quarta-feira, 3 de junho de 2009

Manuel do Riachão

MANUEL DO RIACHÃO


É bastante conhecida em diversos estados brazileiros; principalmente nos do norte, a lenda do mysterioso personagem a quem o povo deu o nome de Manuel do Riachão, e cujas aventuras satânicas são contadas em verso rustico desde Piauhy até Sergipe.
Em alguns logares acredita-se que Manuel do Riachão era o Diabo em pessoa; em outros apresentam-n´o simplesmente como um individuo malfazejo e nefasto, que vendêra a alma ao Príncipe das trevas, afim de se tornar o primeiro tocador de viola e improvisador dos batuques sertanejos.
Em toda parte, porém, Manuel do Riachão figura na tradicção como bardo sem rival, affirmando-se que a sua passagem por qualquer logar era prenuncio de calamidades súbitas e inexplicáveis.Guarda o povo lembrança de que secavam os regatos, não obstante a regularidade das chuvas, tresmalhavam-se os rebanhos, surgiam enfermidades no gado, desmereciam as lavouras, e até as pessôas sentiam-se atacadas de soffrimentos extranhos, quando Manuel do Riachão, de viola a tiracollo, atravessava qualquer paragem.
Assim, apezar da admiração que causava pelos seus altos dotes de improvisador inspirado e violeiro habilíssimo, Manuel do Riachão não podia demorar-se por muito tempo em qualquer ponto. Desde logo, a indgnação popular levantava-se contra os seus singulares costumes, e nella procurava um derivativo por causa dos males que começavam a affligir a terra, sendo o pobre violeiro obrigado a enfronhar a viola, e buscar outro sitio, até que, sendo ahi também perseguido, recomeçasse a sua eterna peregrinação.Assim vivia Manuel do Riachão, e os logares que de preferência frequentava eram as tavernas, as mesas de jogo,e principalmente
os batuques, pelo prazer de derrotar no verso os mais afamados cantadores.
Pois bem: vamos descrever a forma pela qual o povo do norte conta como o sombrio Manuel do Riachão desappareceu dos sambas sertanejos.


* * *

Em uma noite de S.João folgava-se ruidosamente em modesta casa do sertão cearense.No terreiro crepitava grande fogueira que illuminava toda frente da habitação; a criançada pagodeava em derredor do fogo, assando batatas e macacheiras ao borralho, e na sala roncava o sapateado, puxado vigorosamente por uns cabras desempenados, vaqueiros, comboieiros e roceiros, e por moças sadias, robustas e esbeltas. Todas aquellas pessoas, ali reunidas em alegre folgança, conheciam-se muito, e, ou eram parentes próximos ou afastados, ou visinhos bastante íntimos.
Assim, notava-se em todas as physionomias bem-estar completo, satisfação immensa, principalmente nos rapazes e raparigas, quasi todos de namoro entabolado ou de casamento ajustado.
Foi em meio dessa festa, simples e boa, que se lembrou fazer um dia a sua apparição o mysterioso individuo cujo nome encabeça estas linhas, Manuel do Riachão, o mais afamado e phantastico violeiro dos sertões do norte.

* * *

Esse bardo errante, sempre precedido pela antipathia popular, vira-se obrigado a abandonar o Icó, onde assombrára pela sua pericia em improvisar, mas onde também incorrêra gravemente no desagrado publico, por haver desrespeitado, com uma cantata obscena, uma procissão que se fazia no logar, sacrilegio que coincidiu com o apparecimento de uma praga de lagartas que devastára completamente os roçados de milho.
A calamidade foi tomada como conseqüência do desacato religioso, e Manuel do Riachão, temendo qualquer violência contra a sua pessoa, bebeu o ultimo gole de aguardente, nas tavernas do Icó, poz a sua preciosa viola na bandoleira, e lá se foi, estrada fora, a procurar novos auditorios para exhibição dos seus dotes de improvisador.
Passava na estrada Manuel do Riachão, quando viu a fogueira e a festa a que já nos referimos. Sem hesitação encaminhou-se para o logar da patuscada, e, aproveitando-se de um momento de suspensão do batuque, chamou a viola ao peito, e cantou com voz forte estas duas quadras:

Senhora dona da festa,
Me ouça, faça favô;
Não trago fome, nem sede
Nem me atormenta o calô;


Só quero, senhora minha,
Dizer aos seus cunvidado
Que, quando o meu peito se abre,
Se esconde o mais pintado.

Todas as pessoas que se achavam na sala, e bem assim a criançada que se divertia em torno da fogueira, correram para perto de Manuel do Riachão, que, em pé no meio do terreiro, continuava a tanger o rasgado na sua viola, sem dizer palavra, e como que á espera que alguem
lhe aceitasse o atrevido desafio. Muito alto, magro e de longo cavaignac cor de barba de milho, tinha a perna arqueada em postura mephistophelica, e um riso sardônico lhe arregaçava o canto dos labios magros e arroxeados.
Não haveria ninguém naquela festa que aceitasse o desafio daquelle sujeito? Era o que todos, com os olhos, se perguntavam uns aos outros, anciosos por uma lição ao insolente, e ao mesmo tempo desejosos de novo divertimento.
Não esperaram muito tempo os foliões. Dentre a chusma saiu logo um creoulo de garofinha crescida, o Xico Bordão, que, apanhando uma viola, respondeu no mesmo tom e musica ao violeiro errante:

No tempo em que eu cantava
O meu peito retinia;
Dava um grito no Icó,
No Cariry se ouvia.

Senhora dona de casa,
Faça o favo, mande entrá
Quem á sua porta bate,
Pedindo só p´ra cantá..

Uma salva estrondosa de palmas, acompanhada de gritaria dos meninos, acolheu a cantiga do Xico Bordão, e este, indo ao encontro do Riachão, que continuava sempre de perna arqueada e viola ao peito, cumprimentou-o; e, tomando-o pelo braço, introduziu-o na sala. Rapazes e moças sentaram-se nos bancos dispostos ao correr das paredes, e tendo a dona da casa chegado dois tamboretes aos contendores, estes se abancaram cerimoniosamente, e depois de chupitar cada um seu copinho de aguardente, começou o torneio poetico e musical, que não durou muito, pois o Bordão declarou-se logo vencido e retirou-se da sala envergonhado.
Estimulados os brios dos assistentes pela derrota do companheiro, empurraram para o meio do aposento um outro cantador, o Xico Casa-Velha, que tambem tinha as suas fumaças de improvisador.
Este, porem, no fim de duas quadras esmoreceu.
Dizendo o seu nome numa quadrinha, Riachão aproveitou-se delle, e respondeu que toda casa velha era tapera. Isso foi sufficiente para confundir o adversario.
Ainda um terceiro cantador veiu sentar-se no fatidico tamborete: era o Totonho, filho da dona da casa, e esse também foi levado á parede com a mesma facilidade.
Então ninguém mais quis cantar com o homem magro do cavaignac vermelho; e Manuel do Riachão, vendo que nenhum cantador vinha occupar o tamborete vasio, levantou-se, fez uma grande mesura, e, recuando até a porta, preparava-se para dar a sua despedida em verso, como é de costume, quando surgiu na sala, com um machete a tiracolo, e sem que ninguém soubesse por onde tinha entrado, um rapaz muito pallido, de longos cabellos dourados e anellados, olhos profundamente azues, envolvido num ponche-pala de cor cinzenta clara.
Esse moço adiantou-se na sala, sentando-se no tamborete onde tinham sido vencidos o Bordão, o Casa-Velha e o Totonho, cantou com voz dulcissima a seguinte quadrinha, em desafio, fazendo-se acompanhar no machete:

Seu Manué do Riachão,
Não dê já a despedida,
Torne a afinar a viola
Que o dia vem longe ainda.

Manuel do Riachão, sentindo-se nomear, isto em logar em que julgava ser completamente desconhecido, teve estremeção e fixou os seus olhos fundos e vivos como brazas no desconhecido que continuava a dedilhar no machete, até então conservando a vista abaixada, como que por timidez ou recato. A ligeira emoção do violeiro não foi no emtanto percebida pelos foliões; e elle, procurando disfarçal-a, respondeu ao moço com esta quadra arrogante:

Bem sei que o dia vem longe,
Temos tempo p´ra trová,
Mas vosmecê se arrepende
Antes do gallo cantá.

O moço de olhos cor do céo continuava de fronte baixa, e em sua physionomia, que parecia annuviada por funda tristeza, nem o menor signal de emoção denunciou, ao ouvir a resposta atrevida do Riachão.
Ao mesmo tempo em todos os circumstantes crescia o interesse pelo desafio; e um presentimento vago como que lhes dizia que Manuel do Riachão, segundo a phrase popular, se estreparia naquella topada. Assim, foi com satisfação que viram o moço do machete ferir de novo o instrumento com as suas mãos, que eram de uma brancura de cera de carnaúba, e soltar estes versos:
Seu Manué do Riachão
Que peccados são os seu!
Um anno tão bom de inverno
Seu riacho não correu...

Manuel do Riachão tornou a fitar os seus olhos de braza no moço do ponche-pala cinzento; o famoso violeiro como que procurava saber quem era esse que parecia querer revelar ao auditorio matuto a sua mysteriosa e sombria natureza. No emtanto não deixou de fazer a sua entrada em tempo e responder com visivel mau humor nos seguinte versos:

Si o riacho não correu
Não foi por falta de inverno,
É que as águas afundaram
Foram ferver no inferno.

Os caipiras começavam a admirar-se da feição extranha que tomava o desafio poetico. Quem seriam aquelles dois singulares violeiros, tão extranhos e differentes nos modos e nas figuras? Perguntavam elles, chegando as bocas aos ouvidos uns dos outros. Quando as ultimas
notas, que acompanhavam os versos do Riachão, se extinguiram, o moço triste no machete descerrou outra vez os lábios, sem no emtanto levantar ainda a fronte, e cantou:

Seu Manué do Riachão
Que triste sina é a sua,
Noite que vomecê canta.
No ceo não se vê a lua.

Riachão torceu-se no tamborete, incommodado por essa segunda investida á sua reputação, e apenas o moço cor de cera acabava de desferir a ultima syllaba do verso, elle bramiu com voz forte, na qual se percebia claramente a raiva e o respeito:

Si a lua não apparece
Na noite de meu descante,
É , moço do machetinho
Que eu canto só no minguante.

Na verdade Manuel do Riachão era um repentista admiravel, e essa resposta tão adequada causou a admiração dos sertanejos. O moço louro, porem, continuava impassivel e de olhos fitos no chão. De seu amplo ponche-pala cinzento evolava-se como que uma neblina levemente dourada que o envolvia todo; e assim que lhe coube a vez de cantar, gemeu no machetinho, com voz que mais parecia um rosario de suspiros docemente abemolados:

Padre, Filho, Esp´rito Santo,
E o Santo Signal da Cruz,
Bemdito seja o teu nome,
Senhora Mãe de Jesus.

E ao mesmo tempo que cantava esta copla o moço do machetinho ia levantando lentamente os olhos do chão, até fital-os em cheio em Manuel do Riachão, que, sem se saber porque, se perturbou com a luz serena, profundamente azul que delles jorrava; e, na sua confusão, deu uma nota falsa no acompanhamento e não poude encontrar logo a réplica.
O moço do machetinho tornou a baixar os seus grandes olhos, e antes que o outro se restabelecesse completamente, despediu-lhe mais esta quadra:

Seu Manué do Riachão
Um caboré suspirô...
Tempere, amigo a viola
Que o bordão desafinô.

Então Manuel do Riachão já se tinha acalmado, e assim respondeu de prompto:

Minha viola, seu moço,
Tropica, mas não focinha:
Tem ganho em toda funcção
Corôa e grau de rainha.

No emtanto, apezar dessa bravata de cantados laureado, Manuel do Riachão denunciava no semblante esquálido crscente perturbação; e, embora só o tivesse encarado de frente uma só vez, o moço pallido bem o percebia, e assim saiu-se com esta:

Seu Manué do riachão,
Uma cousa está se vendo:
Sua viola enrouquece,
Sua voz ´tá ´smorecendo.

Era verdade o que dizia o moço triste, porém Manuel do Riachão tentava ainda resistir, e assim respondeu incontinenti:

Não se glorie com isso,
Cantante do ponche-pala,
Bebi de mais no caminho
Sinto um pigarro na fala.

Esse versos eram prenuncio de derrota do terrivel trovador. O auditório comprehendeu-o, e ficou suspenso dos labios do cantador côr de cera, que, sempre de olhos baixos, tangia o machetinho, com tanta doçura que parecia que os seus dedos vaporosos nem feriam as cordas.
Logo que Riachão se calou, o moço levantou pela segunda vez seus olhos serenos, tornou a fital-os em cheio no violeiro, e cantou com voz mais alta e vibrante:

Seu Manué do Riachão,
Meu amigo e camarada,
Vomecê se avexa tanto
Eu não me avexo com nada.

Manuel do riachão, ao sentir de novo penetrar-lhe a luz clara e profundamente azul dos olhos do phantastico moço pallido, tornou a confundir-se: os seus dedos rasparam na viola, nervosamente, sem tirar harmonia, o seu corpo todo tremeu; e, pela segunda vez, nesse desafio, não entrou logo com replica, ao que o moço do machete, aproveitando a descaída, tornou de novo a abrir os labios , e cantou, tornando-se a sua voz aguda e firme:

Seu Manué do riachão,
Depois da flô vem a espiga:
Quero que vomecê reze
O Padre-Nosso em cantiga.

Sentindo essa provocação directa aos seus sentimentos religiosos, Manuel do Riachão ergueu-se de um salto.Todo o seu corpo foi tomado de um tremor convulsivo; e torcendo os braços e pernas, como si fossem serpentes raivosas, vibrou as vordas da viola, com tanta raiva, que as fazia rebentar, ao mesmo tempo que berrava com voz sombria:

Seu moço do ponche-pala,
Não sou padre p´ra rezá;
Renego os santos da igreja,
Renego a pedra do artá.

E ao dizer isto, todas as luzes da sala se apagaram, e bem assim a fogueira que crepitava no terreiro. Todos ficaram tomados de assombro.
Pelo luar que entrava pela janella viram no emtanto que o moço pallido se levantava e se erguia do chão, alguns palmos, ao mesmo tempo que cantava, com voz tão aguda que chegava a doer nos ouvidos, estes versos que foram os ultimos do famoso desafio:

Senhora dona da festa,
Abra a porta, acenda a luz,
Estamos com o diabo em casa
Rezemos o Credo em cruz.

Assim que acabou de cantar, ouviu-se na sala um estrondo medonho; e, abrindo-se logo o soalho, de meio a meio, por elle enterrou-se e sumiu-se o nefasto Manuel do Riachão, ao passo que o moço triste de mãos côr de cera mais se elevava do chão. O seu amplo ponche-pala cinzento transformára-se em azas, brancas como a neblina da manhã; e o seu machete tomára a fórma de uma palma, que elle comprimiu ao seio, e, sempre subindo, voou pela janella aberta e desappareceu no espaço, sem que os olhos humanos pudessem seguil-o.

* * *

É assim que o povo do norte conta de que maneira Manuel do Riachão desappareceu dos sambas sertanejos.

DO " lIVRO DOS PHANTASMAS"
POR VIRIATO PADILHA


RIO DE JANEIRO
LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA
71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73
1925

0 comentários:

Postar um comentário