A historia que passamos a contar e que desentranhamos de uma velha chronica , já rendáda pela traça, remonta ao primeiro período da colonisação do Brasil.Teve por theatro a velha capitania de Pernambuco, e começa em tempos da governação geral de Manuel Telles Barreto.
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Lopo de Villa-Flôr era o que , com toda a franqueza e semcerimonia, se póde chamar um refinadissimo patife.
Bebado, jogador, devasso, desordeiro e mesmo ladro, quando se lhe offerecia occasião de defraudar o alheio, o governo de Portugal viu-se obrigado a deportal-o para o Brazil, não obstante ser elle filho espurio de um dos condes de Villa-Flôr, gente que surgia na primeira linha da nobreza lusitana.
Não eram raros os individuos desse quilate, entre os fidalgos do seculo XVI. Os extensos privilegios de que gosava a nobreza, a noção erronea e perniciosa do demerito trazido pelo trabalho a divisão social de classe, a frouxidão da justiça, embaraçada e desvirtuada pela imcompreensão do principio de equidade, uma pesada ignorancia, fanatismo e preconceitos de toda a casta, influíam tão directamente na depreciação do caráter, que até principes herdeiros presumptivos da Coroa, como esse filho de Henrique IV de Inglaterra, e outros, figuram ás vezes na tradição como heroes de orgias, onde da bebedeira se passava ao roubo e ao homicidio, sendo em seguida tudo isso lavado da consciencia por uma rica dotação a um convento ou uma peregrinação aos grandes centros de devoção christã _ Jerusalém, Roma, Santhiago, etc.
Ora, nestes casos estava o heróe da presente historia. Filho do Conde Villa-Flõr com a viuva de um fidalgo que morrêra na India, pelejando pelo lustre das quinas portuguezas, Lopo fora criado com todo carinho e mais que exagerada sollicitude no faustoso solar do conde. Crescêra, sendo-lhe permittidas pelo pai todas as extravagancias, e cedo os fâmulos e servos começaram a supportar o genio caprichoso e brutal do fidalguinho, sempre desculpado pelo velho conde que por elle tinha um affecto vivissimo.
Chegando á idade viril, Lopo começou, dilatado assim, o campo das suas aventuras, a exercer a sua indole, mas os simples camponios, que o tinham por verdadeiro demônio: quotidianamente chegavam ao pai noticias de espancamentos, desrespeitos a donzellas, e perversidades de toda a especie praticadas pelo seu Benjamin, e tanto este cresceu em audacia e
cynismo que um dia levantou mão criminosa contra o pai, quando o repreendia por certo delicto.
Indignou-se por tal fórma o velho e honrado conde, com esse iníquo procedimento do infame, que, fazendo calar o grande amor que lhe consagrava, o expulsou da casa paterna, cobrindo-o de maldições.
Então Lopo de Villa-Flôr passou-se para Lisboa, onde, em consequencia do alto conceito que gosava sua familia, recebeu logo ao chegar favoravel acolhimento na Corte. Cedo, porém, revelando o degradante fundo do seu caracter, imcompatibilisou-se com a sociedade lisboense , e a Policia do rei viu-se obrigada a deportal-o para o Brazil, onde não seria tão prejudicial <
Eis o personagem que vai figurar como protagonista da presente historia.
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Com a mudança de ares não modificou Lopo o seu comportamento, e a população de Olinda contou desde o dia da sua chegada com mais um flagello em seu seio. A sua vida decorria entre o bordel, a taverna e a espelunca, attribuindo-se-lhe grande numero de desacatos ás pessoas e lesões ás propriedades. As cousas chegaram a tal ponto que o ouvidor lhe moveu séria perseguição, e o nosso valdevinos, para furtar-se ás garras da justiça, evadiu-se de Olinda, por uma madrugada, buscando a Villa do Cabo. Com isto contentaram-se os moradores da velha capital pernambucana e o ouvidor deu por finda a sua missão.
A nossa, porém, irá mais longe, e nessa batida não abandonaremos mais o tresloucado fidalgote.
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Havia duas horas que Lopo de Villa-Flôr cavalgava em direcção ao Cabo, e o sol já vinha rompendo, quando percebeu na sua frente um outro cavalleiro que seguia a mesma direcção que elle. Lopo, interessando-se em saber quem era o cavalleiro, deu de esporas á egua que montava, e em breves minutos emparelhava com o matutino viandante.
Era d.Sancho, joven fidalgo seu conhecido, bom rapaz, porém um tanto amigo do jogo, facto que permittiu a Villa-Flôr travar com elle relações em uma espelunca.
Cumprimentaram-se alegremente, e logo entabolaram conversação. D.Sancho ia á Villa da Escada visitar um tio, rico proprietario de engenhos, dessa localidade; Lopo Villa-Flôr, occultando o verdadeiro motivo da sua retirada de Olinda, disse ao companheiro que se dirigia á villa do Cabo por motivo de negocio.
Não falaram mais sobe os motivos da jornada, e começaram os dois, ao trote lago de suas cavalgaduras, a discretear sobre a vida em Olinda, e principalmete sobre aventuras de jogo.
Assim chegaram a um ponto em que o caminho era atravessado por um limpido regato. Ahi, virando-se d.sancho para Villa-Flôr, disse-lhe:
_ “ Amigo, já que o acaso nos reuniu para companheiros de jornada, permitta que o convide participar de um magro almoço que aqui trago, o qual, embora pouco solido e variado, servirá para restabelecer em nossos estomagos um certo equilibrio”.
_ “ De bom grado”, repondeu Villa-Flôr. “ mesmo porque o ar fresco da manhã e o trote deste cavallo abriram-me damnadamente o apetite”.
_ “ Nesse caso façamos alto aqui, afim de aproveitarmos esta belissima agua”.
_ “ Como quéira”.
Apeiaram-se, amarraram os cavallos no tronco de um espinheiro, e sentaram-se commodamente na barranca afim de apreciarem o almoço, que constava de uma boa lasca de presunto, um requeijão, farinha de mandioca e um botijão de excellente vinho portuguez. Comeram e beberam melhor, tudo na mais satisfatória harmonia, e , terminada a refeição, Lopo disse para o companheiro:
_” Para que a nossa pequena festa seja completa devemos agora jogar alguns cruzados numa pequena parada”.
_” Mas onde estão os dados?”.
_” Tenho-os aqui”.
_” Todavia não jogo, pois não venho sufficientemente abastecido de dinheiro”.
_” Nem eu tambem me acho folgado. No emtanto, vinte ou trinta cruzados que se percam não aleijam ninguem, nem pelo temor de perdel-os deve-se deixar escapar tão bôa ocasião “.
_” Vá lá, porém com uma condição”.
_ “ Aceito-a desde já”.
_” È que, quando qualquer de nós tenha perdido quarenta cruzados, não se jogará mais”.
_” A´s mil maravilhas. Todo o meu dinheiro é apenas cincoenta cruzados e assim me ficarão ainda dez para os gastos”.
Convem observar ao leitor que cincoenta cruzados, ou por outra vinte mil réis, eram naquelle tempo uma quantia assaz importante, a regular-se pelos ordenados dos governadores-geraes, os quaes, embora representassem a pessoa real e tivessem um mando que ia até o direito de morte em peões e gentios, apenas percebiam 400$000 annuaes.
Estabelecida a preliminar da suspensão do jogo, logo que um dos parceiros perdesse quarenta cruzados, Lopo de Villa-Flôr , tirou do bolso do gibão uns dados de osso , e começou a partida, tendo cada um parado dez cruzados de mão.
Lopo perdeu, e d.Sancho embolsou o dinheiro. Seguiu-se uma outra partida, tambem de dez, e Lopo tornou a perder. Já um tanto impaciente, Lopo jogou numa terceira partida o resto dos quarenta cruzados da convenção, isto é, vinte.
Tornou a perder, e d.Sancho, embolsando as moedas, levantou-se disposto a proseguir em sua viagem. Deteve-o Villa-Flôr com estas palavras:
_ “ Amigo, joguemos outra partida”.
_ “ Por forma alguma; segundo dissestes, o vosso dinheiro constava unicamente de 50 cruzados, perdestes 40. Com que dinheiro fareis o resto de vossa jornada, si a sorte continuar a fugir de voz numa nova parada? Eu tenho por principio inabalavel não restituir dinheiro ganho em jogo, ainda que o perdesse o meu proprio pai , e depois foi a condição que ditei antes de começarmos o jogo...”.
_ “ Com que, então d.Sancho”, redargüiu colerico o filho do conde de Villa-Flôr, me arrancaste quarenta cruzados e assim me deixais no meio da estrada, quase sem dinheiro para pagar a hospedagem na primeira albergaria?!...permitti que vos diga, sr.d. Sancho, que vosso procedimento se assemelha muito ao de um bandido de estrada”.
_” Sr.Lopo, si a nobre familia de Villa-Flôr tem por habito tragar sem protesto de ponta de espada insultos como os que acabais de proferir, nunca a de Sancho de Miranda, em todos os seus descendentes, até o mais longinquo futuro, soffrel-as-á sem responder ao atrevido, enristando-lhe o ferro dos desagravos honestos”.
Eram de bom gosto nesse tempo essas tiradas infladas de basofia e sensitivos pundonores, mas assim como se dizia fazia-se, e , seguindo a regra d. Sancho procurou desnudar a espada.
Embaraçou-se, porém, em tiral-a da bainha, e o pérfido Villa-Flôr, aproveitando-se desse desarmamento momentaneo, sacou da sua adaga, e enterrou-a até as guardas no peito do inimigo.
D.Sancho, sem soltar um gemido, tombou, golfando sangue pela boca.
Em tres segundos era cadaver.
Lopo de Villa-Flôr, saqueando-lhe as algibeiras, arrastou o corpo para junto de um penhasco, que da estrada não se percebia, e em seguida continuou a sua viagem, sem se preoccupar o mais levemente possivel com o monstruoso crime que acabava de perpetrar.
Ora...tinha na algibeira dinheiro sufficiente para a crápula...Que lhe impotava o cadaver feito por suas mãos, que ficava apodrecendo junto á estrada, sem ao menos uma cruz presidindo à final consumação da carne?
* * *
Passaram os tempos. Insufficiente como era a policia no primeiro periodo de colonisação do Brazil, tendo de exercer-se de minguadas forças e em dilatadissimas extensões, apezar dos esforços empregados pela familia de d.Sancho, afim de descobril-o, o crime de Lopo Villa-Flôr não foi conhecido, e o assassino continuou a desregrada vida de bebedeiras, jogatinas e crápula.
Cinco annos já eram decorridos, quando aconteceu um dia cursar Villa-Flôr caminho entre a Escada e Olinda. Era a primeira vez que isso lhe acontecia, depois que ali praticára o seu nefando homicidio, do qual bem pouco se lembrava já.
Cavalgando, chegou ao riacho, onde cinco annos antes havia feito a merenda e jogado aquella partida de dados que tão fatal fora a d.Sancho.
Então veiu-lhe ao pensamento todos os incidentes dàquella triste scena, e como por sugestão diabólica teve viva curiosidade de examinar o logar em que havia depositado o cadaver do inditoso mancebo. Não poude resistir á tentação, e, apeiando-se, dirigiu-se para o penhasco. Logo o encontrou.
O cadáver apodrecêra ali mesmo, e fora devorado pelos corvos. Os ossos achavam-se espalhados por um cicuito de quatro a cinco braças, no qual a relva havia fenecido.
Bem no centro da ossada dispersa achava-se a caveira.
Lopo de Villa-Flôr teve um gesto de horror, assim que avistou esses restos, porém domando tal movimento, procurou encher-se de coragem, e apostrophou a caveira da seguinte fórma:
_” Então, d.Sancho, queres agora jogar mais uma partida?”.
E sorriu-se, admirado do próprio cynismo.
Qual não foi, porém, o seu assombro ao ver a caveira torcer-se no chão com estalidos secos, e responder-lhe em voz de tão estranha modulação que lhe fez gelar o sangue nas veias:
Vai seguindo teu caminho,
Não perturbes minha paz,
Joga, encharca-te de vinho,
Faze tudo o que te apraz.
Por ora nada te opprime,
E não te digo mais nada,
Mas tua conta de crime,
Será na Bahia ajustada.
Lopo de Villa-Flôr, ao ouvir tão extranhos versos, cujo sentido não compreendia, sentiu os cabellos levantarem-se-lhe na cabeça, e o corpo entrou-lhe todo a tremer. Assim permaneceu alguns segundos, porém, afinal, recobrando algum animo, correu espavorido para a estrada, montou a Cavallo, e a todo galope fugiu daquelle sitio assombrado.
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As medonhas palavras que ouvira não podiam, no emtanto, sair-lhe da mente; e, assim, na primeira povoação a que chegou, procurou um padre e pediu-lhe que o ouvisse de confissão, communicando ao sacerdote o seu crime e a terrivel ameaça da phantastica caveira.
O Padre ficou assombrado com o que ouvira, e prescrevendo ao criminoso dura penitencia, aconselhou-o que nunca dirigisse os seus passos á Bahia pois as palavras da caveira lhe annunciavam que nesse logar encontraria elle o castigo do seu delicto.
Durante alguns mezes Lopo de Villa-Flôr conservou-se appreensivo sobre o seu destino, mas afinal a vida de dissipação que levava, e bem assim o firme proposito que havia formado de nunca ir á Bahia, tanquilisaram-n`o de todo, e pouco a pouco foi perdendo a lembrança do succedido.
Por esse tempo os hollandezes tinham invadido Pernambuco, e vencendo a tenaz resistência que lhes havia opposto o esforçado Mathias de Albuquerque, haviam conseguido destruir o arraial do Bom-Jesus e expellir os portuguezes de Pernambuco, depois de derrotal-os em diversos pontos.
Lopo de Villa-Flôr pelejava ao lado dos portuguezes, como commandante de uma companhia, e, assim, quando o príncipe Bagnuolo, após o insucesso de Porto-Calvo, retirára-se para as Alagoas, Lopo de Villa-Flôr, bem como todo o exercito protuguez fora obrigado a acompanhal-o.
Senhores de Pernambuco, os batavos perseguiram os portuguezes até as margens do S.Francisco, e estes, não podendo offerecer resistência efficaz ao inimigo, em Sergipe, tiveram de se recolher á Bahia.
Achou-se, pois Lopo de Villa-Flôr sem o querer, e sem mesmo nisto pensar, no logar que tanto temia, ali conduzido pelo acaso ou pelo desígnio da Providencia.
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No emtanto o filho do conde portuguez não ligava mais a menor importancia ás suas antigas appreensões. Os episodios da grande guerra em que se achava empenhado, o espectaculo da morte que tantas vezes havia presenciado, tornaram-no inacessivel ao remorso, e, como outr`ora, a sua unica preoccupação era jogar, beber e folgar.
Ora, de uma vez Lopo de Villa-Flôr convidára alguns camaradas de armas para almoçar com elle e depois jogar algumas partidas.
A reunião devia te logar numa sexta-feira, e Villa-Flôr na manhã desse dia dirigiu-se á Praça afim de comprar qualquer peça de carne com que regalasse os amigos.
Com a permanencia das tropas Pernambucanas na Bahia, a vida nesta cidade tornára-se muito difícil, sendo geral a escassez de viveres. Os que apareciam nas feiras eram logo arrematados por preços elevadissimos e muitissimas familias começavam a soffrer duras privações.
Assim, Lopo de Villa-Flôr teve enorme difficuldade em encontrar um bom guisado para offerecer aos seus convidados. No mercado da cidade não havia mais nada de suculento para comprar, tendo Lopo que se contentar com uma cabeça de carneiro, cujo corpo já tinha sido arrematado por alguns afficiaes que andaram mais adiantados do que elle.
Embora mortificado por esse contratempo, Lopo de Villa-Flôr, pagou bem caro a cabeça de carneiro, mettendo-a dentro de um saco de estopa, e levou-a para casa, confiando que seu cozinheiro, um creoulo bahiano, saberia dar a essa peça inferior um tempero digno do paladar dos seus amigos.
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Quando chegou á sua habitação, já lá se achavam os convidados: eram uns quatro ou cinco rapazes alegres que o receberam com uma salva de palmas e exclamações jubilosas.
_” Com que, então”, disse um delles, “ temos hoje um almoço de arromba?”.
_”Qual o quê”, respondeu Lopo constristado, “ nada encontrei digno de vós, nos mercados; tudo já tinha sido arrematado. Em caminho encontrei-me com um frade gordo de S.Francisco, que conduzia embrulhado no habito seboso um excellente capão.
tive ímpetos de assassinar aquelle guloso servo de Deus, e roubar-lhe o bicho, que daria uma magnífica cabidella, porém temi encontrar-me no Inferno com aquelle patife, o qual, por seu compadresco com o Diabo me obigaria a restituir-lhe o frangão”.
Uma gargalhada acolheu essa tirada.
_” Mas então, nada encontraste?”
_ “ Isso não; aqui trago uma bella cabeça de carneiro, que, sendo confiada á habilidade do nosso Lourenço, que em materia de cozinha é mais perito do que o seu primo Henrique Dias, em questão de guerrilha, nos dará um almoço regular”.
_” Pois, então, viva a cabeça de carneiro, em falta de cousa melhor” exclamaram os rapazes alegremente.
_” O que lhes garanto é que é uma cabeça de carneiro do tamanho da de um novilho. Eil-a”.
E, dizendo isso, Lopo desceu a boca do saco e fez rolar no soalho o conteudo do mesmo.
Mas....oh! assombro!
Em logar de uma cabeça de carneiro, rolou na sala, a espadanar sangue, uma cousa monstruosa. O que Lopo e seus convidados viram, no maior espanto, foi uma cabeça humana, medonhamente livida, de olhos vidrados, labios espumantes e cabellos empastados.
Um grito de pavor saiu de todos os peitos, e Lopo de Villa-Flôr, não podendo conter a extraordinaria emoção que delle se apoderou, exclamou tremulo e de olhos esbugalhados:
_”D.Sancho de Miranda!”.
O assassino tinha reconhecido nos traços daquella cabeça as feições da sua victima.
Nada mais poude dizer: uma nevoa densa obscureceu-lhe a vista, ganhou-lhe o corpo todo um torpor indizivel, e rolou sem sentidos na sala.
* * *
Comprehenderam logo os companheiros que se tratava de um crime nefando, pois alguns reconheceram igualmente aquella cabeça como a de d.Sancho que havia muitos annos tinha desaparecido da capitania de Pernambuco.
Assim entregarm Lopo de Villa-Flôr á justiça, e o indigno, sendo tomado de extranha confusão, revelou immediatamente o crime que havia commettido, com todas as suas minudencias e agravantes.
Foi-lhe instaurado processo;e, comparecendo em julgamento, condenado á morte, sentença essa que a Casa-da-Supplicação de Lisboa confirmou. Como era nobre, não subiu á forca: cortaram-lhe simplesmente a cabeça em uma das praças da Bahia, e assim se cumpriu a extranha ameaça proferida pela caveira de d.Sancho... “E”, termina a chronica de onde extrairmos esta historia, “ tudo assim aconteceu, para que não ficasse no mundo sem castigo um homem que tantos agravos ás pessoas e bens havia praticado _ um endurecido peccador que agora está pugando as suas grandes culpas nas profundezas dos infernos”.
Do " O livro dos Phantasmas"
Por Viriato Padilha
Rio de Janeiro
Edição 1925

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