Arnaldo Viegas curasava o terceiro anno do curso juridico em S.Paulo. Havia seis, porém, que se achava matriculado na Academia. Indolente e de pouca atilação para as sciencias, distinguia-se sómente entre os companheiros pela sua supina ignorância da sciencia juridica, e pelo atrevimento das suas graçolas para com os lentes, mesmo os mais sisudos e ríspidos. Si em direito, porém, Arnaldo Viegas, era profano, sabia no emtanto de cor quasi todos os poemas de Byron e Musset, cujos livros tinha por sua Bíblia ou Alcorão, mas sem que fraternizasse espiritualmente com as grandezas e sublimidades d´aquellas almas allucinadas pelo Bello e pelo Amor. Viegas apreciava-os unicamente por ver que esses grandes poetas, na extravagancia de seus gênios, se compraziam em exaltar o Vicio e deprimir a Virtude. Nisso achava elle desculpa ás desordens da sua vida, desordens baixas, sem intermitencias de horas de labor honesto, nem manifestações fulgurantes de talento. Viegas era bebado como um marinheiro em terra; jogava toda sorte de jogos; fazia onstentações em entrar nas mais sórdidas espeluncas; e, finalmente, era um consumado devasso, mais por perversidade e amor próprio do que por impulsão do temperamente. A sua conversa, quando não discorria sobre os paradoxos brilhantes de Byron e Musset, versava unicamente nas boas peças que pregava aos burguezes; nos calotes que passava ao alfaiate e ao sapateiro; nas mulheres casadas que seduzia; nas donzellas que lhe offereciam a virgindade. Embora muito dissoluto, é escusado dizer que a maior parte dessas façanhas eram puras invenções suas. A pretensão que tinha porém de fazel-as passar por verídicas, demonstra perfeitamente o depravado fundo do seu caracter. Todavia o Viegas figurava como torpe protagonista em algumas aventuras amorosas, e é de uma dellas que vamos tratar.
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No tempo de que nos occupamos existia na rua S.Bento, em S.Paulo, um velho armarinheiro italiano, Pacoal Landini, que, ás suas funcções commerciaes de mercador de alfinetes, grampos e agulhas, reunia as de armador de igrejas, por occasião de festividades religiosas, e fabricante de caixões para defuntos. Pascoal landini era um velhinho magro, baixo, de barba muito alva e ponteaguda, e sempre o viam na sua pequena loja toucado com um barrete de velludo azul com borla preta, e oculos de aro de tartaruga, perfeitamente redondos e grandes. Comtudo, o que mais chamava a attenção, na lojinha da rua S.Bento, não era o seu proprietario, nem os accessorios do seu vestuario, e sim uma criatura de belleza incomparavel e suavissima, Maria Annunzziata, a filha do velho Pascoal, sempre a costurar, e sentada ao fundo da loja. Toda a estudantada desse tempo _ calouros e veteranos _ conhecia a loja do Pascoal por causa da bella costureira; e, pelo interesse de lhe lançar uma olhadela amorosa, aliás nunca correspondida, iam frequentemente, ao negocio o do Pascoal abastecer-se de pennas, lapis, papel e tinta. Pelas “ republicas” falava-se muito a miúdo na formosura de Annunzziata, e muito estudante fechava á vezes aborrecido o Digesto ou Corpus Júris, para abrir a Arte de Metrificação de Castilho, e fabricar versos em sua honra. Todavia até áquella data nenhum se havia lambido com um seu sorriso. Annunzziata parecia insensivel aos olhares de fogo que a trêfega mocidade acadêmica lhe lançava, ao dirigir-se á Escola e até aos sonetos que os mais bregeiros lhe atiravam em papel dobrado em laçarote, aproveitando descuidos do velho Landini. Ora, aconteceu um dia morrer um estudante do segundo anno de direito, e tendo os rapazes resolvido fazer-lhe o enterro, por ser o collega pauperrimo, commissionaram Arnaldo Viegas para tratar da encommenda do ataúde e da mortalha. Arnalo dirigiu-se á casa do velho Pascoal para desempenhar do seu fúnebre encargo, e depois de lançar uma olhadela de fogo para Maria Annunzziata, que parecia uma daquellas suavissimas madonas dos pintores da Renascença, ensarilhada o fundo da loja do armarinheiro, dirigiu-se ao velho nestes termos: _ “ Bons dias, sr.Pascoal: venho fazer-lhe a encommenda de um caixão e de uma mortalha para um collega que morreu”. _ “ Molto bene”, repondeu o italiano, na sua língua, pois não falava palavra de portuguez. E tomando uma fita metrica, peguntou a Viegas: _ “ La medida del suo amico”! _” Que medida?!” exclamou Viegas. _ “La medida per fare il cajone”. _” Ora bolas”1 tornou Viegas, “ nem disso me lembrei”. _ “ Dunque! Exclamou mestre Pascoal;” como fare io , senza la medida? Andate a portar-me lá , signor”. _ “ Não é preciso sr. Pascoal; meu collega era exactamente da minha altura. Tome a medida do caixão por mim”. O italiano, que , como quase todos os seus patricios, era profundamente supersticioso, fez um gesto de espanto, ao ser-lhe proposto tal alvitre, e exclamou: _” Per Dio Santo! Ecco um cattivo pensamento. Prendere la medida di um morto sopra di voi! Questa non si fa, signor, sarebbe funestissimo per voi”. A bella Annunzziata, ao ouvir as palavras do estudante, fez igualmente um gesto de horror, e, pela primeira vez nesta scena, levantou os olhos da costura. Aproveitou-se logo disto Viegas para envolvel-a em um longo olhar sensual, ao mesmo tempo que repetia a mestre Pascoal. _”Tome a medida, mestre Pascoal. Eu não acredito em agouros”. Annunzziata, ao ver essa insistencia, nãp pôde conter-se. Como que parecia interessar-se pelo estudante: _ “ Oh!non lo permettete, signor! Questo porta disgrazia!” Arnaldo viegas ficou radiante e cheio de si; quis ostentar-se aos olhos da moça homem superior, depido de superstições. Assim, exclamou, confiando o bigode negro: _” Não vos incommodeis, bella signorita. Deixe que mestre Pascoal tome a medida. O que aos demais homens acarreta desgraça, para mim talvez seja a chave da felicidade”. E tornou a dardejar uma chispa do seu olhar atrevido sobre a formosa italiana, que, enrubescendo, se inclinou sobre a costura, apenas pronunciando um simples oh! Mestre Pascoal, porém, encolhendo os hombros fleugmaticamente, assim como quem queria significar que não era responsavel pelo que acontecesse, disse, endireitando os seus oculos redondos de aro de tartaruga: _”Sai fatta la sua voluntá!”] Ao mesmo tempo que desenrolava a fita metrica, fazia com que o rapaz comprimisse a fivella da mesma na fronte e corria-aaté os pés. Em seguida levantou-se com os dedos fixos na marca, e lendo a numeração da fita exclamou: “Due metri e dieci centimetri. Per la Madona”, accrescentou alle tirando o barretinho e saudando Viegas em ar de troça, “ voi siete um signor difunto!” Apezar de muito encouraçado contra agouros, Viegas estremeceu com a phrase de mestre Pascoal.Mas, ao ouvir Annunziatta abafar um gritinho, tambem impressionada com o gracejo funebre do pai, logo as suas idéias, tomaram outro rumo. Compreendeu que a seductora virgem da rua S.Bento estava se interessando muito por elle, e isto encheu-o de prazer. Effectivamente, attrahida por estranho iman, Annunzziata, logon no primeiro momento em que os seus olhos pousaram sobre Viegas, sentiu-se sympathisada por elle. Arnaldo pagou a conta e despediu-se. Da porta lançou um ultimo olhar a Annunzziata e esta o mimoseou com um gracioso sorriso. Viegas não cabia em si de contente “Que comquista de mão cheia não ia elle fazer?Como toda a estudantada não se encheria de inveja e despeito ao vel-o na posse inteira da raphaelesca virgem da rua S.Bento?! Aquelle sorriso era a porta a todas as suas ousadias, e não seria elle Viegas que deixaria de entrar por ella”.
* * * Assim, animado por esse sorriso que lhe promettia tanta fartura de gosos e volupias, Arnaldo Viegas, começou a frequentar a loja de Pascoal Landini, cuja confiança e amisade soube captar em pouco tempo, pois o velho italiano era homem muito simples e de extrema bôa fé. Duas semanas depois que teve logar a scena acima descripta, já Viegas tomava parte no macarrão e no vinho de Chianti do modesto lar do armarinheiro, e dahi a duas outras semanas era elle completamente senhor do coração e da vontade de Annunzziata, que havia subjugado desde o dia da encommenda do caixão. Sem o sentir, a bella joven Annunzziata achou-se enamorada do devasso estudante, e logo Viegas cogitou nos meios de polluir aquella candida criança, que com tanto abandono e simpleza lhe affertara o seu primeiro e virginal amor. Aproveitou-se de uma ausência de Pascoal que foi obrigado a dirigir-se ao Rio de Janeiro afim de fazer sortimento para a sua loja, intrometteu-se no lar do honrado logista onde Annunzziata ficára, apenas com uma criada já velha. Annunzziata amava-o muito já, para poder resistir-lhe. Viegas atirou-se-lhe com toda a lubricidade dos seus desejos, e profanou-a. Pouco depois alugou um quartinho na rua que dava fundo para a casa do italiano e todas as noites mettia-se no quarto da rapariga que cada vez o adorava mais. Durante dois mezes Viegas foi assíduo junto da amante, porém decorrido esse tempo começou a enfastiar-se della, principalmente por ter percebido que ela se achava grávida. Aquelle infame era incapaz de qualquer sentimento nobre. Resolveu abandonal-a. Mudou-se de residencia e nunca mais a procurou. Não tinha elle conseguido os seus intentos? Não alcançára transforamar em impura Magdalena a bella e recatada virgem que toda a Academia adorava? Agora convinha-lhe demosntrar a sua superioridade, para que não parecessew qualquer burguez. Partiria a taça pela qual sorvêra o mais suave dos philtros.
* * *
Annunzziata cobriu-se de maguas com o subito abandono do pérfido amante. Escreveu-lhe por diversas vezes e não obteve resposta. Ralavam-n`a os desgostos, começou a compreender que tinmha sido traída, até que afinal, amiudando mais as cartas ao scelerado, este, com o maior cynismo, mandou dizer-lhe verbalmente por um moleque que não o apoquentasse mais com cartas e choradeiras, que andava muito preoccupado com os seus estudos e exames para perder tempo em responder a lamurias de mulheres hystericas; e, finalmente, que não fosse tola em insistir com elle para pedil-a em casamento, pois ella bem devia comprehender que um rapaz da sua posição e futuro não era para casar com a filha de um armarinheiro, um rélez burguez fazedor de caixões de defunto. Tanto cynismo e brutalidade partiram uma por uma todas as cordas da alma da bella italiana. O seu debil corpo não poude rsistir a tão duro golpe: intensa febre levou-a ao leito de onde só saiu alguns dias depois para ser levada ao cemiterio. O seu pobre coração estalára de dor, e ao partir-se levára-lhe a existencia.
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O velho Pacoal Lnadini sentiu-se ferido profundamente nas suas vivas e unicas affeições com a morte de sua dilecta Maria Annunzziata, retraro vivo da esposa que pêrdera havia annos. Desde o dia em que a gentil criatura cerrou os olhos á luz do mundo, nunca mais abriu o armarinho. Tornou-se taciturno em exremo, evitava falar com as pessoas de seu conhecimento, e passava a maior parte do dia encerrado no pequeno quarto em que dormia e onde lhe morrêra a filha adorada, e cujos moveis e roupas conservava na mesma desordem e desalinho em que haviam ficado naquelle dia tão angustioso para o seu pobre e velho coração. Á rua apenas sahia para dirigir a construcção de um artistico mausoléo que mandara erigir no tumulo da filha, e no dia seguinte áquelle em que se ultimára a obra, encontraram-no morto no quarto de Annunziatta. Feita a autopsia, verificaram os medicos que o infeliz ingerira uma forte dose de arsenico. * * *
Esse doloroso acontecimento que tanto emocionaram os logistas e fabricantes da rua S.Bento, pois Landini e sua filha eram geralmente estimados, não impressionaram no emtanto o cynico que havia cavado aquellas duas sepulturas precoces. Arnaldo Viegas continuava na sua vida de dissipação, como outr´ora, e no seu intimo alegrava-se até que a morte o tirasse de certos embaraços sociaes para com a infeliz, cuja virgindade elle havia profanado.] Pouco depois entrava em exame e por casualidade era approvado com a nota simples. Rejubilou-se o pretencioso ignorantão com esse mesquinho triumpho escolar, e tendo naquelle dia recebido a gorda mezada que a prodigalidade paterna lhe dispensava, resolveu festejal-a com uma lauta ceia offerecida aos amigos, no Corvo, a celebre taverna paulista da rapaziada acadêmica de outr´ora. Eram onze horas da noite. Reinava a mais expansiva alegria em todos os convivas, pois já algumas dúzias de garrafas haviam sido despejadas, quando Arnaldo Vigas que se achava na cabeceira da mesa ergueu-se um tanto ébrio, e , empunhando uma taça a transbordar de vinho Madeira, exclamou: _” Meus senhores, vou levantar o brinde de honra do nosso banquete. Sobre elle todas as taças se quebrarão”. _” Muito bem,!muito bem!”responderam todos encendo os copos. _ “ É um toast de rspeito, meus senhores! Eu beboá memória da rapariga mais formosa que meus labios teeem beijado nos espasmos do prazer! Eu bebo senhores, ao perfeito apodrecimento da que foi outr´ora a mais perfumada e deliciosa das carnes! Eu bebo á memoria de Maria An...An...An...” Não poude terminar o nome angélico d´aquella cujas cinzas queria profanar em uma orgia. Os seus olhos fixaram-se de repente em um dos ângulos da enfumaçada sala da taverna acadêmica, e o seu corpo principiou a tremer, caindo-lhe o copo das mãos. Os companheiros voltaram-se immedatamente para o canto onde se dirigia o olhar aterrado de Viegas, mas nada viram. Arnaldo, no emtanto, ia ficando pallido, os seus labios abriram-se denotando a mairo estupefacção, e seus dedos crispavam-se, como si elle fosse preza de terrivel pesadello. Effectivamente surgia para Arnaldo uma Visão medonha, pavorosa. Naquelle momento de final de orgia, viu sair do canto da sala um Phantasma, o finado Pascoal Landini, de barrete azul, óculos redondo de aros de tartaruga e fita metrica m punho. A terrivel Visão approximou-se do libertino, que quis gritar, sem poder, não encontrando som algum na garganta. Os companheiros observavam, espantados e silenciosos. Viegas viu, então, o Phantasma de Pascoal desenrolar a fita, obrigal-o a comprimir a fivella á fronte onde um suor frio deslisava, correl-a até os pés, e depois erguer-se, endireitar os óculos para ler a numeração, e exclamar: _ “ Due metri e diecci centimetri!” E, ezactamente como outr´ora, no dia em que fôra tratar do enterro do collega, tirar o barretinho, e á guisa de cumprimento trocista, acrescentar: “ Per la Madona, voi siete um signor difunto!” Viegas não poude supportar por mais tempo aquelle martyrio. Reunindo todas as forças que tinha, articulou um grande grito e rolou inanimado ao soalho da taverna.
* * * Tornando a si do delinquio, a sua primeira pergunta foi saber dos companheiros si tinham visto a Alma do velho Pascoal tomar-lhe a medida para o caixão. Ninguem vira cousa alguma. _” Foi o vinho Madeira que te subiu aos miolos” disse um collega. _ “ proferiste um conto digno de Hoffman ou nosso Álvares de Azevedo”, disse outro. _” Ora, graças que temos um Macbeth na Academia! Acho, porém, o teu banquo um tanto burguez”, acrescentou ainda outro. _ “ Senhores, exclamou Viegas todo tremulo ainda e de uma pallidez mortal, “ eu vi nesse momento o velho Landini chegar-se a mim e tirar-me a medida paa o caixão, exactamente como no dia em que com elle tratei do enterro do Deodato. Vi, senhores, não foi effeito do vinho, nem é conto que vos quero impingir, eu vi o velho Landini!”
* * *
Dessa noite por diante arazão foi desapparecendo aos poucos do attribulado cérebro de Arnaldo Viegas. Cessou os estudos, affundou-se cegamente na bebida e dentro de algum tempo estava completamente idiota. Com intervallos lhe surgia na mente confusa a temerosa Visão, o eterno mestre landini a tirar-lhe a medida para o caixão; em seus ouvidos zumbia constantemente o terrivel gracejo do armarinheiro: _ “ Due metri e dieci centimetri! Per la Madona voi sieti um signor difunto!” Em estado de completo idiotismo vagou durante algumas semanas pelas ruas de S.Bento, roto. Esfrangalhado, sórdido, até que afinal sua família mandou recolhel-o no Hospicio do Rio de Janeiro. No fim de alguns mezes o seu corpo era dado á sepultura.
do " livro dos Phantasmas"
VIRIATO PADILHA
RIO DE JANEIRO
LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA
71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73
1925
quinta-feira, 4 de junho de 2009
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