal phrase, quando vi despenhar-se do tecto da casa um braço humano e cair no meio da sala com um ruido abafado.
“ O meu coração batia de modo que parecia querer estalar. Um suor frio, inundava-me a fronte, e pela primeira vez na minha vida tive medo de véras.
“ D´ahi a alguns minutos a voz tornou a gritar;
_ “ Gaspar eu caio!”
“ De novo o pinto pelado esganiçou-se e suspendendo o pescoço repetiu:
_”Não caias”.
“ Segunda vez a voz falou:
_” Gaspar eu caio!”
“ Na terceira, eu berrei:
_” Pois caia!”
“ A mesma scena repetiu-se por quatro vezes; e eu que vencendo oterror me achava possuído da mais viva curiosidade pelo desenlace d´aquella comedia horrenda, ia mandando que caísse.
“ Assim caiu primeiramente junto aos dois braços uma perna, depois outra, e em seguida o tronco e finalmente uma cabeça, que, mal chegou ao soalho, reuniu-se aos diversos pedaços... E surgiu á minha vista um Phantasma, envolto num longo sudario negro e com os braços cruzados sobre o peito!...
“ O medo que tal Apparição me causou não se pode descrever com alavras. São dessas cousas que se sentem, mas não se defimem. No Emtanto, tive forças para empunhar o meu facão de viagem e pôr-me logo em guarda, esperando um ataque. Mas o Espectro, estendendo para mim um longo braço descarnado, pronunciou estas palavras com voz sepulchral:
_” Nada temas, viandante; não te pretendo fazer mal; a tua coragem salvou-me”.
“Então balbuciei:
_” quem és tu?”
“ E a Apparição respondeu-me:
_” A Alma-penada de um miserável avarento que, desde o dia que deixou os vivos, vagueia errante, em conseqüência da misserrima paixão que tanto o atormentou em vida.fui rico e levando meu amor ao ouro até a hora da morte, enterrei uma grande quantidade delle no pasto desta casa. Foi minha perdição. Minh´Alma acha-se presa a estes sítios e delles não se apartará emquanto o dinheiro ali se conservar. Tu tivswte coragem de affrontar o assombro desta habitação. Vou fazer a tua fortuna e liberar-me deste fadario. Quando o dia romper, irás á porteira do pasto, e na direcção de quatro braças ao nascente do batente da mesma porteira cavarás até a profundidade de quatro palmos. Ahi encontrarás um cofre de moedas de ouro de bôa especie. Toma-o para ti e manda dizer sete missas pela alma do finado Gaspar, na igreja que quizeres”.
“ E ao dizer esta ultimas palavras tudo desappareceu: Phantasma, pinto pellado, luz amarella e tudo.
“ Os meus nervos não podiam supportar a furiosa tensão a que os havia forçado: affrouxaram repentinamente, e eu, caindo protrado no leito improvisado, adormeci de somno pesado, sem sonhos, que se prolongou atpe as 7 horas da manhã do outro dia.
“ Logo que acordei, pouco me lembrava das terriveis scenas da noite, porém, pouco a pouco ellas me foram chegandi á memoria, e puz-me a pensar si tudo aquillo não seria um delirio da minha imaginação escandecida pela narração dos viajantes e pelo desolado aspecto da habitação.
“ Todavia procurei uma enxada que logo encontrei no porão da casa e dirigi-me á porteira do pasto. Ahi chegado, medi quatro braças ao nascente e puz-me a cavar.
“ O meu cavallo, que pastava tanquillamente a poucos passos distante de mim, levantou a cabeça e poz-se a encarar-me, e eu me ria comigo mesmo pensando que talvez estivesse representando um papel ridiculo que até o proprio cavallo delle se admirava.
“ Comtudo continuava a cavar, e de uma das enxadadas senti que o ferro batêra em outro ferro.O meu espirito alvoroçou-se com isto; amiudei as pancadas, e dentro em pouco tempo ficou a descoberto um cofre de ferro, tendo por cima um grande argolão. Puxei por elle e o cofre saiu para fora.
“ Corri immediatamente os fechos da peça e escancarando-a encontrei-me diante de um monte de bellas e reluzentes moedas de ouro. Introduzi-as no picuá e no capote e segui a desempenhar a minha commissão no Rio de Janeiro.
“ Eis, senhores, como do dia para a noite fiquei rico. Devo esta ventura á minha coragem e ao meu sangue frio”.
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De então por diante nunca mais se falou em Villa Rica sobre a fortuna do alferes João Rufino.Pois não era tão natural que elle encontrasse um thesouro enterrado?

De O livro dos Phantasmas
Por Viriato Padilha
edição 1925

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