terça-feira, 30 de junho de 2009

Algumas coisinhas do Milton

Algumas coisas que meu irmão Milton escreveu, ele que partiu tão cedo, mas deixou muita saudade e a lembrança de seu bom humor, suas brincadeiras, seu jeito de viver intensamente cada instante:


H O
2

Que resistência incrível,
E não resiste a nada.
No seu sossego,
Fica ali, parada.
O vento sopra,
Ela responde tremendo.
O sol aquece,
Ela responde chovendo.
O som lá longe,
Ela responde vibrando.
O tom agride,
Ela responde chorando.


Quando limpa,
Sacia, banha, germina.
Quando suja,
Revida, contamina.
Quando armazenada,
Faz o que lhe convém
Toma a forma exata
De seu armazém.
Quando libertada,
Qual o caminho a tomar ?
Toma o que for mais fácil,
Pra que complicar ?

No frio rigoroso,
Ela se tranca, dura.
Mas ao calor se entrega lânguida
Qual mulher pura.
Mulher encantadora e importante, sim!
Mulher que é dona de 75% de mim.





SOLIDÃO

Solidão não é o estado
De alguém que se sente isolado.
Ela é a impressão
Individual da emoção,
Quando me sinto largado.

Estado é circunstância.
É o jeito de um momento.
Às vezes, paixão e ânsia
Bom, mesmo com sofrimento

Solidão é um sentimento
Que é alívio ou lamento
É o momento do vazio
É a falta do vizinho
Solidão não é estar
Porque somos sempre sozinhos.






VIVER HOJE


Hoje é dia de batalhar.
De novo, o ovo de cada dia.
É dia de maltratar,
A notícia que é má.
Só vou guardar o que é bom.
Meu humor não sai do tom.
Tem que correr, ou se perde.
Para quem chegar primeiro.
Tem que entender, ou se engana.
E volta lá pra janeiro.
É bom ser liso, bem descolado.
Feito bagre ensaboado.
Viver hoje, a gente escolhe.
“A vida é dura pra quem é mole”.




CATANDO COQUINHO


Começar com coisas completamente certas.
Com certeza caminharíamos conturbadamente.
Comecemos catando coquinho
Coisa corriqueira, criancice!
Comendo castanha
Colhendo coisinhas
Cercando coelho
Chorando...
Chupando chupeta.
Cresçamos convivendo calmamente
Cada coisa, cada caso.
Comedidos, compulsivos
Corajosos, covardes
Complacentes, conclusivos
Combatentes, conhecidos
Contingentes, convalescentes.
Cortejando certamente
Com calma, candura
Corte costura
Conquistaremos cama
Culminante, corruptível
Cópula claro com camisinha.
Cheguemos concisos
Concomitantes caducos
Concordando, cedendo
Conhecedores calmos
Crianças coexistentes
Chapados, crentes
Concluiremos contentes!




O RELÓGIO


Que horas são ?
Tá na hora.
Que hora ?
Ora! Não sei.
Ora sei, ora sei lá!
Tá na hora!
De aprender as horas.
Tá na hora
De Ter um relógio.
Que relógio ?
Qualquer um,
Vai perder mesmo.
Olha o tempo!
Olha a hora!
Tá na hora
Hora de *Citizen
Esse ainda não tem hora
Tá na hora!
Hora de comprar um Rolex.
Melhor que essa hora passe.
O tempo é mais precioso
O tempo que a gente tem
O tempo que a gente faz
O que o relógio marca
E marca o que a gente quer.
Que horas são ?
É agora.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac......

* Citizen ( cidadão em inglês)


PINGO D’ÁGUA

Que volúvel pingo d’água.
Ora alegria... ora mágoa.
Forte, só em bando,
Ou nas costas de um inseto,
Ou, também, quando pingando
Bem no meio do meu teto.

Pintura, carpete novinho.
Com quanta raiva eu ficava.
Vinha você bem quietinho
E no meio da sala pingava.
E haja pano de chão!
Na parede branca, um enorme borrão.
E foi plift...plift...plift...por todo o verão.

Outono e inverno já passados.
Primavera começando.
Eu, já bem determinado,
Fui por cima reformando.
Cimento na laje passei.
A parede de novo branquinha.
O carpete, de raiva, troquei.
A casa, outra vez, novinha.

Outro verão chegou, lindo!
Quente, alegre, esplendoroso.
Mas também trouxe, se rindo
Aquele visitante asqueroso.
E na decoração incluindo
Um balde rosa, horroroso.

Sujeitinho atrevido, insignificante,
Mas conseguiu novamente, incessante.
Pingar na minha sala.
Assíduo e constante.
O balde ele encheu várias vezes.
Na parede um novo borrão.
E foi plunft...plunft...plunft...
Por mais um longo verão.

Porém, agora, “amiguinho”,
Vou dizer um palavrão
Sei que você se arrepia
Mas eu não tenho dó não!

O que vou falar agora
É impermeabilização!

Por essa você não esperava.
Nem eu, mas aconteceu.
E no meio da minha sala.
Nunca mais, então, choveu.



MUNDO... BOLA


Mundo, bola,
Que cai na grama
Que morre e seca
Que vira adubo
Que aviva a planta
Que vira janta
Que muda o homem
Que estava triste
Que tinha fome
Que agora ri
Que de bem trabalha
Que tece o fio
Que vira malha
Que tira o frio
Que agasalha
Que muda os climas
Que muda os ares
Que muda os rios
Que muda os mares
Que muda e bole
Que bola é essa?
É a bola mundo
Que deixe...
Que role.




O GRITO


Saí da gruta, gritei.
Queria mais grude, gritei.
O grilo fininho gritava.
Aquele gritinho gravei.


O grito pede ou espanta.
Grito de dor ou prazer.
Mais grave é o grito calado
Que os olhos não podem conter.


Grinalda ou gravidez
As grifes, os grossos
Guri ou grisalho
Todos têm vez.


Gritar é alerta ou alegria.
Gritar é alarme ou é longe.
Gritar pra dentro é pra monge
Para fora dá mais euforia.




CONSTRUÇÃO



Alvenaria, cheia de massa,
O tijolo é tão fosco,
Benditas as pás
E as colheres
Bendito é o fruto
Desse batente,
João!

Dona Maria, mãe de Deus,
Cuidai desses trabalhadores,
Agora e na hora
Daquele andaime, também!




A NOITE



Te espero a cada dia ansioso
Quando chegas, relaxo contente
Te prolongo no meu sono ocioso
Me arrependo, dormi contigo novamente.

No teu escuro, escondo meus defeitos
Na tua quietude, não escuto ninguém
Só percebo a mim mesmo
E vejo que estou noite também.

Os dias me amedrontam
A clareza das coisas me delata
Minha condição de vampiro me incomoda
A fuga do dia me maltrata.

Porém isso não me consome
Vejo como uma fase e acabando
Percebo um amanhecer próximo
Maravilhoso me iluminando.

Além do mais, eu adoro alho.




A PERDA


Hoje perco a esperança
Acordando de um sonho colorido
Acordo com um chute dolorido
De adulto que chuta criança.

Sinto a força física do mundo
E dói mais quando esta força é sabida
Pois em algum lugar da vida
Alguém sentiu meu chute tão profundo.

Não me sinto culpado nem vítima
Nem me espanto com tal resultado
Pois o caminho por mim é traçado
Triste é ser janela feia, sempre a última.

Apesar disso, sinto-me forte e resistente
A mais um chute dos raros que levei
E, hoje, com o tal com que me deparei
Sinto a dor igual, só o ângulo diferente.

Porém, as perdas são ilusórias, irreais
São do tempo, coisa que inexiste
Hoje, estou absurdamente triste
Mas a esperança não perco jamais.






SEM TITULO

Hoje me sinto vazio, inútil
Olho minha vida, me aborreço
Minha realidade sempre fútil
Tudo o que faço é sem preço

Sozinho me assusto sem rumo
Lidando com perdas do que nunca tive
Procurando uma muleta, um prumo
Só de ilusão é que não se vive

Nesse oco esquisito eu me desgasto
Olhando o que já fiz no mundo
Me culpo, me critico, me afasto
De mim mesmo feito moribundo

Tendo consciência do que sou
Vejo que a saída está em mim
Tenho certeza de que vou
Melhorar em tudo sim!

Em Deus eu ponho meu caminho
Em Deus que eu amo e acredito
Sei que não estou sozinho
Por isso, sem vergonha eu grito:
Piedade Senhor
Me ajude!








O PROGRESSO




_ Ô, Maria, sabia que eles vão asfartá a estrada ?
_ Que nem lá nu cumpadre João, onde o filho dele morreu tropelado ?
_ É. E tamém vai tê luz elétrica, nóis pode joga as lamparina fora.
_ Ô, Zé, mais aí nóis vai tê que pagá conta, vai tê televisão e um monte de coisa pra tirá o sussego da gente ?

_ É, e tamém tá vino uma indústria de leite, já vai vim no litro fechadinho.
_ Com água junto né, Zé ?
_ É, e tamém vai abri um banco, pras pessoa bota o dinhero.
_ Ih! Zé, maís aí, pra cuidá do dinhero,nóis vai tê que pagá um monte de taxa, pegá fila e nem vai sabê onde ele tá.
_ É, Maria, tamém vai abri uma cooperativa grande, vai tê tudo quanto é verdura.
_ Ah! Zé, então o dinherinho que eu pego com as minhas arface, babau?
_É, Maria, e tamém...
_ Ói, Zé, eu não quero mais sabê de nenhuma novidade, só quero sabê pra quem é que tão fazendo isso.
_ Uai! É progresso
_ Ó,eu não conheço esse home, mas só sei que ele é muito besta!.





FELIZ NATAL


Faz tempo que se comemora
Então façamos como jamais outrora
Livres de toda mágoa e melancolia
Imbuídos de amor e alegria
Zilhões de beijos mandemos agora


Naquele que amou incondicionalmente
A luz brilhou e brilha intensamente
Todos podemos ser a luz maravilhosa
A coisa a fazer é a mais gostosa
Lembrar que o aniversário é da gente.




CARAMUJO
Sou um pobre caramujo?
Tenho essa vida mesma?
Sentindo a pressa da lesma?
E todos me vêem sujo?

Tenho mesmo essa carcaça?
Aparência de molusco?
Sou singular e fosco?
Feito casulo da traça?
Me basto ensimesmado?
Minha boca é que me grita
Até ser hermafrodita
Carece de outro ao lado.

Chega de casca!
Chega de gosma!
Chega de lesma!
Chega de lósna!

Algumas coisas que ele ecreveu e deixou comigo, uma pequena homenagem para um grande irmão.
Milton Carvalho Cavutto (04.01.1962 -23.09.2006)

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