quarta-feira, 3 de junho de 2009

A mula sem cabeça

A MULA-SEM-CABEÇA


No mundo extranho e singularmente phantastico de que nos estamos occupando, a Mula-sem-cabeça tem logar proeminente, e não ha quem o ignore, por menos versado que seja em materia de crendices populares.
A mula-sem-cabeça, assim como a Bruxa e o Lobishomem, não é uma verdadeira Alma do Outro Mundo ou Espirito Sobrenatural, e sim uma criatura humana, dotada das mesmas qualidades de outras, porém que, por determinadas circumstancias, adquiriu propriedades phantasticas e attributos que não se encontram no resto da humanidade.
A crença na Mula-sem-cabeça foi importada de Portugal: é geralmente a mulher que mantem relações amorosas com qualquer padre, o qual, pelo juramento de castidade que faz, ao receber ordens, chama sobre aquella que com elle cohabita, a maldição divina, pois o caracter de Mula-sem-cabeça é o de um fadario isto é, a degradação momentânea e periodica do ser humano em vil animal.
Entre as muitas historias de Mulas-sem-cabeça que sabemos, todas assentando sobre a mesma base da punição da mulher pelo seu amor precaminoso ao padre, e com mais ou menos variantes, vamos contar uma que teve por theatro o velho arraial do Infeccionado, em Minas-Geraes.
É uma historia singela, porém emocionante, e que não deixa de ter um grande fundo de verdade, bem visivel a qualquer intelligencia.

* * *
João era um caipira honesto, muito trabalhador e comedido. Nunca o viram escorado ao balcão das vendas; fugia das lôbregas mezas do marimbo e do pacau e evitava os cateretês da visinhança.
Homem de foice, machado e enxada, na extensão mais ampla da phrase, o pequeno sitio
em que vivia, com sua mãe, já velhinha, era cuidado com esmero, e assim, si não andava na abundancia, estava no emtanto livre da penuria.
O chiqueiro e o poleiro achavam-se bem guarnecidos, e a roça dilatava-se em farturas de toda a sorte.
Além disso João era um rapaz forte, sadio, sem pretenções e grandezas e glorias futuras, e , sob o ponto de vista do saber humano, satisfazendo-se com os escassos conhecimentos empyricos adquiridos na labutação da lavoura e da criação de animaes domesticos.
Afilhado de estimação do coronel Fonsecão, chefe politico respeitado, que, sempre estava com o governo, e , por conseguinte, nunca declinando a vara do poder local, nas quadras de recrutamento, que são as mais escabrosas para o matuto, nunca se mettiam com elle, e assim João deslisava placidamente na corrente da existencia, sem della soffrer os esbarros ou os ennovelantes redemoinhos.
Collocado em tão favoráveis condições, o nosso caipira podia ser um homem feliz. Mas... João era moço, contava vinte e tres annos apenas, e uma circumstancia impedia que a sua ventura fosse completa.
Não é preciso dizer ao leitor que, quando se está nessa idade, toda de ardencias e desejos vivos, qualquer homem é um Colombo a anceiar pelos mundos novos do amor, a sonhar dia e noite com os horisontes fagueiros da ternura feminina; e, na perseguição dessa chimera, muitas vezes veste-se a alma de espinhos, ou pelo menos, perturba-se a nossa placidez de espirito.
Ora, João assim que entrou nos vinte e tres annos teve que se submetter a esta lei natural. Então começou a sentir-se isolado e muitas vezes esquecia-se, debruçado no cabo da enxada, ou com o machado seguro á entalha cavada na fronde do jequitibá, e ali perdia-se em vagas scismas, a seguir com o pensamento uma visão agradavel, que se aprazia em visital-o por taes horas. E, depois de vel-a desapparecer, continuava o trabalho, mas um tanto esmorecido, como que si lhe faltasse o alento essencial á sua actividade.
È que João se sentia homem, forte para a vida e para o amor, disposto á rudeza do trabalho material e apto para supportar os encargos da familia _ essa trouxa pesada como alguns dizem. Porque, então, não procurava uma companheira, bonita, como sonhava seu coração, bôa como mereciam seu caracter e qualidades? Não a tinha o Antonico, um criançola, que nem siquer apresentava barba?. Não se casara o Juca, seu irmão collaço e filho do coronel Fonsecão? E até o Anselmo, um pobre diabo, sem eira nem beira, não se atrevêra a pedir em casamento a filha do Xico Andorinha?
Porque, então, não se casava elle? Estava na idade; e tinha graças a Deus, com que dar de comer a mulher e filhos.As suas terras eram proprias, uma bôa casinha, toda coberta de bicuiba e bem entaipada, lavoura convenientemente tratada e rendosa, criação de terreiro abundante, e dois cavallos de sella no pasto.
Depois de matutar alguns mezes essas idéias, o nosso excellente João chegou á conclusão de que o casamento era para elle cousa facilima de commetter, e ao mesmo tempo inevitavel . Resolveu, pois realisal-o quanto antes, e , depois, que Deus o ajudasse! Si afinal, os homens não se casassem, que seria do mundo?

* * *

Quanto á escolha da mulher, era com que João não podia embaraçar-se. Pois com quem devia elle casar, sinão com Ritinha, a filha de mestre Manuel Theodoro, o marceneiro do Infeccionado? Não estava ella moça feita e bonita, como nenhuma outra em todo arraial e lavouras da visinhança? Não podia ser com outra, estava claro.
Estimavam-se desde meninos e quando brincavam o tempo-será e o chicote –queimado, já se sentiam vivamente attraidos um para o outro. Fôra sua companheira predileta nas folias infantis, sel-o-a igualmente na phase das responsabilidades.
Pelo ultimo São João tiraram sortes e estas prognosticaram o seu enlace. Do seu amor estava certo: Não havia, pois, que hesitar: seria Ritinha sua mulher. E tendo assentado nesse projecto, pediu-a em casamento, sendo recebido jubilosamente, tanto pela moça como pelo velho Manuel Theodoro.
Marcou-se o noivado para o Dia-de-Reis, e logo nas duas casas começou-se a trabalhar activamente nos preparativos para a importante solemnidade, pois, embora pobre, João desejava que a festa se fizesse com a decência compativel com o credito que gosava.

* * *

Faltavam apenas algumas semanas para chegar o Dia-de-Reis, pelo qual nosso caipira suspirava, contando dia por dia, quando sobreveiu um acontecimento que determinou alteração completa no theor das cousas estabelecidas.
Morrêra o velho vigário do Infeccionado, bom homem, geralmente estimado na freguezia, e intimo amigo de Manuel Theodoro, pai de ritinha. Era Manuel Theodoro quem armava a igreja, nos dias festivos, e Ritinha quem cuidava da lavagem e engommação das toalhas do altar e das sobrepelizes, serviço com o qual granjeava uns cobresinhos, tudo isso por intervenção do velho vigario, que as más linguas do logar achavam um tanto parecido com a filha de Manuel Theodoro, pondo assim em grave risco a reputação da esposa do marcineiro, a veneranda d.Thomazia, morta, havia tempos.
Para substituir o fallecido na vigararia do Infeccionado, nomeára o bispo o padre Salustio; e este, quinze dias depois dos funeraes do seu antecessor, chegava á freguezia. Era um homem moço, ainda com o cheiro de seminario, mineiro de nascimento, e de familia opulenta do Grão-Mogol. Tinha feições regulares, pelle macia e muito branca, olhos negros e cheios de vivacidade, bella estatura e maneiras affaveis. Pela influencia que gosava sua familia junto ao bispado, isentára-se da condição pouco invejavel de coadjuctor; e , apenas recebêra ordens; conquistára a vigararia do Infeccionadp aliás bastante rendosa.
Esse facto da mudança de vigario no velho arraial do infeccionado, póde parecer indifferente ao leitor. No emtanto, é, sobre elle que se estabelece o enredo desta narrativa singela, e por isso tem alta importancia neste momento.
Foi o padre Salustio, ou antes, foram os seus olhos petulantes, os seus labios bem desenhados na face, as sua mãos finas e pequenas, e todas as suas outras graças physicas que crearam o pequeno romance de que nos ocupamos, aliás verídica historia, authentica pelo testemunho insuspeito do ancião que m´a referiu, o João André, antigo tropeiro das estradas mineiras, do tempo ainda em que se batia carga em Magé e no porto da Estrella, outr´ora importantes centros commerciaes, hoje tristes e desoladas taperas.
Mas... passemos adiante.

* * *

Tres dias depois que o padre Salustio se estabelecera no Infeccionado, recebeu elle a visita da graciosa Ritinha, filha do velho marcineiro Manuel Theodoro, e noiva do nosso amigo João.
Ritinha era rapariga realmente formosa, e isto nos faz crer que, embora escasso de instrucção, não era despido de gosto o afilhado do coronel Fonsecão.
De estatura regular, era enxuta de carnes e de fórmas correctas, seio farto sem excesso, cintura delgada, anca fornida, braços bem dispostos, mãos e pés pequenos. Os olhos eram pardos, poucos brilhantes mas doces, os labios cheios, o nariz bem feito, os dentes brancos e pequenos, a pelle láctea e tudo isso encaixilhando-se num oval suavissimo, coroado por uma soberba cabelleira acastanhada, abundantissima, em fios tenuissimos, de uma delicadeza e brilho de seda frouxa.
Ritinha vinha em nome do pai cumprimentar o sr, vigario, e ao mesmo tempo fazer-lhe entrega de umas tantas toalhas bordadas de altar que ficaram em seu poder, ao fallecer o antigo padre.
O padre Salustio agradeceu muito a fineza da joven, fel-a sentar-se e entrou com ella em demorada conversação sobre sua familia e do rapaz com o qual ia casar-se, bem como acerca de outros assumptos mais relativos aos fieis no Infeccionado, e padecimentos e morte do padre velho, acabando por pedir-lhe que continuasse com o encargo de lavar e engommar os pannos da igreja, pois não convinha desviar tão preciosos artigos, para outras mãos attendendo-se á facilidade com que o geral das lavadeiras lhes davam descaminho.
Desde o primeiro momento, Salustio ficou deslumbrado com a belleza da moça, pois, embora sacerdote e prezo á castidade por juramentos solemnes, era muito moço ainda, e de temperamento bastante vivo, para não se impressionar com a plastica soberba que tinha diante de si, mais realçada por uma certa candura combinada com languidez que lhe ia matar.
Por seu lado, Ritinha sentia-se bem conversando com o jovem sacerdote, não a importunavam as perguntas um tanto indiscretas que elle lhe fazia, e admirava-lhe a graça do falar e dos gestos, a elegância do porte, e a doçura do olhar.
Sentiram-se, pois, talvez, sem o quererem, reciprocamente inclinados um para o outro; e quando o padre Salustio, ao despedir-se da moça, lhe apertou demoradamente as mãos, e a envolveu num longo olhar sensual, que parecia enredal-a na lingua de um fogo extranho, Ritinha, sentiu-se enleiada, enrubesceu, tremeu, e retirou-se apressadamente, sem saber que lhe responder...

* * *

Durante todo o dia em que teve logar esta scena, Ritinha não arredou o padre Salustio um só momento da imaginação. Rememorava mentalmente uma por todas as suas palavras, lembrava-se com intimo prazer dos cumprimentos que elle havia dirigido á sua belleza, e procurava reviver na memoria todos os seus traços physionomicos que achava de uma regularidade e delicadeza superiores. Sobretudo tinha-lhe causado vivissima impressão o sorriso do padre Salustio, tão cheio de encantos e fascinação.
Falou a mestre Manuel Theodoro com muito calor do novo vigario; e , á noite, vindo visital-a o João, sem saber porque sentiu-se mal. Como que a presença do rapaz lhe perturbava o seguimento de uma ideia cara. Pela primeira vez achou o noivo inferior, grosseiro de mais no falar e nos modos, anguloso de feições, desageitado de fórmas. Incommodaram-lhe as attenções carinhosas do pobre rapaz, e causaram-lhe enfado os seus projectos. Para evital-o petextou uma enxaqueca subita e recolheu-se logo ao seu quarto. Deitou-se mas não adormeceu. Só chegou o somno quando os gallos começaram a cantar, pois no cérebro rolavam-lhe com persistência os mesmos pensamentos, pensamentos nos quaes o padre Salustio, com o seu encantador sorriso, figurava sempre.

* * *


Por seu lado o novo vigario, do infeccionado, achou-se tambem por muitas vezes a scismar na formosa engommadeira das suas sobrepelizes. Achava-lhe um tom distincto, maneiras superiores ás das mulheres vulgares, voz singularmente cariciosa e principalmente bella como uma tentação.
Saído havia pouco do seminário, o padre Salustio achava-se ainda puro de inclinações amorosas e até então julgava cousa facil guardar o preceito da castidade onde tantos sacerdotes naufragam. Empossando-se da sua vigararia, trazia o proposito de formar uma reputação de homem pio.
Assim traçando a linha de sua conducta futura, o padre Salustio não consultára as exigências imperiosas da sua idade e do seu temperamento ardente de mineiro. O resultado foi, logo ao começar a sua carreira ecclesiástica, sentir-se fraco para luctar contra a paixão pela mulher, a mais irresistivel de todas.
Durante todo dia e noite que seguiram-se á sua entrevista com a filha do marcineiro, sentia a todo momento voltar-se-lhe o espirito para a gentil criatura que lhe deixou o aposento embebido de uma fragancia entontecedora; e ao adormecer pensava ainda na sua basta cabelleira acastanhada, sedosa e cheia, onde tão grato seria repousar a fronte e escaldar de desejos lubricos, embora se esforçasse por afugental-os.
O padre Salustio tinha dado a Ritinha uma sobrepeliz para passar a ferro, pedindo-lhe urgência, talvez por desejo de vel-a mais depressa.
Era provavel que a moça assim compreendesse tambem, pois logo no outro dia batia á porta da casa do padre Salustio, levando-lhe o paramento, cuidadosamente dobrado e entrouxado em fina toalha de renda.
Ritinha achava-se ataviada com mais esmero do que no dia antecedente; percebia-se que tivera a pretensão de fazer sobresair os seus attractivos, porém a physionomia conservava signaes indeleveis das agitações que na vespera lhe haviam conturbado o espirito.
O padre Salustio sentiu pular-lhe o coração no peito quando ella , sempre donairosa, porém pudica, assomou á porta. Correu ao seu encontro, chamou-a para junto de si, fel-a sentar-se em um canapé; e, tomando-lhe as mãos entre as suas, com a fronte quase a roçar na sedosa coma acastanhada da moça, um tanto tremulo, febril, como que ébrio pelo perfume daquella carne fresca, sadia e bella.
Escusamos descer a minudencia dos detalhes desse colloquio cujo desenlace é visivel.
Ambos moços, ardentes, apaixonados e inclinados irresistivelmente um para o outro, não era possivel que vencessem a attracção. Depois de meia hora de palestra cairam nos braços um do outro: _ elle, ardentissimo, impetuoso, brutal _ ella, nervosa, envergonhada, chorosa, porem abandonando-se sem resistencia intimamente satisfeita pelo arrojo do companheiro.
Desse dia em diante Ritinha transformou-se em amante do padre Salustio.
Embora recatassem muito suas relações amorosas, foram ellas percebidas no fim de alguns dias pelo sachristão, e esse bom homem, sempre pedindo o mais rigoroso segredo, revelou-as aos amigos. Dentro em pouco o arraial era sabedor do escandaloso successo.
Já Ritinha notava que as amigas e antigas companheiras de escola publica e de folguedos começaram a evital-a, e que, quando passava pelas ruas, percebia dentro das lojas risinhos abafados nos caixeiros e cochichos que lhe pareciam referir-se aos seus amores com o padre. João porem continuava alheio aos dicterios do arraial, e , todo engolfado na sua paixão e na sua completa ignorancia dos factos, suspirava continuamente pelo dia venturoso em que veria estender-se no leito de jacarandá _ rosa do seu noivado, obra prima de mestre Manuel Theodoro _ o delicioso corpo de Ritinha, de uma brancura fascinante de leite e todo rescendente a agua da colônia.
Essa situação feliz não tardaria a desapparecer.

* * *


Em uma tarde de sexta-feira, João achava-se socegadamente em casa a amilhar os seus dois cavallos de sella, um dos quaes, o alazão, destinava para montaria da sua dilecta Ritinha, quando lhe appareceu uma preta velha muito conhecida em todo o Infeccionado, a tia Rosa, que á funcção de parteira entendida, reunia a de rezadeira de quebranto, mau olhado, espinhella cahida, cobreiro e outros males. Tia Rosa havia-se indisposto com Ritinha por esta lhe attribuir o furto de um panno de altar, e a sua ida a casa de João não tinha outro fim sinão esclarecel-o sobre a conducta immoral da sua noiva.
João recebeu-a como pessoa de casa e depois de trocar algumas phrases banaes com ella, disse-lhe em tom de troça, ao mesmo tempo que continuava a tirar os carrapichos da crina do alazão:
_ “ Dentro de um anno, Tia Rosa, vancê tem um servicinho nesta sua casa e algumas patacas a ganhar”.
_ “ antes fosse já”, respondeu a preta, “ bem precisada ando eu de alguns cobres para pagar uma promessa de três libras de cera que devo a nossa Senhora dos Remedios. Mas os tempos antam tão ruins, nhô-Joãosinho!...Então, há alguma novidade cá por casa, d´aqui a um anno?”
_ “ Pois vancê não sabe que eu estou de casamento ajustado para o dia-de-Reis? Ora, já vê que d´aqui a um anno é provavel já haver gente nova que lhe dará algum pequeno incommodo.
“.
Tia Rosa, sabia perfeitamente do casamento de João. Fingindo, porém , ignoral-o, fez um gesto de admiração e exclamou:
_ “ que é que vancê está dizendo? Pois isso é sério? Ora, não brinque com a sua preta velha, nhonhô”.
_” Estou falando sério, tia Rosa. Caso-me no dia-de-Reis com Ritinha, a filha de Manuel Theodoro, lá do arraial”.
_ “ Com Ritinha, nhô-Joãosinho? ” interrogou a preta, simulando o maior espanto.
] _ “ Sim, com Ritinha”, tornou João.
_ “ Ah! Então não sou eu quem ha de pegar seu filho, nhô-Joãosinho”.
_ “ E porque, tia Rosa?”.
_ “ Porque, nhô-Joãosinho, porquê? Porque eu não sou parteira de Mula-sem-cabeça. Credo! Nossa Senhora dos Remedios, me livre de tal tentação. Cruzes canhoto!Vá para as areias gordas!...Arruda com pé e tudo!...”.
João ficou atordoado com o destampatorio da negra, e sentando-se no coche em que os cavallos comiam a ração de milho, arregalou muito os olhos e perguntou-lhe ancioso e indgnado:
_ “ Mas, então tia Rosa: Ritinha é Mula-sem-cabeça?” E, ao fazer essa interrogação, os seus punhos crisparam-se, como si tivesse ímpetos de esganar a negra.
Esta porém, sem se perturbar, persignou-se de modo beato, e exclamou tranquillamente:
_ “ Desde que me seccou o umbigo, eu ouço dizer que mulher que anda com padre vira Mula-sem-cabeça; e não ha ninguem nestas redondezas que não esteja farto de ouvir que nhá- Ritinha está mettida com o vigario novo”.
_ “ Com o padre Salustio?”
_ “ Quem duvida? Seu Juca sachristão viu os dois se abraçarem, e eu mesma que aqui estou encontrei aquella relaxada saindo da casa do padre Salustio ás doze horas da noite”.
Em seguida a negra discursou longamente sobre o facto, e acabou com estas terriveis palavras o seu feroz mexerico:
_ “Sua noiva, nhô-Joãosinho, é uma Burra-de-padre, é uma Mula-sem-cabeça; não olhe mais para aquella descarada, que, mais cedo ou mais tarde, há de ser montada pelo Tinhoso, que lhe rasgará a barriga com uma chilena de fogo, para castigar o seu peccado”.
Dizendo isto, a preta retirou-se, satisfeita por haver realisado a sua vingança, ficando o pobre caipira abancado no coche, como que atordoado, e a repetir com obstinação de idiota estas phantasticas palavras: _ “ Mula-sem-cabeça!...Mula-sem-cabeça!...” Fôra tão rude o golpe que lhe vibrára a maldita negra, que lhe tirou momentaneamente a faculdade de raciocinar. Sentia uma zoada no ouvido; tremiam-lhe as pernas; o coração como que lhe não batia no peito
Nesse estado conservou-se até cair a noite. Só então arrancou-se de tão pesada atonia, e a passos lentos, dirigiu-se para o arraial.
Formára tenção de averiguar aquelle negocio que tanto o affligia.
“ Quem lhe dizia que tudo aquillo não passava de calumnias forjadas pela negra, afim de se vingar de alguma offensa recebida da moça, ou simplesmente por espírito de maldade? Convinha não emprenhar pelos ouvidos. Era crivel que ella o atraiçoasse, compromettendo de modo tão funesto a sua propria felicidade? E logo com quem? Com um padre?! Não!Convinha ser prudente. Tia Rosa _ todos a conheciam _ era uma enredadeira”.
Assim raciocinando, chegou junto á casa de Ritinha, quando soavam nove horas. A casa estava fechada, e pelas frestas não se percebia luz do lado de dentro. Manuel Theodoro deitava-se cedo, porem Ritinha tinha por costume conservar-se acordada até tarde, quer costurando, quer fazendo renda. Porque, então, não se viu luz na casa?
João abeirou-se ao seu quarto collou o ouvido á frincha da janella, e procurou ouvir si ella resonava. Mas...nada!... o silencio era completo:só o interrompia o cantar estridulo de um grillo.
Retirou-se da janella contrariado, e continuou a caminhar, sempre avançando para o arraial.
A casa do padre Salustio ficava logo á entrada do largo da Matriz. Era um velho casarão assobradado, ainda dos tempos coloniaes, todo de cataria grosseira e com largas janellas e caixilhos miudos.
Já de longe o rapaz percebeu que havia luz em um dos aposentos da casa do padre, que se coava atravez da vidraça de uma das janellas, resguardada interiormente por uma cortina de cassa branca.
Approximou-se todo apprehensivo, e veiu postar-se no centro da rua a observar aquella claridade que lhe enchia a alma de um luar sinistro.
Depois de alguns minutos que ali se achava, percebeu dentro do aposento dois vultos. Era evidente que no quarto do padre Salustio estavam duas pessoas. “ Uma dellas seria Ritinha sua noiva?”perguntava-lhe o coração preságo, quase a estourar no peito.
Resignou-se a esperar...Duas horas passaram com extraordinaria anciedade para elle, quando, afinal, sentiu ruido de passos descendo a escada, e logo em seguida sentiu que tiravam a tranca da porta.
João coseu-se com um taipume fronteiro, e aguardou a saída das pessoas, que desciam a escada.
A porta abriu-se a meio e um homem saiu a calçada. Reconheceu-o logo; era o padre Salustio. O sacerdote observou attentamente para todos os lados, afim de examinar si alguém transitava pela rua áquella hora; e tendo se certificado do seu isolamento, fez sair de dentro da casa uma mulher. Colheu-a nos braços, deu-lhe um beijo prolongado na face, e depois tornou a recolher-se, fechando sobre si a porta.
A mulher achava-se por tal fórma embrulhada num chalé, que não se lhe percebiam as feições; e , assim que o padre fechou a porta, começou a caminhar pela rua acima.
Nesse momento o sino da igreja dava onze horas.
A mulher embuçada, no emtanto, embora não correse, caminhava com muita rapidez: parecia antes deslisar sobre o terreno do que andar, e o moço esbofava-se para seguil-a.
Todavia tinha um pressentimento de que era Ritinha, e esperava que a carreira terminaria ao chegar á casa de Manuel Theodoro.
Effectivamente quando a mulher emparelhou com a casa do marceneiro estacou, e voltou-se, naturalemte procurando ver si alguém a acompanhava. Com a marcha, o seu longo chalé havia descido da cabeça, e João julgou reconhecer a basta cabelleira acastanhada da sua querida e pérfida Ritinha. Mas a distancia em que se achava, não lhe permittiu ainda reconhecer-lhe perfeitamente as feições.
O caipira esperava que a mulher entrasse na casa de Manuel Theodoro... Mas, qual não foi o seu espanto ao ver que a mysteriosa transeunte continuava a marchar, batendo a estrada, cuja areia se prateava ao clarão tranquillo da lua, nesse momento em pleno zenith!...
Isso desconcertou-o. “ Onde iria essa mulher, _ Ritinha ou outra qualquer _ a taes horas, e por uma estrada tão deserta? Da casa de Manuel Theodoro até o sitio de João não havia outra casa, e a distancia entre as duas era a de uma boa meia légua. Que iria, pois, fazer essa mulher _ Ritinha ou não, porém moça _ porquanto era impossível que o padre Salustio enlaçass e beijasse tão amorosamente uma velha, _ que iria buscar essa criatura em sitio tão isolado”.
Tambem raciocinava; “ Para que fosse Ritinha, conhecêra-a sempre tão medrosa, incapaz até de entrar num quarto sem luz, como de um momento para outro adquirira tamanha intrepidez? No emtanto, aquella formosa cabelleira castanha não podia ser de outra; elle bem conhecia todas as moças do Infeccionado.
E a mulher sempre a andar!... A sombra do seu corpo, muito esguia e phantastica, rastejava com o caipira. A areia da estrada rangia sob os seus rapidos passos, emquanto o roceiro se perdia num dédalo intrincavel de conjecturas que a nada conduziam, acompanhando quase automaticamente aquelle Mysterio, que lhe fugia, sob fórma de uma mulher.

* * *
Nisso a criatura chegou a um ponto onde o caminho se bifurcava, formando o que os caipiras chamam uma encruzilhada. Era a Encruzilhada-do-Ingazeiro, assim denominada por existir bem na dichotomia uma frondosa leguminosa dessa variedade.
Esse logar era preferido pelos tropeiros para “pouso”, e , ali viam-se espectadas no chão, algumas dúzias de varas, nas quaes se amarrava a burrada do lote. Mas quando, ao cair da noite, João por lá passou, nenhuma tropa se achava no pouso da Encruzilhada.
A mulher embuçada, ao chegar a esse sitio, estacou, e voltou-se para a direcção em que elle vinha. O nosso caipira, como que movido por um poder superior, deteve-se igualmente. Nesse instante ideia singular lhe atravessou o espirito. Quem sabe si tia Rosa não teria razão, e Ritinha, sua futura esposa, não viria por essa estrada afora em cumprimento do sombrio fadário
Reservado ás infelizes que faziam os padres violar o solemne juramento de castidade?... O dia _ uma sexta-feira _ a hora _ meia- noite _ tudo lhe acudiu á atribulada imaginação, naquelle momento; e os cabellos, a seu pezar, se lhe erriçavam. Teve medo de avançar, de reconhecer afinal aquella mysteriosa mulher em cuja indagação tanto se havia empenhado.
Ao cabo de alguns minutos, a mulher continuou a caminhar, porém agora vagarosamente... e dissipando-se-lhe um tanto o pavor, João proseguiu na marcha D´ahi a pouco novo successo assombrava-o. Quando, ao anoitecer, passara pela Encruzilhada-do-Ingazeiro, nenhuma tropa ali havia. Agora, porém lá estava uma fila de cangalhas, e um sujeito, de pernas cruzadas diante de um pequeno fogo, tocava uma viola muito sebosa, e cantava os seguinte versos, em toada rustica:

Eu botei meus cachorro no matto,
Para vê si levanta veado,
Espingarda de cano quebrado
Eu corri fui cercar no cerrado
Cachorrada latiu não vi nada...
Oh! Minha senhora dona,
No seu matto não tem nada!

E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá.
Vai se embora, passo branco,
Deixa o caçado passá...
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.

João, distraindo a attenção para esse facto de se achar ali arranchada aquella tropa, perdeu de vista a mulher, não sabendo por qual dos galhos da eEncruzilhada havia enveredado. Para se orientar, ao chegar em frente ao violeiro, disse-lhe:
_ “ Boa noite, meu patricio; vancê me sabe dizer que rumo tomou uma dona que passou inda ha pouco por aqui? Seguiu pela direita ou pela esquerda?”.
O homem da viola não lhe deu resposta e continuou a tocar o rasgado, que fazia o acompanhamento da sua cantoria. O moço, aborrecido, tornou a formular a sua pergunta. Então, o individuo, encarando-o friamente, deu uma grande e prolongada risada, que fez estremecer o rapaz, e, torcendo a boca desdentada para um lado, cantou:

Eu mandei meu menino depressa,
De carreira chamá o doutô....
No caminho tinha muita lama,
O cavallo atolado ficou...
Recoluta no campo ta alerta
Meu menino lá preso ficou!
Ai triste de quem ama
Quem ama padece dô!

E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá.
Vai se embora passo branco,
Deixa o caçado passá...
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.

Escandalisado pela desattenção do tropeiro o noivo de Ritinha perguntou-lhe de novo:
_ “ Amigo, toda a pergunta tem resposta... Faça favor de me dizer que rumo tomou uma moça que passou ainda ha pouco por aqui...”
O sujeito da viola tornou a encaral-o friamente, soltou uma gargalhada mais prolongada do que a primeira, e em seguida, virando outra vez a boca desdentada para um lado, cantou com voz aguda:

Triste vida, tropeiro, coitado!
Vai na venda demora um bocado,
Compra avista, não compra fiado,
Chega em casa patrão tá zangado
Periquito não vem no roçado.
Quem fala mal do tropeiro
Merece sê enforcado.

E o passo branco avuô
Avuô para as bandas de lá.
Vai se embora, passo branco,
Deixa o caçadô passá!.
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.
E continuou a rasgar a viola soturnamente, sem prestar a menor attenção ao caipira. João desconfiou com o typo...” Será surdo ou idiota?” pensou elle; sem querer perguntar mais nada, resolveu seguir pelo caminho que o conduzia á sua casa.
Comtudo, mal havia andado uns cincoenta passos, avistou logo a mulher mysteriosa.
Achava-se enconstada ao batente de uma porteira, desmantelada, e pela segunda vez receiou avançar, tomado de súbito horror inexplicavel . A mulher, assim que o viu na estrada, arrancou o chalé da cabeça, rasgou as roupas e lançou-as fora, ostentando-se completamente nua ao clarão da lua. Elle reconheceu, então, perfeitamente Ritinha, com a sua famosa cabelleira castanha, arripiada pela aragem que a espalhava sobre as espáduas brancas, de uma alvura de leite.
Ritinha, ou melhor a Visão, depois de despida, lançou-se ao chão furiosamente, rebolcou-se por algum tempo na poeira da estrada, e d´ahi a pouco ergueu-se, mas não já como se havia deitado por terra. O que appareceu á vista do caipira apavorado, foi um monstro horrendo, um animal, com a apparencia de uma mula, porém sem cabeça, a lançar um fogo azulado pela cavidade da garganta.A cousa medonha encheu de couces o batente da porteira, e disparou pela estrada a fora, com estridulos, relinchos, bater de ferraduras e grande alarido de campainhas. O rapaz soltou um grito enorme, e, correndo, voltou para a Encruzilhada afim de implorar a protecção do tropeiro. A Mula-sem-cabeça, sempre a relinchar, a dar couces e a tanger o seu phantastico cincerro, vinha atraz delle, e quase o alcançava. Por momentos elle sentia o calor da língua de fogo que jorrava da sua medonha garganta.
Era uma cousa atroz o que o pobre moço sentia... Queria gritar e não podia; arredar-se do caminho para deixar passar o monstro, mas não atinava com o desvio salvador... E assim continuava acorrer pela estrada sentindo sempre atráz de si a horrenda e phantastica alimária.
Chegou emfim á Encruzilhada-do-Ingazeiro. Ahi novo assombro o aguardava. O singular tropeiro que lhe havia negado resposta pouco antes, achava-se agora em meio da estrada, de chicote em punho e chilenas nos pés, a “cortar jaca” de um modo diabolico. As suas chilenas , ao bater uma na outra, tiravam chispas de fogo; o seus dedos castanholavam doidamente. Ria-se de um modo pavoroso, e os seus olhos pareciam dois tições acezos.
Logo que o roceiro esbarrou com essa figura grotesca e medonha deu um salto para o lado, e a Mula passou adiante. Então o tropeiro que “cortava jaca” na estrada, encarrapitou-se nella, de um salto, correndo-lhe uma longa chilenada, desde a tabua do pescoço até á garupa. Um risco de fogo ficou no corpo da burra, e ella começou a corcovear damnadamente e a desandar couces em todas as direcções.
João nada poude ver. No logar onde se passava aquella scena, tudo era poeira e fogo... Houve um momento em que o caipira sentiu o extranho animal vibrar-lhe um couce nos peitos.
Immediatamente rolou na estrada, sem sentidos.

* * *

Alguém que passou no outro dia pela manhã na estrada, encontrou o pobre rapaz estendido e conduziu-o para o seu sitio, onde a mãe conseguiu reanimar-lhe os sentidos.
No emtanto uma violenta febre cerebral havia o acommettido. Durante um mez, o infeliz esteve ás portas da morte, e , quando chegou a levantar-se do leito estava, completamente doido. A molestia tinha-lhe roubado a razão, que tão rudemente fôra maltratada na Encruzilhada-do-Ingazeiro.
Era todavia um doido inoffensivo: trabalhava regularmente desempenhava-se de qualquer commisão de que o imcumbissem. Mas, si uma moça se approximava delle, o pobre louco entrava na maior afflição, e fugia da criatura, gritando espavorido:
_ “ A Mula-sem-cabeça! A Mula-sem-cabeça!”

Do " Livro dos Phantasmas"
Por VIRIATO PADILHA RIO DE JANEIRO LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA 71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73 1925

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