Viajava eu por uma dessas estradas de serra abaixo, tão incommodas pelos constantes lameiros e pantanos que nellas se encontram, nos quaes os cavallos enterram-se, ás vezes, até os peitos. Descambava o sol para o occaso, e já me sentia, enfadado com a monotonia da paizagem, baixa, uniforme, apresentando sempre os mesmos mangues de vegetação archaica, que recordam a de epocas geologicas decorridas, a mesma pobreza de culturas, os mesmos ranchos de sapé atufados na capoeira e com um magote de crianças magras e lambuzadas á porta. O meu camarada, ( é este o nome que se dá ao criado que acompanha o viajante e trata dos animaes) nascêra, por ali mesmo em Iguassú ou Itaguahy. Conhecia a palmo as paragens que atravessavamos, e de quando em vez esclarecia-me sobre aquella insipida região, prestan-me informações interessantes acerca dos bipedes que por ali viviam. Candido era o nome do meu camarada, que tambem acudia ao chamado de Bigode, alcunha que lhe haviam posto. Era um mulato de testa estreita, olhos apertados, com falta de dentes na frente da boca, e magro. Não sabia ler, nem escrever, porem tinha feito muitas viagens pelo interior dos estados do Rio de Janeiro e de Minas, e nellas adquirira certo traquejo da vida. Era sobretudo muito loquaz, dessa loquacidade da gente do povo, pouco embaraçosa no emprego das phrases, rustica, desataviada, porem viva, e muitas vezes originalissima pelo emprego de imagens e conceitos interessantes. Era, em summa, um excellente companheiro de viagem. Caminhando, chegamos a uma pequena, porem bem construida casa em que se achava em completo abandono. A Casa achava-se rente com a estrada, e tudo indicava que ali não residia ninguem, haveria ja annos. Uma das janellas da sala da frente tinha sido arrancada e estava por terra; o vento havia levantado algumas telhas; e abundante vegetação invadia o pequeno terreiro e cobria os tres degraus que conduziam á porta principal da habitação. Aos lados via-se uma engenhoca de moer canna e uma roda de farinha, porém tudo a desapparecer quase por baixo das tiriricas e outras cyperaceas, bem como abafando-se sob longas spathas desprendidas do velho coqueiro de indayá. Causou-me admiração ver em tal estado de abandono uma morada que parecia offerecer regular conforto, quando no emtanto miseraveis palhoças, esburacadas e mal cobertas, achavam-se atulhadas de gente. Nesse sentido dirigi uma pergunta ao meu pagem: _ “ Diga-me, sr. Bigode, por que motivo se ve em tal lastimável abandono esta excellente casa?” _ “ Eh! Patrão” respondeu-me Bigode, que parecia ter esperado por esta naturalissima interrogação, “ essa é a Casa-do-Lobishomem. É muito conhecida. Até já saiu nas folhas do Rio. Depois que o Lobishomem desappareceu, ninguem mais quis morar aqui. No emtanto é pena, pois em toda esta redondeza não ha uma casa tão boa, em terras que deem melhor mandioca e melhor canna. Mas... que quer vosmecê? Quando o povo scisma com qualquer cousa, acabou-se, não ha nada que lh´a tire da cabeça”. _ ! Então, sr. Bigode, esta casa pertenceu a um Lobishomem?” _ “ Sim, senhor; um Lobishomem, e daquelles verdadeiros mesmo. Foi desencantado pelo Juca Bem-bem que era camarada do velho Moura. Conheci muito o Juca; p´ra um pé de viola não havia outro”. _ “ E ha mesmo Lobishomens, sr. Bigode?”. _” Eh? Patrão!” exclamou o caipira, como que admirado da minha crassa ignorancia ou estupida incredulidade, pois vomecê ainda pergunta ? Ha Lobishomens e de muitas qualidades. Eu mesmo que aqui estou já tenho topado com elles nas sexta-feiras, mas comigo nada podem. Trago no pescoço uma oração que é mesmo um porrete bemdito para tudo que é cousa má. Ora patrão vomecê perguntar si ha mesmo Lobishomens ?! Toda mulher que tiver sete filhos machos, póde ter certeza que um delles vira Lobishomem. E, sendo sete meninas, uma, mais cedo ou mais tarde vira Bruxa. O Lobishomem, patrão, é o dizimo do Diabo”. Á vista de definição tão explicita, não me era possivel duvidar mais da existencia do Lobishomem.Envergonhei-me, até da incerteza em que me achava acerca da realidade de personagem de existencia tão comprovada, e pedi ao Bigode que me contasse a historia do Lobishomem que outr´ora habitára a casa cujo abandono agora me admirava. Afinal tinha descoberto o meio de dissipar o tedio de uma viagem por sitios tão sem perspectiva e mais que monotona paizagem. A historia é pouco mais ou menos a que os leitores vão ler.
* * *
O sr. Bazilio de Moura era um lavradorzinho remediado e pai de alguns casaes de filhos, todos já afamiliados. Apenas restava na casa paterna a caçula, d.Cecilia, moça regularmente bonita. Enamorou-se della Joaquim Pacheco, um dos sete filhos varões do velho Pacheco, negociante de seccos e molhados em Marapicú. Joaquim Pacheco, ou antes Quincas Pacheco, era um rapaz sem defeitos , e com um começo de fortuna. Já se vê que constituia um bom partido; e tendo nisso concordado o velho Moura e a filha, ajustou-se o casamento, sendo este logo realisado, não obstante apresentar o noivo intensa amarellidão, que fazia receiar por sua saude. Mas, em serra baixo, quem não sofre mais ou menos do fígado? E quem tem cores vivas? Assim, não foi estorvo ao enlace matrimonial a pallidez do Quincas Pacheco. Fez-se o casamento e os novéis esposos foram residir na aceiada casinha que me havia chamado a attenção pelo seu prematuro abandono, e que ficava pouco distante da do velho Moura, ali um pouco p`ra dentro. As extremas do sitio de um emendavam com as de outro. O casamento fizera-se em um sabbado, e nos primeiros dias não houve cousa de importante a relatar-se. Os casadinhos saboreavam a sua lua-de-mel como todo mundo; abraçavam-se, beijavam-se a todo instante, faziam castellos no ar... Mas, na primeira noite de sexta-feira, que passaram juntos, isto é, sete dias depois do enlace matrimonial, começou a complicar-se a situação dos conjuges. Achava-se, d. Cecilia acordada, isso por valta da meia-noite, quando sentiu o marido apalpal-a como si procurasse verificar si ella estava realmente adormecida, e assim julgando, esgueirou-se por entre os lençóes, dirigiu-se devagarinho para a porta, abriu-a e saiu para o terreiro. Só quando o dia vinha rompendo é que Quincas Pacheco, com o corpo frio como o focinho de um cão, voltou para o leito conjugal. D. Cecilia ficou apprehensiva com essa ausencia nocturna do marido. “ Seria possivel que logo, na primeira semana casado, Quincas Pacheco, a abandonasse para ir procurar alguma descarada?! Isso seria horroroso!...” Mais admirada ficou D. Cecilia ao observar no dia seguinte que o marido se achava mais pallido que de costume, que seus olhos tinham um fulgor de singular estranheza, que se havia tornado taciturno e procurava evital-a. Effectivamente Quinca Pacheco achava-se muito alterado em physionomia e modos, e assim se conservou por tres longos dias. No quarto , porém, voltou um tanto ao antigo estado, e D. Cecilia, com muito boas maneiras, procurou saber delle o motivo porque se ausentára do leito conjugal durante a noite de sexta-feira. Mal, no emtanto, pronunciou a rapariga as primeira palavras sobre esse assumpto, encheu-se Quincas de inexplicavel furor, e, arrancando-se brutalmente dos braços da esposa, foi sentar-se meditabundo na porta do quintal, onde passou todo o resto do dia, sem querer comer nem beber. D. Cecilia mortificou-se extremamente com tal procedimento.era, porem, excellente criatura, e, compreendendo que aquelle assumpto desgostava o marido, evitou dàhi por diante falar mais nelle, ao mesmo tempo que, por intelligentes carinhos se esforçava por arrancal-o do pesado silencio em que elle se engolfára. Assim restabeleceu-se um pouco a tranquillidade no casal. D.Cecilia fizera o sacrificio de seu orgulho e curiosidade, em beneficioda hamonia do lar.
Isso durou uns três dias. Na sexta-feira seguinte, porem, quando o relogio americano que havia na sala de jantar vibrara as doze horas da meia-noite, Quincas Pacheco, tal como fizera na sexta-feira anterior, tornou a deslisar mansamente da cama, e ganhando a porta da rua poz-se no mundo. Só voltou quando os gallos começavam a cantar. D. Cecilia, que por ter o somno muito leve despetára quando o marido fizera girar a chave na fechadura, ainda mais incommodada ficou, do que da outra vez, e, no seu leito solitario revelou-se cheia de impaciencia e desgostos até a chegada de Quincas. “ Com certeza Quincas Pacheco tinha alguma amante, pensava ella, “ e as alterações que nelle havia obsevado, não eram outra cousa sinão o arrependimento de se ter casado com ella. Fizera-se o enlace tão apressadamente!...Quem sabia das suas desgraças com outras mulheres?” No dia seguinte Quincas Pacheco estava livido e o seu olhar terrivelmente sombrio. Cecilia quasi o desconheceu. Seu marido não falava, pouco comia, e, ás vezes, soltava uns grunhidos singulares, que mais se assemelhavam aos de um porco do que sons produzido por garganta humana. Á noite, querendo ela affagal-o, Quicas repelliu-a com modos bruscos. Era um homem completamente differente do da primeira semana, pois embora sempre fosse um tanto tristonho, mostrára-se até então delicado e carinhoso para com ella. Depois de pensar durante algumas horas sobre o que devia fazer, d.Cecilia, resolveu levar ao conhecimento do pa io que se passava de extraordinario em sua casa. Assim, dirigiu-se á roça do velho Moura, no domingo, e foi só, pois Quincas Pacheco não quis acompanhal-a. Ahi chegada, referiu ao pai todos os seus desgostos, tornando-o sciente da conducta mais que irregular do esposo. O ancião, que não esperava arrufos entre casadinhos de fresco, ficou attonito ao ouvir as queixas da filha, e mais ainda a natureza dellas. Assim, depois de coçar a cabeça por algum tempo, o que nelle era signal de grande embaraço, disse-lhe: _ “ Minha filha, ahi anda cousa muito seria, talvez mais do que pensas. Não é possivel que o rapaz saia para procurar mulher, pois sabes melhor do que eu que nestas redondezas não ha nenhuma vida má, e demais Quincas é ainda muito novo no logar para que pudesse formar já relações de tal natureza. Olha, faze o que te digo. Não dês por achada, continua a tratal-o bem, nada lhe fales sobre os seus passeios ás tantas da noite, e á primeira vez que elle tornar a sair acompanha-o de longe, e informa-te por ti mesma o motivo de seus giros. È o mais prudente. Nada de juízos temerarios sobre o pobre rapaz”. Aceitou d.Cecilia o conselho paterno, e voltando para casa, esforçou-se por bem tratar o esposo, que se mantinha sempre no seu pesado mutismo, e continuava a assombral-a com seus modos bruscos. D.Cecilia tragou tudo com a maior resignação. No emtanto sentia percorrer-lhe todo corpo um calafrio quando Quincas soltava o grunhido estranho que principiára e emittir logo depois do primeiro passeio. Estaria doido o infeliz? Viviam assim os dois, até que chegou a outra sexta-feira , e como já havia succedido nas duas antecedentes , Quincas Pacheco, logo que no relogio de parede o tympano vibrou doze pancadas, esgueirou-se sorrateiramente da cama, abriu a porta e ganhou o mundo. Logo após d.Cecilia, que por prevenção se achava acordada, enfiou um roupão de lã cinzenta que possuía, embrulhou-se num chalé da mesma côr , e saiu para fora de casa o mais lestamente possivel , afim de não perder de vista o esposo. Era noite de lua cheia e tudo estava claro: fácil lhe foi conseguir avistal-o Quincas achava-se encostado ao oitão da casa, e , ali demorou-se alguns minutos, como si estivesse formando um projecto. Depois dirigiu-se lento, cabisbaixo e muito triste na direcção de um telheiro onde dormiam os porcos; e ao approximar-se delle começou a emittir os singulares grunhidos que tanto haviam apavorado a moça. Esta o acompanhava á distancia. Sempre grunhindo, Quincas Pacheco approximou-se do telheiro e os porcos ao presentiram-n´o levantaram-se e fugiram. Então Quincas Pacheco tirou a roupa, e atirando-se na poeira que servia de leito aos bacorinhos, espojou-se longo tempo, sempre grunhindo ferozmente. D.Cecilia não sabia que pensar do que estava presenciando. Parecia-lhe que o marido havia enlouquecido repentinamente, e ainda não tinha voltado do seu grande espanto quando viu Quincas Pacheco erguer-se , não sob a figura humana, porém sim transformado em um grande porco, de cerdas eriçadas e prezas salientes, o qual poz-se logo de pé e começou a bater os dentes e a abanar as orelhas de uma maneira horrível!! Os olhos dessa cousa monstruosa luziam como brazas, e dentuça branca, cerrada e ponteaguda destacava-se no negrume dos pellos. D, Cecília, levada ao auge do assombro, não poude reprimir um grito, e a extranha alimária, assim que o ouviu, levantou a grande e pesada cabeça, farejou por alguns instantes e depois avançou para o logar em que a rapariga se achava. A moça, com toda a força de suas pernas e extensão de seu fôlego, bateu em retirada para casa. Quando porém, alcançava o terreiro já o monstro tinha dado a volta á habitação, e cercava-a pelo outro lado. O grande medo que se apoderou da jovem deu-lhe forças para voltar por onde tinha vindo e chegando ao alpendre de porcos enfiou pelo caminho que conduzia á casa do pai. Corria a mais não poder, e a fera sempre a acompanhal-a. Dez minutos durou a perseguição, e de uma vez o porco chegou a deitar-lhe os dentes no roupão de lã que se rompeu com o esforço empregado pela moça. Afinal d.Cecilia, sem afrouxar a carreira, chegou á beira de um regato que atravessava o caminho e o traspoz de um salto. O monstro ia-lhe ainda ao enlaço, mas ao ver a agua estacou e retrocedeu, sempre batendo os dentes. Já era tempo também. A moça estava quase a cair de cansaço; tremiam-lhe as pernas, offegava, um suor frio corria-lhe pelas fontes e estava quase para tombar sem alento na estrada, quando ouviu uma voz que cantava:
Tomará que o matto seque,Quero vê que as cobras come;É cousa que causa espantoVê muié passá sem home.Oh! Minha senhora dona,Que tristeza e que pená!...A chinela de um paulistaNuma sala faz chorá. A moça reconheceu logo essa voz: era do Juca Bembem, camarada da casa de seu pai. E assim que este se approximou della pediu-lhe que a levasse para junto do velho. O rapaz, muito admirado por vel-a áquella hora na estrada, obedeceu-lhe immediatemente. D`ali á casa do Moura apenas distavam alguns passos. Ao entrar na sala da casa paterna, Cecília estava pallida como uma defunta. O velho Moura, acordado em sobresalto, assim que percebeu a filha em tal estado, recuou assombrado, mas logo acercando-se della com solicitude, perguntou-lhe o que havia acontecido. Cecília, depois de um quarto de hora em que não pode articular palavra, contou-lhe com voz sumida toda a historia da transformação do marido, em porco, e bem assim a fórma pela qual fôra perseguida até o riacho do caminho. Bazilio de Moura ficou de boca aberta ao ouvir tão espantosa narração, e como que sem coragem para pronunciar a terrivel palavra que logo lhe acudira á mente. Comtudo, Juca Bembem que tambem ouvira a historia, logo que a moça chegou ao episodio do riacho, exclamou com vivacidade: _ “ D.Cecilia, desculpe si offendo sem querer, mas seu marido é Lobishomem”! _” È verdade”, confirmou o velho Moura consternado, porém animado pela entrada de Juca, “ é verdade, minha filha. Que desgraça! Qincas é Lobishomem!” Esta scena muda durou alguns instantes, e decorridos elles, Juca Bembem deu alguns passos para a moça disse-lhe com decisão: _ “Senhora D.Cecilia, enxugue o seu pranto; Deus dá remedio para tudo e eu lhe garanto que hei de desencantar seu marido”. _ “ Hei de desencantar seu marido, custe o que custar. Muita gente já tem feito o mesmo e eu não hei de ser dos mais caiporas, si Deus e Nossa Senhora da Conceição me ajudarem. D. Cecília, peço-lhe que não volte esta semana e a seguinte para sua casa e deixe o resto por minha conta.Na sexta-feira vou ver o bruto. Entretanto, si elle cá vier amanhã, digam-lhe que vou morar com elle alguns dias. Vomecês inventem o que quizerem para elle não desconfiar”. E dizendo isso Juca Bembem despediu-se dos dois e retirou-se. Percebia-se no seu semblante que havia formado uma resolução inabalavel. No outro dia, logo pela manhã. Quincas Pacheco veiu á casa do velho Moura buscar a mulher. Esta, ao avistal-o soltou um grito de horror...É que nos dentes do marido via pregados alguns fiapos do seu roupão de lã cinzenta.Não havia mais que duvidar. Quincas Pacheco era Lobishomem. Logo em seguida, porém, tranquilisou-se, e disse ao marido que não podia ir para casa porquanto seu pai se achava doente e não tinha quem o tratasse. Effectivamente o velho Moura, com o abalo que soffrêra, caira de cama. Disse mais a moça que tinha combinado com Juca Bembem que emquanto seu pai se conservasse enfermo, fosse elle para o sitio, afim de fazer-lhe companhia, preparar-lhe a comida e tratar da criação. Quincas Pacheco achava-se de uma lividez de cadaver e durante o tempo que a mulher lhe falára, nem uma só voz lhe tirára o olhar. Assim que ella terminou a sua explicação, Quincas, embora fazendo grande esforço para reprimil-o, soltou um grunhido rouco, convulso, e retirou-se bruscamente.
* * *
Com o piedoso intuito de desencantar o Lobishomem, Juca Bembem, conforme ficára combinado, fôra viver com Quincas Pacheco. É crença geral que fazendo-se sangue na pessoa, quando ela se acha transforamada nesse animal phantastico, o Diabo vem lamber o sangue, considera-se pago o seu dizimo, e a pessoa isenta-se do seu sombrio fadario. Ora, Juca Bembem sentia-se com coragem para travar combate com a phantastica alimária e feril-a. Nos primeiros dias de sua permanencia no sitio de Quincas, nada houve de anormal. Pacheco sempre muito sombrio e melancolico, evitava falar com o camarada, mas este não se dava por achado e ia fazendo silenciosamente as suas obrigações, até que chegou a fatidica sexta-feira. Juca Bembem dormia na sala, em uma rêde, e , por precaução, nessa noite resistiu ao somno, e nem ao menos despiu-se. Qunado o relogio bateu doze horas, ouviu ruido no quarto do patrão. D´ahi a pouco este assomou á porta e dirigindo-se para a da rua abriu-a e saiu para fóra. . Juca Bembem fez outro tanto, armando-se de uma fouce bem amolada, que de antemão tinha encostado á parede, e acompanhou Pacheco. Este foi direitinho ao alpendre dos porcos, grunhindo pelo caminho. Ali chegado, despiu-se, e atirou-se á poeira, esponjando-se nella em todos os sentidos, e pouco depois erguia-se transformado em porco.Juca Bembem, sentiu os cabellos se arrepiarem na cabeça, mas não perdeu o animo e dirigindo-se para o monstro gritou-lhe em voz ameaçadora: _” Hoje é comigo, Lobishomem!” O porco levantou a cabeça, bateu as grandes orelhas pendentes e lançou-se sobre Bembem. Este, que se achava prevenido, de um salto evitou o esbarro. Voltou o porco ao ataque, porém Juca tornou a furtar-lhe o corpo, e quando pela terceira vez a fera investiu contra elle, o destro caipira vibrou-lhe a foice pelo fio do lombo, e a arma pegando em uma das orelhas do Lobishomem fez della jorrar um grande esguicho de sangue. Immediatamente surgiu em frente do rapaz Quincas Pacheco e desappareceu o porco. Quincas Pacheco estava extremamente pallido e cansado. _ “ Que é isso patrão? Exclamou Juca Bembem”. Perdôe-me si o feri!...” “ Ah, meu bom amigo, respondeu-lhe com voz cava Quincas Pacheco, “ que grande serviço te devo! Livraste-mede um penoso e miseravel fadario. Graças á tua coragem, deixei de ser Lobishomem. Anda comigo, quero recompensar-te generosamente”. E partiu para casa. Ao chegar ao terreiro, Pacheco virou-se para Bembem e disse-lhe: _” Espera-me aqui. Vou buscar uma “ molhadura” para recompensar o teu grande serviço”. Juca Bembem ficou esperando. Pacheco entrou em casa. D´ahi a pouco assomava á porta , mas a “molhadura” que trazia era uma espingarda carregada e antes que Bembem pudesse fazer um movimento para fugir, pregou-lhe um enorme tiro, quase a queima roupa. Juca Bembem, caiu, e d´ahi a tres dias entregava a alma a Deus. Haviam-lhe entrado no corpo dezesseis caroços de chumbo grosso. Desde esse dia tambem nunca mais ninguem via Quincas Pacheco. Consta que fugira para os serões de Minas de Goyaz. _ “Agora”, disse-me Bigode, depois de terminar a historia que para aqui transportei, somente alterando um pouco a linguagem, “ Juca Bembem morreu porque não sabia de todas as manhas do bicho. Elle devia ter espetado a foice no chão, posto nella o seu chapéo e o casaco, e esconder-se a um canto. O outro dava-lhe o tiro que não pegava, e então seria obrigado a dar-lhe o dinheiro que lhe promettêra. Não sabem das cousas e querem se metter nellas! Não, que desencantar um lobishomem tem suas historias! A pessoa depois que se livra daquelle fado ruim, fica envergonhada, e , si póde, dá cabo de quem a desencantou. Coitado do Juca Bembem, era tão bom rapaz, e valente até ali!...” _” E D. Cecília, qual foi seu destino?” perguntei, interessado pela sorte da infeliz esposa do Lobishomem. _” D. cecília”, rspondeu Bigode, “ nunca mais quis habitar sua casa. Os cabellos se lhe embranqueceram de todo dentro de um mez, e pouco depoius começou a tossir e a deitar escarros de sangue pela boca. Estava soffrendo do peito, e seis mezes depois da morte de Juca Bembem e do desapparecimento de Quincas Pacheco, dava ella sua alma aos anjos. Bazilio de Moura ainda é vivo; soffreu muito, mas o patrão bem sabe que gente velha tem couro duro para desgostos. Já está quilotado”.
Do " Livro dos Phantasmas"
Por
VIRIATO PADILHA
RIO DE JANEIRO
LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA
71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73
1925
quinta-feira, 4 de junho de 2009
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