terça-feira, 30 de junho de 2009

A vingança do morto

A VINGANÇA DO MORTO



A historia que passamos a contar e que desentranhamos de uma velha chronica , já rendáda pela traça, remonta ao primeiro período da colonisação do Brasil.Teve por theatro a velha capitania de Pernambuco, e começa em tempos da governação geral de Manuel Telles Barreto.

* * *

Lopo de Villa-Flôr era o que , com toda a franqueza e semcerimonia, se póde chamar um refinadissimo patife.
Bebado, jogador, devasso, desordeiro e mesmo ladro, quando se lhe offerecia occasião de defraudar o alheio, o governo de Portugal viu-se obrigado a deportal-o para o Brazil, não obstante ser elle filho espurio de um dos condes de Villa-Flôr, gente que surgia na primeira linha da nobreza lusitana.
Não eram raros os individuos desse quilate, entre os fidalgos do seculo XVI. Os extensos privilegios de que gosava a nobreza, a noção erronea e perniciosa do demerito trazido pelo trabalho a divisão social de classe, a frouxidão da justiça, embaraçada e desvirtuada pela imcompreensão do principio de equidade, uma pesada ignorancia, fanatismo e preconceitos de toda a casta, influíam tão directamente na depreciação do caráter, que até principes herdeiros presumptivos da Coroa, como esse filho de Henrique IV de Inglaterra, e outros, figuram ás vezes na tradição como heroes de orgias, onde da bebedeira se passava ao roubo e ao homicidio, sendo em seguida tudo isso lavado da consciencia por uma rica dotação a um convento ou uma peregrinação aos grandes centros de devoção christã _ Jerusalém, Roma, Santhiago, etc.
Ora, nestes casos estava o heróe da presente historia. Filho do Conde Villa-Flõr com a viuva de um fidalgo que morrêra na India, pelejando pelo lustre das quinas portuguezas, Lopo fora criado com todo carinho e mais que exagerada sollicitude no faustoso solar do conde. Crescêra, sendo-lhe permittidas pelo pai todas as extravagancias, e cedo os fâmulos e servos começaram a supportar o genio caprichoso e brutal do fidalguinho, sempre desculpado pelo velho conde que por elle tinha um affecto vivissimo.
Chegando á idade viril, Lopo começou, dilatado assim, o campo das suas aventuras, a exercer a sua indole, mas os simples camponios, que o tinham por verdadeiro demônio: quotidianamente chegavam ao pai noticias de espancamentos, desrespeitos a donzellas, e perversidades de toda a especie praticadas pelo seu Benjamin, e tanto este cresceu em audacia e
cynismo que um dia levantou mão criminosa contra o pai, quando o repreendia por certo delicto.
Indignou-se por tal fórma o velho e honrado conde, com esse iníquo procedimento do infame, que, fazendo calar o grande amor que lhe consagrava, o expulsou da casa paterna, cobrindo-o de maldições.
Então Lopo de Villa-Flôr passou-se para Lisboa, onde, em consequencia do alto conceito que gosava sua familia, recebeu logo ao chegar favoravel acolhimento na Corte. Cedo, porém, revelando o degradante fundo do seu caracter, imcompatibilisou-se com a sociedade lisboense , e a Policia do rei viu-se obrigada a deportal-o para o Brazil, onde não seria tão prejudicial <>, dizia o alvará que o remetteu.
Eis o personagem que vai figurar como protagonista da presente historia.

* * *

Com a mudança de ares não modificou Lopo o seu comportamento, e a população de Olinda contou desde o dia da sua chegada com mais um flagello em seu seio. A sua vida decorria entre o bordel, a taverna e a espelunca, attribuindo-se-lhe grande numero de desacatos ás pessoas e lesões ás propriedades. As cousas chegaram a tal ponto que o ouvidor lhe moveu séria perseguição, e o nosso valdevinos, para furtar-se ás garras da justiça, evadiu-se de Olinda, por uma madrugada, buscando a Villa do Cabo. Com isto contentaram-se os moradores da velha capital pernambucana e o ouvidor deu por finda a sua missão.
A nossa, porém, irá mais longe, e nessa batida não abandonaremos mais o tresloucado fidalgote.

* * *

Havia duas horas que Lopo de Villa-Flôr cavalgava em direcção ao Cabo, e o sol já vinha rompendo, quando percebeu na sua frente um outro cavalleiro que seguia a mesma direcção que elle. Lopo, interessando-se em saber quem era o cavalleiro, deu de esporas á egua que montava, e em breves minutos emparelhava com o matutino viandante.
Era d.Sancho, joven fidalgo seu conhecido, bom rapaz, porém um tanto amigo do jogo, facto que permittiu a Villa-Flôr travar com elle relações em uma espelunca.
Cumprimentaram-se alegremente, e logo entabolaram conversação. D.Sancho ia á Villa da Escada visitar um tio, rico proprietario de engenhos, dessa localidade; Lopo Villa-Flôr, occultando o verdadeiro motivo da sua retirada de Olinda, disse ao companheiro que se dirigia á villa do Cabo por motivo de negocio.
Não falaram mais sobe os motivos da jornada, e começaram os dois, ao trote lago de suas cavalgaduras, a discretear sobre a vida em Olinda, e principalmete sobre aventuras de jogo.
Assim chegaram a um ponto em que o caminho era atravessado por um limpido regato. Ahi, virando-se d.sancho para Villa-Flôr, disse-lhe:
_ “ Amigo, já que o acaso nos reuniu para companheiros de jornada, permitta que o convide participar de um magro almoço que aqui trago, o qual, embora pouco solido e variado, servirá para restabelecer em nossos estomagos um certo equilibrio”.
_ “ De bom grado”, repondeu Villa-Flôr. “ mesmo porque o ar fresco da manhã e o trote deste cavallo abriram-me damnadamente o apetite”.
_ “ Nesse caso façamos alto aqui, afim de aproveitarmos esta belissima agua”.
_ “ Como quéira”.
Apeiaram-se, amarraram os cavallos no tronco de um espinheiro, e sentaram-se commodamente na barranca afim de apreciarem o almoço, que constava de uma boa lasca de presunto, um requeijão, farinha de mandioca e um botijão de excellente vinho portuguez. Comeram e beberam melhor, tudo na mais satisfatória harmonia, e , terminada a refeição, Lopo disse para o companheiro:
_” Para que a nossa pequena festa seja completa devemos agora jogar alguns cruzados numa pequena parada”.
_” Mas onde estão os dados?”.
_” Tenho-os aqui”.
_” Todavia não jogo, pois não venho sufficientemente abastecido de dinheiro”.
_” Nem eu tambem me acho folgado. No emtanto, vinte ou trinta cruzados que se percam não aleijam ninguem, nem pelo temor de perdel-os deve-se deixar escapar tão bôa ocasião “.
_” Vá lá, porém com uma condição”.
_ “ Aceito-a desde já”.
_” È que, quando qualquer de nós tenha perdido quarenta cruzados, não se jogará mais”.
_” A´s mil maravilhas. Todo o meu dinheiro é apenas cincoenta cruzados e assim me ficarão ainda dez para os gastos”.
Convem observar ao leitor que cincoenta cruzados, ou por outra vinte mil réis, eram naquelle tempo uma quantia assaz importante, a regular-se pelos ordenados dos governadores-geraes, os quaes, embora representassem a pessoa real e tivessem um mando que ia até o direito de morte em peões e gentios, apenas percebiam 400$000 annuaes.
Estabelecida a preliminar da suspensão do jogo, logo que um dos parceiros perdesse quarenta cruzados, Lopo de Villa-Flôr , tirou do bolso do gibão uns dados de osso , e começou a partida, tendo cada um parado dez cruzados de mão.
Lopo perdeu, e d.Sancho embolsou o dinheiro. Seguiu-se uma outra partida, tambem de dez, e Lopo tornou a perder. Já um tanto impaciente, Lopo jogou numa terceira partida o resto dos quarenta cruzados da convenção, isto é, vinte.
Tornou a perder, e d.Sancho, embolsando as moedas, levantou-se disposto a proseguir em sua viagem. Deteve-o Villa-Flôr com estas palavras:
_ “ Amigo, joguemos outra partida”.
_ “ Por forma alguma; segundo dissestes, o vosso dinheiro constava unicamente de 50 cruzados, perdestes 40. Com que dinheiro fareis o resto de vossa jornada, si a sorte continuar a fugir de voz numa nova parada? Eu tenho por principio inabalavel não restituir dinheiro ganho em jogo, ainda que o perdesse o meu proprio pai , e depois foi a condição que ditei antes de começarmos o jogo...”.
_ “ Com que, então d.Sancho”, redargüiu colerico o filho do conde de Villa-Flôr, me arrancaste quarenta cruzados e assim me deixais no meio da estrada, quase sem dinheiro para pagar a hospedagem na primeira albergaria?!...permitti que vos diga, sr.d. Sancho, que vosso procedimento se assemelha muito ao de um bandido de estrada”.
_” Sr.Lopo, si a nobre familia de Villa-Flôr tem por habito tragar sem protesto de ponta de espada insultos como os que acabais de proferir, nunca a de Sancho de Miranda, em todos os seus descendentes, até o mais longinquo futuro, soffrel-as-á sem responder ao atrevido, enristando-lhe o ferro dos desagravos honestos”.
Eram de bom gosto nesse tempo essas tiradas infladas de basofia e sensitivos pundonores, mas assim como se dizia fazia-se, e , seguindo a regra d. Sancho procurou desnudar a espada.
Embaraçou-se, porém, em tiral-a da bainha, e o pérfido Villa-Flôr, aproveitando-se desse desarmamento momentaneo, sacou da sua adaga, e enterrou-a até as guardas no peito do inimigo.
D.Sancho, sem soltar um gemido, tombou, golfando sangue pela boca.
Em tres segundos era cadaver.
Lopo de Villa-Flôr, saqueando-lhe as algibeiras, arrastou o corpo para junto de um penhasco, que da estrada não se percebia, e em seguida continuou a sua viagem, sem se preoccupar o mais levemente possivel com o monstruoso crime que acabava de perpetrar.
Ora...tinha na algibeira dinheiro sufficiente para a crápula...Que lhe impotava o cadaver feito por suas mãos, que ficava apodrecendo junto á estrada, sem ao menos uma cruz presidindo à final consumação da carne?

* * *

Passaram os tempos. Insufficiente como era a policia no primeiro periodo de colonisação do Brazil, tendo de exercer-se de minguadas forças e em dilatadissimas extensões, apezar dos esforços empregados pela familia de d.Sancho, afim de descobril-o, o crime de Lopo Villa-Flôr não foi conhecido, e o assassino continuou a desregrada vida de bebedeiras, jogatinas e crápula.
Cinco annos já eram decorridos, quando aconteceu um dia cursar Villa-Flôr caminho entre a Escada e Olinda. Era a primeira vez que isso lhe acontecia, depois que ali praticára o seu nefando homicidio, do qual bem pouco se lembrava já.
Cavalgando, chegou ao riacho, onde cinco annos antes havia feito a merenda e jogado aquella partida de dados que tão fatal fora a d.Sancho.
Então veiu-lhe ao pensamento todos os incidentes dàquella triste scena, e como por sugestão diabólica teve viva curiosidade de examinar o logar em que havia depositado o cadaver do inditoso mancebo. Não poude resistir á tentação, e, apeiando-se, dirigiu-se para o penhasco. Logo o encontrou.
O cadáver apodrecêra ali mesmo, e fora devorado pelos corvos. Os ossos achavam-se espalhados por um cicuito de quatro a cinco braças, no qual a relva havia fenecido.
Bem no centro da ossada dispersa achava-se a caveira.
Lopo de Villa-Flôr teve um gesto de horror, assim que avistou esses restos, porém domando tal movimento, procurou encher-se de coragem, e apostrophou a caveira da seguinte fórma:
_” Então, d.Sancho, queres agora jogar mais uma partida?”.
E sorriu-se, admirado do próprio cynismo.
Qual não foi, porém, o seu assombro ao ver a caveira torcer-se no chão com estalidos secos, e responder-lhe em voz de tão estranha modulação que lhe fez gelar o sangue nas veias:
Vai seguindo teu caminho,
Não perturbes minha paz,
Joga, encharca-te de vinho,
Faze tudo o que te apraz.


Por ora nada te opprime,
E não te digo mais nada,
Mas tua conta de crime,
Será na Bahia ajustada.

Lopo de Villa-Flôr, ao ouvir tão extranhos versos, cujo sentido não compreendia, sentiu os cabellos levantarem-se-lhe na cabeça, e o corpo entrou-lhe todo a tremer. Assim permaneceu alguns segundos, porém, afinal, recobrando algum animo, correu espavorido para a estrada, montou a Cavallo, e a todo galope fugiu daquelle sitio assombrado.

* * *

As medonhas palavras que ouvira não podiam, no emtanto, sair-lhe da mente; e, assim, na primeira povoação a que chegou, procurou um padre e pediu-lhe que o ouvisse de confissão, communicando ao sacerdote o seu crime e a terrivel ameaça da phantastica caveira.
O Padre ficou assombrado com o que ouvira, e prescrevendo ao criminoso dura penitencia, aconselhou-o que nunca dirigisse os seus passos á Bahia pois as palavras da caveira lhe annunciavam que nesse logar encontraria elle o castigo do seu delicto.
Durante alguns mezes Lopo de Villa-Flôr conservou-se appreensivo sobre o seu destino, mas afinal a vida de dissipação que levava, e bem assim o firme proposito que havia formado de nunca ir á Bahia, tanquilisaram-n`o de todo, e pouco a pouco foi perdendo a lembrança do succedido.
Por esse tempo os hollandezes tinham invadido Pernambuco, e vencendo a tenaz resistência que lhes havia opposto o esforçado Mathias de Albuquerque, haviam conseguido destruir o arraial do Bom-Jesus e expellir os portuguezes de Pernambuco, depois de derrotal-os em diversos pontos.
Lopo de Villa-Flôr pelejava ao lado dos portuguezes, como commandante de uma companhia, e, assim, quando o príncipe Bagnuolo, após o insucesso de Porto-Calvo, retirára-se para as Alagoas, Lopo de Villa-Flôr, bem como todo o exercito protuguez fora obrigado a acompanhal-o.
Senhores de Pernambuco, os batavos perseguiram os portuguezes até as margens do S.Francisco, e estes, não podendo offerecer resistência efficaz ao inimigo, em Sergipe, tiveram de se recolher á Bahia.
Achou-se, pois Lopo de Villa-Flôr sem o querer, e sem mesmo nisto pensar, no logar que tanto temia, ali conduzido pelo acaso ou pelo desígnio da Providencia.

* * *
No emtanto o filho do conde portuguez não ligava mais a menor importancia ás suas antigas appreensões. Os episodios da grande guerra em que se achava empenhado, o espectaculo da morte que tantas vezes havia presenciado, tornaram-no inacessivel ao remorso, e, como outr`ora, a sua unica preoccupação era jogar, beber e folgar.
Ora, de uma vez Lopo de Villa-Flôr convidára alguns camaradas de armas para almoçar com elle e depois jogar algumas partidas.
A reunião devia te logar numa sexta-feira, e Villa-Flôr na manhã desse dia dirigiu-se á Praça afim de comprar qualquer peça de carne com que regalasse os amigos.
Com a permanencia das tropas Pernambucanas na Bahia, a vida nesta cidade tornára-se muito difícil, sendo geral a escassez de viveres. Os que apareciam nas feiras eram logo arrematados por preços elevadissimos e muitissimas familias começavam a soffrer duras privações.
Assim, Lopo de Villa-Flôr teve enorme difficuldade em encontrar um bom guisado para offerecer aos seus convidados. No mercado da cidade não havia mais nada de suculento para comprar, tendo Lopo que se contentar com uma cabeça de carneiro, cujo corpo já tinha sido arrematado por alguns afficiaes que andaram mais adiantados do que elle.
Embora mortificado por esse contratempo, Lopo de Villa-Flôr, pagou bem caro a cabeça de carneiro, mettendo-a dentro de um saco de estopa, e levou-a para casa, confiando que seu cozinheiro, um creoulo bahiano, saberia dar a essa peça inferior um tempero digno do paladar dos seus amigos.
* * *

Quando chegou á sua habitação, já lá se achavam os convidados: eram uns quatro ou cinco rapazes alegres que o receberam com uma salva de palmas e exclamações jubilosas.
_” Com que, então”, disse um delles, “ temos hoje um almoço de arromba?”.
_”Qual o quê”, respondeu Lopo constristado, “ nada encontrei digno de vós, nos mercados; tudo já tinha sido arrematado. Em caminho encontrei-me com um frade gordo de S.Francisco, que conduzia embrulhado no habito seboso um excellente capão.
tive ímpetos de assassinar aquelle guloso servo de Deus, e roubar-lhe o bicho, que daria uma magnífica cabidella, porém temi encontrar-me no Inferno com aquelle patife, o qual, por seu compadresco com o Diabo me obigaria a restituir-lhe o frangão”.
Uma gargalhada acolheu essa tirada.
_” Mas então, nada encontraste?”
_ “ Isso não; aqui trago uma bella cabeça de carneiro, que, sendo confiada á habilidade do nosso Lourenço, que em materia de cozinha é mais perito do que o seu primo Henrique Dias, em questão de guerrilha, nos dará um almoço regular”.
_” Pois, então, viva a cabeça de carneiro, em falta de cousa melhor” exclamaram os rapazes alegremente.
_” O que lhes garanto é que é uma cabeça de carneiro do tamanho da de um novilho. Eil-a”.
E, dizendo isso, Lopo desceu a boca do saco e fez rolar no soalho o conteudo do mesmo.
Mas....oh! assombro!
Em logar de uma cabeça de carneiro, rolou na sala, a espadanar sangue, uma cousa monstruosa. O que Lopo e seus convidados viram, no maior espanto, foi uma cabeça humana, medonhamente livida, de olhos vidrados, labios espumantes e cabellos empastados.
Um grito de pavor saiu de todos os peitos, e Lopo de Villa-Flôr, não podendo conter a extraordinaria emoção que delle se apoderou, exclamou tremulo e de olhos esbugalhados:
_”D.Sancho de Miranda!”.
O assassino tinha reconhecido nos traços daquella cabeça as feições da sua victima.
Nada mais poude dizer: uma nevoa densa obscureceu-lhe a vista, ganhou-lhe o corpo todo um torpor indizivel, e rolou sem sentidos na sala.

* * *

Comprehenderam logo os companheiros que se tratava de um crime nefando, pois alguns reconheceram igualmente aquella cabeça como a de d.Sancho que havia muitos annos tinha desaparecido da capitania de Pernambuco.
Assim entregarm Lopo de Villa-Flôr á justiça, e o indigno, sendo tomado de extranha confusão, revelou immediatamente o crime que havia commettido, com todas as suas minudencias e agravantes.
Foi-lhe instaurado processo;e, comparecendo em julgamento, condenado á morte, sentença essa que a Casa-da-Supplicação de Lisboa confirmou. Como era nobre, não subiu á forca: cortaram-lhe simplesmente a cabeça em uma das praças da Bahia, e assim se cumpriu a extranha ameaça proferida pela caveira de d.Sancho... “E”, termina a chronica de onde extrairmos esta historia, “ tudo assim aconteceu, para que não ficasse no mundo sem castigo um homem que tantos agravos ás pessoas e bens havia praticado _ um endurecido peccador que agora está pugando as suas grandes culpas nas profundezas dos infernos”.



Do " O livro dos Phantasmas"
Por Viriato Padilha
Rio de Janeiro
Edição 1925

Algumas coisinhas do Milton

Algumas coisas que meu irmão Milton escreveu, ele que partiu tão cedo, mas deixou muita saudade e a lembrança de seu bom humor, suas brincadeiras, seu jeito de viver intensamente cada instante:


H O
2

Que resistência incrível,
E não resiste a nada.
No seu sossego,
Fica ali, parada.
O vento sopra,
Ela responde tremendo.
O sol aquece,
Ela responde chovendo.
O som lá longe,
Ela responde vibrando.
O tom agride,
Ela responde chorando.


Quando limpa,
Sacia, banha, germina.
Quando suja,
Revida, contamina.
Quando armazenada,
Faz o que lhe convém
Toma a forma exata
De seu armazém.
Quando libertada,
Qual o caminho a tomar ?
Toma o que for mais fácil,
Pra que complicar ?

No frio rigoroso,
Ela se tranca, dura.
Mas ao calor se entrega lânguida
Qual mulher pura.
Mulher encantadora e importante, sim!
Mulher que é dona de 75% de mim.





SOLIDÃO

Solidão não é o estado
De alguém que se sente isolado.
Ela é a impressão
Individual da emoção,
Quando me sinto largado.

Estado é circunstância.
É o jeito de um momento.
Às vezes, paixão e ânsia
Bom, mesmo com sofrimento

Solidão é um sentimento
Que é alívio ou lamento
É o momento do vazio
É a falta do vizinho
Solidão não é estar
Porque somos sempre sozinhos.






VIVER HOJE


Hoje é dia de batalhar.
De novo, o ovo de cada dia.
É dia de maltratar,
A notícia que é má.
Só vou guardar o que é bom.
Meu humor não sai do tom.
Tem que correr, ou se perde.
Para quem chegar primeiro.
Tem que entender, ou se engana.
E volta lá pra janeiro.
É bom ser liso, bem descolado.
Feito bagre ensaboado.
Viver hoje, a gente escolhe.
“A vida é dura pra quem é mole”.




CATANDO COQUINHO


Começar com coisas completamente certas.
Com certeza caminharíamos conturbadamente.
Comecemos catando coquinho
Coisa corriqueira, criancice!
Comendo castanha
Colhendo coisinhas
Cercando coelho
Chorando...
Chupando chupeta.
Cresçamos convivendo calmamente
Cada coisa, cada caso.
Comedidos, compulsivos
Corajosos, covardes
Complacentes, conclusivos
Combatentes, conhecidos
Contingentes, convalescentes.
Cortejando certamente
Com calma, candura
Corte costura
Conquistaremos cama
Culminante, corruptível
Cópula claro com camisinha.
Cheguemos concisos
Concomitantes caducos
Concordando, cedendo
Conhecedores calmos
Crianças coexistentes
Chapados, crentes
Concluiremos contentes!




O RELÓGIO


Que horas são ?
Tá na hora.
Que hora ?
Ora! Não sei.
Ora sei, ora sei lá!
Tá na hora!
De aprender as horas.
Tá na hora
De Ter um relógio.
Que relógio ?
Qualquer um,
Vai perder mesmo.
Olha o tempo!
Olha a hora!
Tá na hora
Hora de *Citizen
Esse ainda não tem hora
Tá na hora!
Hora de comprar um Rolex.
Melhor que essa hora passe.
O tempo é mais precioso
O tempo que a gente tem
O tempo que a gente faz
O que o relógio marca
E marca o que a gente quer.
Que horas são ?
É agora.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac......

* Citizen ( cidadão em inglês)


PINGO D’ÁGUA

Que volúvel pingo d’água.
Ora alegria... ora mágoa.
Forte, só em bando,
Ou nas costas de um inseto,
Ou, também, quando pingando
Bem no meio do meu teto.

Pintura, carpete novinho.
Com quanta raiva eu ficava.
Vinha você bem quietinho
E no meio da sala pingava.
E haja pano de chão!
Na parede branca, um enorme borrão.
E foi plift...plift...plift...por todo o verão.

Outono e inverno já passados.
Primavera começando.
Eu, já bem determinado,
Fui por cima reformando.
Cimento na laje passei.
A parede de novo branquinha.
O carpete, de raiva, troquei.
A casa, outra vez, novinha.

Outro verão chegou, lindo!
Quente, alegre, esplendoroso.
Mas também trouxe, se rindo
Aquele visitante asqueroso.
E na decoração incluindo
Um balde rosa, horroroso.

Sujeitinho atrevido, insignificante,
Mas conseguiu novamente, incessante.
Pingar na minha sala.
Assíduo e constante.
O balde ele encheu várias vezes.
Na parede um novo borrão.
E foi plunft...plunft...plunft...
Por mais um longo verão.

Porém, agora, “amiguinho”,
Vou dizer um palavrão
Sei que você se arrepia
Mas eu não tenho dó não!

O que vou falar agora
É impermeabilização!

Por essa você não esperava.
Nem eu, mas aconteceu.
E no meio da minha sala.
Nunca mais, então, choveu.



MUNDO... BOLA


Mundo, bola,
Que cai na grama
Que morre e seca
Que vira adubo
Que aviva a planta
Que vira janta
Que muda o homem
Que estava triste
Que tinha fome
Que agora ri
Que de bem trabalha
Que tece o fio
Que vira malha
Que tira o frio
Que agasalha
Que muda os climas
Que muda os ares
Que muda os rios
Que muda os mares
Que muda e bole
Que bola é essa?
É a bola mundo
Que deixe...
Que role.




O GRITO


Saí da gruta, gritei.
Queria mais grude, gritei.
O grilo fininho gritava.
Aquele gritinho gravei.


O grito pede ou espanta.
Grito de dor ou prazer.
Mais grave é o grito calado
Que os olhos não podem conter.


Grinalda ou gravidez
As grifes, os grossos
Guri ou grisalho
Todos têm vez.


Gritar é alerta ou alegria.
Gritar é alarme ou é longe.
Gritar pra dentro é pra monge
Para fora dá mais euforia.




CONSTRUÇÃO



Alvenaria, cheia de massa,
O tijolo é tão fosco,
Benditas as pás
E as colheres
Bendito é o fruto
Desse batente,
João!

Dona Maria, mãe de Deus,
Cuidai desses trabalhadores,
Agora e na hora
Daquele andaime, também!




A NOITE



Te espero a cada dia ansioso
Quando chegas, relaxo contente
Te prolongo no meu sono ocioso
Me arrependo, dormi contigo novamente.

No teu escuro, escondo meus defeitos
Na tua quietude, não escuto ninguém
Só percebo a mim mesmo
E vejo que estou noite também.

Os dias me amedrontam
A clareza das coisas me delata
Minha condição de vampiro me incomoda
A fuga do dia me maltrata.

Porém isso não me consome
Vejo como uma fase e acabando
Percebo um amanhecer próximo
Maravilhoso me iluminando.

Além do mais, eu adoro alho.




A PERDA


Hoje perco a esperança
Acordando de um sonho colorido
Acordo com um chute dolorido
De adulto que chuta criança.

Sinto a força física do mundo
E dói mais quando esta força é sabida
Pois em algum lugar da vida
Alguém sentiu meu chute tão profundo.

Não me sinto culpado nem vítima
Nem me espanto com tal resultado
Pois o caminho por mim é traçado
Triste é ser janela feia, sempre a última.

Apesar disso, sinto-me forte e resistente
A mais um chute dos raros que levei
E, hoje, com o tal com que me deparei
Sinto a dor igual, só o ângulo diferente.

Porém, as perdas são ilusórias, irreais
São do tempo, coisa que inexiste
Hoje, estou absurdamente triste
Mas a esperança não perco jamais.






SEM TITULO

Hoje me sinto vazio, inútil
Olho minha vida, me aborreço
Minha realidade sempre fútil
Tudo o que faço é sem preço

Sozinho me assusto sem rumo
Lidando com perdas do que nunca tive
Procurando uma muleta, um prumo
Só de ilusão é que não se vive

Nesse oco esquisito eu me desgasto
Olhando o que já fiz no mundo
Me culpo, me critico, me afasto
De mim mesmo feito moribundo

Tendo consciência do que sou
Vejo que a saída está em mim
Tenho certeza de que vou
Melhorar em tudo sim!

Em Deus eu ponho meu caminho
Em Deus que eu amo e acredito
Sei que não estou sozinho
Por isso, sem vergonha eu grito:
Piedade Senhor
Me ajude!








O PROGRESSO




_ Ô, Maria, sabia que eles vão asfartá a estrada ?
_ Que nem lá nu cumpadre João, onde o filho dele morreu tropelado ?
_ É. E tamém vai tê luz elétrica, nóis pode joga as lamparina fora.
_ Ô, Zé, mais aí nóis vai tê que pagá conta, vai tê televisão e um monte de coisa pra tirá o sussego da gente ?

_ É, e tamém tá vino uma indústria de leite, já vai vim no litro fechadinho.
_ Com água junto né, Zé ?
_ É, e tamém vai abri um banco, pras pessoa bota o dinhero.
_ Ih! Zé, maís aí, pra cuidá do dinhero,nóis vai tê que pagá um monte de taxa, pegá fila e nem vai sabê onde ele tá.
_ É, Maria, tamém vai abri uma cooperativa grande, vai tê tudo quanto é verdura.
_ Ah! Zé, então o dinherinho que eu pego com as minhas arface, babau?
_É, Maria, e tamém...
_ Ói, Zé, eu não quero mais sabê de nenhuma novidade, só quero sabê pra quem é que tão fazendo isso.
_ Uai! É progresso
_ Ó,eu não conheço esse home, mas só sei que ele é muito besta!.





FELIZ NATAL


Faz tempo que se comemora
Então façamos como jamais outrora
Livres de toda mágoa e melancolia
Imbuídos de amor e alegria
Zilhões de beijos mandemos agora


Naquele que amou incondicionalmente
A luz brilhou e brilha intensamente
Todos podemos ser a luz maravilhosa
A coisa a fazer é a mais gostosa
Lembrar que o aniversário é da gente.




CARAMUJO
Sou um pobre caramujo?
Tenho essa vida mesma?
Sentindo a pressa da lesma?
E todos me vêem sujo?

Tenho mesmo essa carcaça?
Aparência de molusco?
Sou singular e fosco?
Feito casulo da traça?
Me basto ensimesmado?
Minha boca é que me grita
Até ser hermafrodita
Carece de outro ao lado.

Chega de casca!
Chega de gosma!
Chega de lesma!
Chega de lósna!

Algumas coisas que ele ecreveu e deixou comigo, uma pequena homenagem para um grande irmão.
Milton Carvalho Cavutto (04.01.1962 -23.09.2006)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A visão do Viegas

Arnaldo Viegas curasava o terceiro anno do curso juridico em S.Paulo. Havia seis, porém, que se achava matriculado na Academia. Indolente e de pouca atilação para as sciencias, distinguia-se sómente entre os companheiros pela sua supina ignorância da sciencia juridica, e pelo atrevimento das suas graçolas para com os lentes, mesmo os mais sisudos e ríspidos. Si em direito, porém, Arnaldo Viegas, era profano, sabia no emtanto de cor quasi todos os poemas de Byron e Musset, cujos livros tinha por sua Bíblia ou Alcorão, mas sem que fraternizasse espiritualmente com as grandezas e sublimidades d´aquellas almas allucinadas pelo Bello e pelo Amor. Viegas apreciava-os unicamente por ver que esses grandes poetas, na extravagancia de seus gênios, se compraziam em exaltar o Vicio e deprimir a Virtude. Nisso achava elle desculpa ás desordens da sua vida, desordens baixas, sem intermitencias de horas de labor honesto, nem manifestações fulgurantes de talento. Viegas era bebado como um marinheiro em terra; jogava toda sorte de jogos; fazia onstentações em entrar nas mais sórdidas espeluncas; e, finalmente, era um consumado devasso, mais por perversidade e amor próprio do que por impulsão do temperamente. A sua conversa, quando não discorria sobre os paradoxos brilhantes de Byron e Musset, versava unicamente nas boas peças que pregava aos burguezes; nos calotes que passava ao alfaiate e ao sapateiro; nas mulheres casadas que seduzia; nas donzellas que lhe offereciam a virgindade. Embora muito dissoluto, é escusado dizer que a maior parte dessas façanhas eram puras invenções suas. A pretensão que tinha porém de fazel-as passar por verídicas, demonstra perfeitamente o depravado fundo do seu caracter. Todavia o Viegas figurava como torpe protagonista em algumas aventuras amorosas, e é de uma dellas que vamos tratar.
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No tempo de que nos occupamos existia na rua S.Bento, em S.Paulo, um velho armarinheiro italiano, Pacoal Landini, que, ás suas funcções commerciaes de mercador de alfinetes, grampos e agulhas, reunia as de armador de igrejas, por occasião de festividades religiosas, e fabricante de caixões para defuntos. Pascoal landini era um velhinho magro, baixo, de barba muito alva e ponteaguda, e sempre o viam na sua pequena loja toucado com um barrete de velludo azul com borla preta, e oculos de aro de tartaruga, perfeitamente redondos e grandes. Comtudo, o que mais chamava a attenção, na lojinha da rua S.Bento, não era o seu proprietario, nem os accessorios do seu vestuario, e sim uma criatura de belleza incomparavel e suavissima, Maria Annunzziata, a filha do velho Pascoal, sempre a costurar, e sentada ao fundo da loja. Toda a estudantada desse tempo _ calouros e veteranos _ conhecia a loja do Pascoal por causa da bella costureira; e, pelo interesse de lhe lançar uma olhadela amorosa, aliás nunca correspondida, iam frequentemente, ao negocio o do Pascoal abastecer-se de pennas, lapis, papel e tinta. Pelas “ republicas” falava-se muito a miúdo na formosura de Annunzziata, e muito estudante fechava á vezes aborrecido o Digesto ou Corpus Júris, para abrir a Arte de Metrificação de Castilho, e fabricar versos em sua honra. Todavia até áquella data nenhum se havia lambido com um seu sorriso. Annunzziata parecia insensivel aos olhares de fogo que a trêfega mocidade acadêmica lhe lançava, ao dirigir-se á Escola e até aos sonetos que os mais bregeiros lhe atiravam em papel dobrado em laçarote, aproveitando descuidos do velho Landini. Ora, aconteceu um dia morrer um estudante do segundo anno de direito, e tendo os rapazes resolvido fazer-lhe o enterro, por ser o collega pauperrimo, commissionaram Arnaldo Viegas para tratar da encommenda do ataúde e da mortalha. Arnalo dirigiu-se á casa do velho Pascoal para desempenhar do seu fúnebre encargo, e depois de lançar uma olhadela de fogo para Maria Annunzziata, que parecia uma daquellas suavissimas madonas dos pintores da Renascença, ensarilhada o fundo da loja do armarinheiro, dirigiu-se ao velho nestes termos: _ “ Bons dias, sr.Pascoal: venho fazer-lhe a encommenda de um caixão e de uma mortalha para um collega que morreu”. _ “ Molto bene”, repondeu o italiano, na sua língua, pois não falava palavra de portuguez. E tomando uma fita metrica, peguntou a Viegas: _ “ La medida del suo amico”! _” Que medida?!” exclamou Viegas. _ “La medida per fare il cajone”. _” Ora bolas”1 tornou Viegas, “ nem disso me lembrei”. _ “ Dunque! Exclamou mestre Pascoal;” como fare io , senza la medida? Andate a portar-me lá , signor”. _ “ Não é preciso sr. Pascoal; meu collega era exactamente da minha altura. Tome a medida do caixão por mim”. O italiano, que , como quase todos os seus patricios, era profundamente supersticioso, fez um gesto de espanto, ao ser-lhe proposto tal alvitre, e exclamou: _” Per Dio Santo! Ecco um cattivo pensamento. Prendere la medida di um morto sopra di voi! Questa non si fa, signor, sarebbe funestissimo per voi”. A bella Annunzziata, ao ouvir as palavras do estudante, fez igualmente um gesto de horror, e, pela primeira vez nesta scena, levantou os olhos da costura. Aproveitou-se logo disto Viegas para envolvel-a em um longo olhar sensual, ao mesmo tempo que repetia a mestre Pascoal. _”Tome a medida, mestre Pascoal. Eu não acredito em agouros”. Annunzziata, ao ver essa insistencia, nãp pôde conter-se. Como que parecia interessar-se pelo estudante: _ “ Oh!non lo permettete, signor! Questo porta disgrazia!” Arnaldo viegas ficou radiante e cheio de si; quis ostentar-se aos olhos da moça homem superior, depido de superstições. Assim, exclamou, confiando o bigode negro: _” Não vos incommodeis, bella signorita. Deixe que mestre Pascoal tome a medida. O que aos demais homens acarreta desgraça, para mim talvez seja a chave da felicidade”. E tornou a dardejar uma chispa do seu olhar atrevido sobre a formosa italiana, que, enrubescendo, se inclinou sobre a costura, apenas pronunciando um simples oh! Mestre Pascoal, porém, encolhendo os hombros fleugmaticamente, assim como quem queria significar que não era responsavel pelo que acontecesse, disse, endireitando os seus oculos redondos de aro de tartaruga: _”Sai fatta la sua voluntá!”] Ao mesmo tempo que desenrolava a fita metrica, fazia com que o rapaz comprimisse a fivella da mesma na fronte e corria-aaté os pés. Em seguida levantou-se com os dedos fixos na marca, e lendo a numeração da fita exclamou: “Due metri e dieci centimetri. Per la Madona”, accrescentou alle tirando o barretinho e saudando Viegas em ar de troça, “ voi siete um signor difunto!” Apezar de muito encouraçado contra agouros, Viegas estremeceu com a phrase de mestre Pascoal.Mas, ao ouvir Annunziatta abafar um gritinho, tambem impressionada com o gracejo funebre do pai, logo as suas idéias, tomaram outro rumo. Compreendeu que a seductora virgem da rua S.Bento estava se interessando muito por elle, e isto encheu-o de prazer. Effectivamente, attrahida por estranho iman, Annunzziata, logon no primeiro momento em que os seus olhos pousaram sobre Viegas, sentiu-se sympathisada por elle. Arnaldo pagou a conta e despediu-se. Da porta lançou um ultimo olhar a Annunzziata e esta o mimoseou com um gracioso sorriso. Viegas não cabia em si de contente “Que comquista de mão cheia não ia elle fazer?Como toda a estudantada não se encheria de inveja e despeito ao vel-o na posse inteira da raphaelesca virgem da rua S.Bento?! Aquelle sorriso era a porta a todas as suas ousadias, e não seria elle Viegas que deixaria de entrar por ella”.
* * * Assim, animado por esse sorriso que lhe promettia tanta fartura de gosos e volupias, Arnaldo Viegas, começou a frequentar a loja de Pascoal Landini, cuja confiança e amisade soube captar em pouco tempo, pois o velho italiano era homem muito simples e de extrema bôa fé. Duas semanas depois que teve logar a scena acima descripta, já Viegas tomava parte no macarrão e no vinho de Chianti do modesto lar do armarinheiro, e dahi a duas outras semanas era elle completamente senhor do coração e da vontade de Annunzziata, que havia subjugado desde o dia da encommenda do caixão. Sem o sentir, a bella joven Annunzziata achou-se enamorada do devasso estudante, e logo Viegas cogitou nos meios de polluir aquella candida criança, que com tanto abandono e simpleza lhe affertara o seu primeiro e virginal amor. Aproveitou-se de uma ausência de Pascoal que foi obrigado a dirigir-se ao Rio de Janeiro afim de fazer sortimento para a sua loja, intrometteu-se no lar do honrado logista onde Annunzziata ficára, apenas com uma criada já velha. Annunzziata amava-o muito já, para poder resistir-lhe. Viegas atirou-se-lhe com toda a lubricidade dos seus desejos, e profanou-a. Pouco depois alugou um quartinho na rua que dava fundo para a casa do italiano e todas as noites mettia-se no quarto da rapariga que cada vez o adorava mais. Durante dois mezes Viegas foi assíduo junto da amante, porém decorrido esse tempo começou a enfastiar-se della, principalmente por ter percebido que ela se achava grávida. Aquelle infame era incapaz de qualquer sentimento nobre. Resolveu abandonal-a. Mudou-se de residencia e nunca mais a procurou. Não tinha elle conseguido os seus intentos? Não alcançára transforamar em impura Magdalena a bella e recatada virgem que toda a Academia adorava? Agora convinha-lhe demosntrar a sua superioridade, para que não parecessew qualquer burguez. Partiria a taça pela qual sorvêra o mais suave dos philtros.
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Annunzziata cobriu-se de maguas com o subito abandono do pérfido amante. Escreveu-lhe por diversas vezes e não obteve resposta. Ralavam-n`a os desgostos, começou a compreender que tinmha sido traída, até que afinal, amiudando mais as cartas ao scelerado, este, com o maior cynismo, mandou dizer-lhe verbalmente por um moleque que não o apoquentasse mais com cartas e choradeiras, que andava muito preoccupado com os seus estudos e exames para perder tempo em responder a lamurias de mulheres hystericas; e, finalmente, que não fosse tola em insistir com elle para pedil-a em casamento, pois ella bem devia comprehender que um rapaz da sua posição e futuro não era para casar com a filha de um armarinheiro, um rélez burguez fazedor de caixões de defunto. Tanto cynismo e brutalidade partiram uma por uma todas as cordas da alma da bella italiana. O seu debil corpo não poude rsistir a tão duro golpe: intensa febre levou-a ao leito de onde só saiu alguns dias depois para ser levada ao cemiterio. O seu pobre coração estalára de dor, e ao partir-se levára-lhe a existencia.
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O velho Pacoal Lnadini sentiu-se ferido profundamente nas suas vivas e unicas affeições com a morte de sua dilecta Maria Annunzziata, retraro vivo da esposa que pêrdera havia annos. Desde o dia em que a gentil criatura cerrou os olhos á luz do mundo, nunca mais abriu o armarinho. Tornou-se taciturno em exremo, evitava falar com as pessoas de seu conhecimento, e passava a maior parte do dia encerrado no pequeno quarto em que dormia e onde lhe morrêra a filha adorada, e cujos moveis e roupas conservava na mesma desordem e desalinho em que haviam ficado naquelle dia tão angustioso para o seu pobre e velho coração. Á rua apenas sahia para dirigir a construcção de um artistico mausoléo que mandara erigir no tumulo da filha, e no dia seguinte áquelle em que se ultimára a obra, encontraram-no morto no quarto de Annunziatta. Feita a autopsia, verificaram os medicos que o infeliz ingerira uma forte dose de arsenico. * * *
Esse doloroso acontecimento que tanto emocionaram os logistas e fabricantes da rua S.Bento, pois Landini e sua filha eram geralmente estimados, não impressionaram no emtanto o cynico que havia cavado aquellas duas sepulturas precoces. Arnaldo Viegas continuava na sua vida de dissipação, como outr´ora, e no seu intimo alegrava-se até que a morte o tirasse de certos embaraços sociaes para com a infeliz, cuja virgindade elle havia profanado.] Pouco depois entrava em exame e por casualidade era approvado com a nota simples. Rejubilou-se o pretencioso ignorantão com esse mesquinho triumpho escolar, e tendo naquelle dia recebido a gorda mezada que a prodigalidade paterna lhe dispensava, resolveu festejal-a com uma lauta ceia offerecida aos amigos, no Corvo, a celebre taverna paulista da rapaziada acadêmica de outr´ora. Eram onze horas da noite. Reinava a mais expansiva alegria em todos os convivas, pois já algumas dúzias de garrafas haviam sido despejadas, quando Arnaldo Vigas que se achava na cabeceira da mesa ergueu-se um tanto ébrio, e , empunhando uma taça a transbordar de vinho Madeira, exclamou: _” Meus senhores, vou levantar o brinde de honra do nosso banquete. Sobre elle todas as taças se quebrarão”. _” Muito bem,!muito bem!”responderam todos encendo os copos. _ “ É um toast de rspeito, meus senhores! Eu beboá memória da rapariga mais formosa que meus labios teeem beijado nos espasmos do prazer! Eu bebo senhores, ao perfeito apodrecimento da que foi outr´ora a mais perfumada e deliciosa das carnes! Eu bebo á memoria de Maria An...An...An...” Não poude terminar o nome angélico d´aquella cujas cinzas queria profanar em uma orgia. Os seus olhos fixaram-se de repente em um dos ângulos da enfumaçada sala da taverna acadêmica, e o seu corpo principiou a tremer, caindo-lhe o copo das mãos. Os companheiros voltaram-se immedatamente para o canto onde se dirigia o olhar aterrado de Viegas, mas nada viram. Arnaldo, no emtanto, ia ficando pallido, os seus labios abriram-se denotando a mairo estupefacção, e seus dedos crispavam-se, como si elle fosse preza de terrivel pesadello. Effectivamente surgia para Arnaldo uma Visão medonha, pavorosa. Naquelle momento de final de orgia, viu sair do canto da sala um Phantasma, o finado Pascoal Landini, de barrete azul, óculos redondo de aros de tartaruga e fita metrica m punho. A terrivel Visão approximou-se do libertino, que quis gritar, sem poder, não encontrando som algum na garganta. Os companheiros observavam, espantados e silenciosos. Viegas viu, então, o Phantasma de Pascoal desenrolar a fita, obrigal-o a comprimir a fivella á fronte onde um suor frio deslisava, correl-a até os pés, e depois erguer-se, endireitar os óculos para ler a numeração, e exclamar: _ “ Due metri e diecci centimetri!” E, ezactamente como outr´ora, no dia em que fôra tratar do enterro do collega, tirar o barretinho, e á guisa de cumprimento trocista, acrescentar: “ Per la Madona, voi siete um signor difunto!” Viegas não poude supportar por mais tempo aquelle martyrio. Reunindo todas as forças que tinha, articulou um grande grito e rolou inanimado ao soalho da taverna.
* * * Tornando a si do delinquio, a sua primeira pergunta foi saber dos companheiros si tinham visto a Alma do velho Pascoal tomar-lhe a medida para o caixão. Ninguem vira cousa alguma. _” Foi o vinho Madeira que te subiu aos miolos” disse um collega. _ “ proferiste um conto digno de Hoffman ou nosso Álvares de Azevedo”, disse outro. _” Ora, graças que temos um Macbeth na Academia! Acho, porém, o teu banquo um tanto burguez”, acrescentou ainda outro. _ “ Senhores, exclamou Viegas todo tremulo ainda e de uma pallidez mortal, “ eu vi nesse momento o velho Landini chegar-se a mim e tirar-me a medida paa o caixão, exactamente como no dia em que com elle tratei do enterro do Deodato. Vi, senhores, não foi effeito do vinho, nem é conto que vos quero impingir, eu vi o velho Landini!”
* * *
Dessa noite por diante arazão foi desapparecendo aos poucos do attribulado cérebro de Arnaldo Viegas. Cessou os estudos, affundou-se cegamente na bebida e dentro de algum tempo estava completamente idiota. Com intervallos lhe surgia na mente confusa a temerosa Visão, o eterno mestre landini a tirar-lhe a medida para o caixão; em seus ouvidos zumbia constantemente o terrivel gracejo do armarinheiro: _ “ Due metri e dieci centimetri! Per la Madona voi sieti um signor difunto!” Em estado de completo idiotismo vagou durante algumas semanas pelas ruas de S.Bento, roto. Esfrangalhado, sórdido, até que afinal sua família mandou recolhel-o no Hospicio do Rio de Janeiro. No fim de alguns mezes o seu corpo era dado á sepultura.


do " livro dos Phantasmas"
VIRIATO PADILHA

RIO DE JANEIRO
LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA
71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73
1925

O lobishomem

Viajava eu por uma dessas estradas de serra abaixo, tão incommodas pelos constantes lameiros e pantanos que nellas se encontram, nos quaes os cavallos enterram-se, ás vezes, até os peitos. Descambava o sol para o occaso, e já me sentia, enfadado com a monotonia da paizagem, baixa, uniforme, apresentando sempre os mesmos mangues de vegetação archaica, que recordam a de epocas geologicas decorridas, a mesma pobreza de culturas, os mesmos ranchos de sapé atufados na capoeira e com um magote de crianças magras e lambuzadas á porta. O meu camarada, ( é este o nome que se dá ao criado que acompanha o viajante e trata dos animaes) nascêra, por ali mesmo em Iguassú ou Itaguahy. Conhecia a palmo as paragens que atravessavamos, e de quando em vez esclarecia-me sobre aquella insipida região, prestan-me informações interessantes acerca dos bipedes que por ali viviam. Candido era o nome do meu camarada, que tambem acudia ao chamado de Bigode, alcunha que lhe haviam posto. Era um mulato de testa estreita, olhos apertados, com falta de dentes na frente da boca, e magro. Não sabia ler, nem escrever, porem tinha feito muitas viagens pelo interior dos estados do Rio de Janeiro e de Minas, e nellas adquirira certo traquejo da vida. Era sobretudo muito loquaz, dessa loquacidade da gente do povo, pouco embaraçosa no emprego das phrases, rustica, desataviada, porem viva, e muitas vezes originalissima pelo emprego de imagens e conceitos interessantes. Era, em summa, um excellente companheiro de viagem. Caminhando, chegamos a uma pequena, porem bem construida casa em que se achava em completo abandono. A Casa achava-se rente com a estrada, e tudo indicava que ali não residia ninguem, haveria ja annos. Uma das janellas da sala da frente tinha sido arrancada e estava por terra; o vento havia levantado algumas telhas; e abundante vegetação invadia o pequeno terreiro e cobria os tres degraus que conduziam á porta principal da habitação. Aos lados via-se uma engenhoca de moer canna e uma roda de farinha, porém tudo a desapparecer quase por baixo das tiriricas e outras cyperaceas, bem como abafando-se sob longas spathas desprendidas do velho coqueiro de indayá. Causou-me admiração ver em tal estado de abandono uma morada que parecia offerecer regular conforto, quando no emtanto miseraveis palhoças, esburacadas e mal cobertas, achavam-se atulhadas de gente. Nesse sentido dirigi uma pergunta ao meu pagem: _ “ Diga-me, sr. Bigode, por que motivo se ve em tal lastimável abandono esta excellente casa?” _ “ Eh! Patrão” respondeu-me Bigode, que parecia ter esperado por esta naturalissima interrogação, “ essa é a Casa-do-Lobishomem. É muito conhecida. Até já saiu nas folhas do Rio. Depois que o Lobishomem desappareceu, ninguem mais quis morar aqui. No emtanto é pena, pois em toda esta redondeza não ha uma casa tão boa, em terras que deem melhor mandioca e melhor canna. Mas... que quer vosmecê? Quando o povo scisma com qualquer cousa, acabou-se, não ha nada que lh´a tire da cabeça”. _ ! Então, sr. Bigode, esta casa pertenceu a um Lobishomem?” _ “ Sim, senhor; um Lobishomem, e daquelles verdadeiros mesmo. Foi desencantado pelo Juca Bem-bem que era camarada do velho Moura. Conheci muito o Juca; p´ra um pé de viola não havia outro”. _ “ E ha mesmo Lobishomens, sr. Bigode?”. _” Eh? Patrão!” exclamou o caipira, como que admirado da minha crassa ignorancia ou estupida incredulidade, pois vomecê ainda pergunta ? Ha Lobishomens e de muitas qualidades. Eu mesmo que aqui estou já tenho topado com elles nas sexta-feiras, mas comigo nada podem. Trago no pescoço uma oração que é mesmo um porrete bemdito para tudo que é cousa má. Ora patrão vomecê perguntar si ha mesmo Lobishomens ?! Toda mulher que tiver sete filhos machos, póde ter certeza que um delles vira Lobishomem. E, sendo sete meninas, uma, mais cedo ou mais tarde vira Bruxa. O Lobishomem, patrão, é o dizimo do Diabo”. Á vista de definição tão explicita, não me era possivel duvidar mais da existencia do Lobishomem.Envergonhei-me, até da incerteza em que me achava acerca da realidade de personagem de existencia tão comprovada, e pedi ao Bigode que me contasse a historia do Lobishomem que outr´ora habitára a casa cujo abandono agora me admirava. Afinal tinha descoberto o meio de dissipar o tedio de uma viagem por sitios tão sem perspectiva e mais que monotona paizagem. A historia é pouco mais ou menos a que os leitores vão ler.
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O sr. Bazilio de Moura era um lavradorzinho remediado e pai de alguns casaes de filhos, todos já afamiliados. Apenas restava na casa paterna a caçula, d.Cecilia, moça regularmente bonita. Enamorou-se della Joaquim Pacheco, um dos sete filhos varões do velho Pacheco, negociante de seccos e molhados em Marapicú. Joaquim Pacheco, ou antes Quincas Pacheco, era um rapaz sem defeitos , e com um começo de fortuna. Já se vê que constituia um bom partido; e tendo nisso concordado o velho Moura e a filha, ajustou-se o casamento, sendo este logo realisado, não obstante apresentar o noivo intensa amarellidão, que fazia receiar por sua saude. Mas, em serra baixo, quem não sofre mais ou menos do fígado? E quem tem cores vivas? Assim, não foi estorvo ao enlace matrimonial a pallidez do Quincas Pacheco. Fez-se o casamento e os novéis esposos foram residir na aceiada casinha que me havia chamado a attenção pelo seu prematuro abandono, e que ficava pouco distante da do velho Moura, ali um pouco p`ra dentro. As extremas do sitio de um emendavam com as de outro. O casamento fizera-se em um sabbado, e nos primeiros dias não houve cousa de importante a relatar-se. Os casadinhos saboreavam a sua lua-de-mel como todo mundo; abraçavam-se, beijavam-se a todo instante, faziam castellos no ar... Mas, na primeira noite de sexta-feira, que passaram juntos, isto é, sete dias depois do enlace matrimonial, começou a complicar-se a situação dos conjuges. Achava-se, d. Cecilia acordada, isso por valta da meia-noite, quando sentiu o marido apalpal-a como si procurasse verificar si ella estava realmente adormecida, e assim julgando, esgueirou-se por entre os lençóes, dirigiu-se devagarinho para a porta, abriu-a e saiu para o terreiro. Só quando o dia vinha rompendo é que Quincas Pacheco, com o corpo frio como o focinho de um cão, voltou para o leito conjugal. D. Cecilia ficou apprehensiva com essa ausencia nocturna do marido. “ Seria possivel que logo, na primeira semana casado, Quincas Pacheco, a abandonasse para ir procurar alguma descarada?! Isso seria horroroso!...” Mais admirada ficou D. Cecilia ao observar no dia seguinte que o marido se achava mais pallido que de costume, que seus olhos tinham um fulgor de singular estranheza, que se havia tornado taciturno e procurava evital-a. Effectivamente Quinca Pacheco achava-se muito alterado em physionomia e modos, e assim se conservou por tres longos dias. No quarto , porém, voltou um tanto ao antigo estado, e D. Cecilia, com muito boas maneiras, procurou saber delle o motivo porque se ausentára do leito conjugal durante a noite de sexta-feira. Mal, no emtanto, pronunciou a rapariga as primeira palavras sobre esse assumpto, encheu-se Quincas de inexplicavel furor, e, arrancando-se brutalmente dos braços da esposa, foi sentar-se meditabundo na porta do quintal, onde passou todo o resto do dia, sem querer comer nem beber. D. Cecilia mortificou-se extremamente com tal procedimento.era, porem, excellente criatura, e, compreendendo que aquelle assumpto desgostava o marido, evitou dàhi por diante falar mais nelle, ao mesmo tempo que, por intelligentes carinhos se esforçava por arrancal-o do pesado silencio em que elle se engolfára. Assim restabeleceu-se um pouco a tranquillidade no casal. D.Cecilia fizera o sacrificio de seu orgulho e curiosidade, em beneficioda hamonia do lar.
Isso durou uns três dias. Na sexta-feira seguinte, porem, quando o relogio americano que havia na sala de jantar vibrara as doze horas da meia-noite, Quincas Pacheco, tal como fizera na sexta-feira anterior, tornou a deslisar mansamente da cama, e ganhando a porta da rua poz-se no mundo. Só voltou quando os gallos começavam a cantar. D. Cecilia, que por ter o somno muito leve despetára quando o marido fizera girar a chave na fechadura, ainda mais incommodada ficou, do que da outra vez, e, no seu leito solitario revelou-se cheia de impaciencia e desgostos até a chegada de Quincas. “ Com certeza Quincas Pacheco tinha alguma amante, pensava ella, “ e as alterações que nelle havia obsevado, não eram outra cousa sinão o arrependimento de se ter casado com ella. Fizera-se o enlace tão apressadamente!...Quem sabia das suas desgraças com outras mulheres?” No dia seguinte Quincas Pacheco estava livido e o seu olhar terrivelmente sombrio. Cecilia quasi o desconheceu. Seu marido não falava, pouco comia, e, ás vezes, soltava uns grunhidos singulares, que mais se assemelhavam aos de um porco do que sons produzido por garganta humana. Á noite, querendo ela affagal-o, Quicas repelliu-a com modos bruscos. Era um homem completamente differente do da primeira semana, pois embora sempre fosse um tanto tristonho, mostrára-se até então delicado e carinhoso para com ella. Depois de pensar durante algumas horas sobre o que devia fazer, d.Cecilia, resolveu levar ao conhecimento do pa io que se passava de extraordinario em sua casa. Assim, dirigiu-se á roça do velho Moura, no domingo, e foi só, pois Quincas Pacheco não quis acompanhal-a. Ahi chegada, referiu ao pai todos os seus desgostos, tornando-o sciente da conducta mais que irregular do esposo. O ancião, que não esperava arrufos entre casadinhos de fresco, ficou attonito ao ouvir as queixas da filha, e mais ainda a natureza dellas. Assim, depois de coçar a cabeça por algum tempo, o que nelle era signal de grande embaraço, disse-lhe: _ “ Minha filha, ahi anda cousa muito seria, talvez mais do que pensas. Não é possivel que o rapaz saia para procurar mulher, pois sabes melhor do que eu que nestas redondezas não ha nenhuma vida má, e demais Quincas é ainda muito novo no logar para que pudesse formar já relações de tal natureza. Olha, faze o que te digo. Não dês por achada, continua a tratal-o bem, nada lhe fales sobre os seus passeios ás tantas da noite, e á primeira vez que elle tornar a sair acompanha-o de longe, e informa-te por ti mesma o motivo de seus giros. È o mais prudente. Nada de juízos temerarios sobre o pobre rapaz”. Aceitou d.Cecilia o conselho paterno, e voltando para casa, esforçou-se por bem tratar o esposo, que se mantinha sempre no seu pesado mutismo, e continuava a assombral-a com seus modos bruscos. D.Cecilia tragou tudo com a maior resignação. No emtanto sentia percorrer-lhe todo corpo um calafrio quando Quincas soltava o grunhido estranho que principiára e emittir logo depois do primeiro passeio. Estaria doido o infeliz? Viviam assim os dois, até que chegou a outra sexta-feira , e como já havia succedido nas duas antecedentes , Quincas Pacheco, logo que no relogio de parede o tympano vibrou doze pancadas, esgueirou-se sorrateiramente da cama, abriu a porta e ganhou o mundo. Logo após d.Cecilia, que por prevenção se achava acordada, enfiou um roupão de lã cinzenta que possuía, embrulhou-se num chalé da mesma côr , e saiu para fora de casa o mais lestamente possivel , afim de não perder de vista o esposo. Era noite de lua cheia e tudo estava claro: fácil lhe foi conseguir avistal-o Quincas achava-se encostado ao oitão da casa, e , ali demorou-se alguns minutos, como si estivesse formando um projecto. Depois dirigiu-se lento, cabisbaixo e muito triste na direcção de um telheiro onde dormiam os porcos; e ao approximar-se delle começou a emittir os singulares grunhidos que tanto haviam apavorado a moça. Esta o acompanhava á distancia. Sempre grunhindo, Quincas Pacheco approximou-se do telheiro e os porcos ao presentiram-n´o levantaram-se e fugiram. Então Quincas Pacheco tirou a roupa, e atirando-se na poeira que servia de leito aos bacorinhos, espojou-se longo tempo, sempre grunhindo ferozmente. D.Cecilia não sabia que pensar do que estava presenciando. Parecia-lhe que o marido havia enlouquecido repentinamente, e ainda não tinha voltado do seu grande espanto quando viu Quincas Pacheco erguer-se , não sob a figura humana, porém sim transformado em um grande porco, de cerdas eriçadas e prezas salientes, o qual poz-se logo de pé e começou a bater os dentes e a abanar as orelhas de uma maneira horrível!! Os olhos dessa cousa monstruosa luziam como brazas, e dentuça branca, cerrada e ponteaguda destacava-se no negrume dos pellos. D, Cecília, levada ao auge do assombro, não poude reprimir um grito, e a extranha alimária, assim que o ouviu, levantou a grande e pesada cabeça, farejou por alguns instantes e depois avançou para o logar em que a rapariga se achava. A moça, com toda a força de suas pernas e extensão de seu fôlego, bateu em retirada para casa. Quando porém, alcançava o terreiro já o monstro tinha dado a volta á habitação, e cercava-a pelo outro lado. O grande medo que se apoderou da jovem deu-lhe forças para voltar por onde tinha vindo e chegando ao alpendre de porcos enfiou pelo caminho que conduzia á casa do pai. Corria a mais não poder, e a fera sempre a acompanhal-a. Dez minutos durou a perseguição, e de uma vez o porco chegou a deitar-lhe os dentes no roupão de lã que se rompeu com o esforço empregado pela moça. Afinal d.Cecilia, sem afrouxar a carreira, chegou á beira de um regato que atravessava o caminho e o traspoz de um salto. O monstro ia-lhe ainda ao enlaço, mas ao ver a agua estacou e retrocedeu, sempre batendo os dentes. Já era tempo também. A moça estava quase a cair de cansaço; tremiam-lhe as pernas, offegava, um suor frio corria-lhe pelas fontes e estava quase para tombar sem alento na estrada, quando ouviu uma voz que cantava:
Tomará que o matto seque,Quero vê que as cobras come;É cousa que causa espantoVê muié passá sem home.Oh! Minha senhora dona,Que tristeza e que pená!...A chinela de um paulistaNuma sala faz chorá. A moça reconheceu logo essa voz: era do Juca Bembem, camarada da casa de seu pai. E assim que este se approximou della pediu-lhe que a levasse para junto do velho. O rapaz, muito admirado por vel-a áquella hora na estrada, obedeceu-lhe immediatemente. D`ali á casa do Moura apenas distavam alguns passos. Ao entrar na sala da casa paterna, Cecília estava pallida como uma defunta. O velho Moura, acordado em sobresalto, assim que percebeu a filha em tal estado, recuou assombrado, mas logo acercando-se della com solicitude, perguntou-lhe o que havia acontecido. Cecília, depois de um quarto de hora em que não pode articular palavra, contou-lhe com voz sumida toda a historia da transformação do marido, em porco, e bem assim a fórma pela qual fôra perseguida até o riacho do caminho. Bazilio de Moura ficou de boca aberta ao ouvir tão espantosa narração, e como que sem coragem para pronunciar a terrivel palavra que logo lhe acudira á mente. Comtudo, Juca Bembem que tambem ouvira a historia, logo que a moça chegou ao episodio do riacho, exclamou com vivacidade: _ “ D.Cecilia, desculpe si offendo sem querer, mas seu marido é Lobishomem”! _” È verdade”, confirmou o velho Moura consternado, porém animado pela entrada de Juca, “ é verdade, minha filha. Que desgraça! Qincas é Lobishomem!” Esta scena muda durou alguns instantes, e decorridos elles, Juca Bembem deu alguns passos para a moça disse-lhe com decisão: _ “Senhora D.Cecilia, enxugue o seu pranto; Deus dá remedio para tudo e eu lhe garanto que hei de desencantar seu marido”. _ “ Hei de desencantar seu marido, custe o que custar. Muita gente já tem feito o mesmo e eu não hei de ser dos mais caiporas, si Deus e Nossa Senhora da Conceição me ajudarem. D. Cecília, peço-lhe que não volte esta semana e a seguinte para sua casa e deixe o resto por minha conta.Na sexta-feira vou ver o bruto. Entretanto, si elle cá vier amanhã, digam-lhe que vou morar com elle alguns dias. Vomecês inventem o que quizerem para elle não desconfiar”. E dizendo isso Juca Bembem despediu-se dos dois e retirou-se. Percebia-se no seu semblante que havia formado uma resolução inabalavel. No outro dia, logo pela manhã. Quincas Pacheco veiu á casa do velho Moura buscar a mulher. Esta, ao avistal-o soltou um grito de horror...É que nos dentes do marido via pregados alguns fiapos do seu roupão de lã cinzenta.Não havia mais que duvidar. Quincas Pacheco era Lobishomem. Logo em seguida, porém, tranquilisou-se, e disse ao marido que não podia ir para casa porquanto seu pai se achava doente e não tinha quem o tratasse. Effectivamente o velho Moura, com o abalo que soffrêra, caira de cama. Disse mais a moça que tinha combinado com Juca Bembem que emquanto seu pai se conservasse enfermo, fosse elle para o sitio, afim de fazer-lhe companhia, preparar-lhe a comida e tratar da criação. Quincas Pacheco achava-se de uma lividez de cadaver e durante o tempo que a mulher lhe falára, nem uma só voz lhe tirára o olhar. Assim que ella terminou a sua explicação, Quincas, embora fazendo grande esforço para reprimil-o, soltou um grunhido rouco, convulso, e retirou-se bruscamente.
* * *
Com o piedoso intuito de desencantar o Lobishomem, Juca Bembem, conforme ficára combinado, fôra viver com Quincas Pacheco. É crença geral que fazendo-se sangue na pessoa, quando ela se acha transforamada nesse animal phantastico, o Diabo vem lamber o sangue, considera-se pago o seu dizimo, e a pessoa isenta-se do seu sombrio fadario. Ora, Juca Bembem sentia-se com coragem para travar combate com a phantastica alimária e feril-a. Nos primeiros dias de sua permanencia no sitio de Quincas, nada houve de anormal. Pacheco sempre muito sombrio e melancolico, evitava falar com o camarada, mas este não se dava por achado e ia fazendo silenciosamente as suas obrigações, até que chegou a fatidica sexta-feira. Juca Bembem dormia na sala, em uma rêde, e , por precaução, nessa noite resistiu ao somno, e nem ao menos despiu-se. Qunado o relogio bateu doze horas, ouviu ruido no quarto do patrão. D´ahi a pouco este assomou á porta e dirigindo-se para a da rua abriu-a e saiu para fóra. . Juca Bembem fez outro tanto, armando-se de uma fouce bem amolada, que de antemão tinha encostado á parede, e acompanhou Pacheco. Este foi direitinho ao alpendre dos porcos, grunhindo pelo caminho. Ali chegado, despiu-se, e atirou-se á poeira, esponjando-se nella em todos os sentidos, e pouco depois erguia-se transformado em porco.Juca Bembem, sentiu os cabellos se arrepiarem na cabeça, mas não perdeu o animo e dirigindo-se para o monstro gritou-lhe em voz ameaçadora: _” Hoje é comigo, Lobishomem!” O porco levantou a cabeça, bateu as grandes orelhas pendentes e lançou-se sobre Bembem. Este, que se achava prevenido, de um salto evitou o esbarro. Voltou o porco ao ataque, porém Juca tornou a furtar-lhe o corpo, e quando pela terceira vez a fera investiu contra elle, o destro caipira vibrou-lhe a foice pelo fio do lombo, e a arma pegando em uma das orelhas do Lobishomem fez della jorrar um grande esguicho de sangue. Immediatamente surgiu em frente do rapaz Quincas Pacheco e desappareceu o porco. Quincas Pacheco estava extremamente pallido e cansado. _ “ Que é isso patrão? Exclamou Juca Bembem”. Perdôe-me si o feri!...” “ Ah, meu bom amigo, respondeu-lhe com voz cava Quincas Pacheco, “ que grande serviço te devo! Livraste-mede um penoso e miseravel fadario. Graças á tua coragem, deixei de ser Lobishomem. Anda comigo, quero recompensar-te generosamente”. E partiu para casa. Ao chegar ao terreiro, Pacheco virou-se para Bembem e disse-lhe: _” Espera-me aqui. Vou buscar uma “ molhadura” para recompensar o teu grande serviço”. Juca Bembem ficou esperando. Pacheco entrou em casa. D´ahi a pouco assomava á porta , mas a “molhadura” que trazia era uma espingarda carregada e antes que Bembem pudesse fazer um movimento para fugir, pregou-lhe um enorme tiro, quase a queima roupa. Juca Bembem, caiu, e d´ahi a tres dias entregava a alma a Deus. Haviam-lhe entrado no corpo dezesseis caroços de chumbo grosso. Desde esse dia tambem nunca mais ninguem via Quincas Pacheco. Consta que fugira para os serões de Minas de Goyaz. _ “Agora”, disse-me Bigode, depois de terminar a historia que para aqui transportei, somente alterando um pouco a linguagem, “ Juca Bembem morreu porque não sabia de todas as manhas do bicho. Elle devia ter espetado a foice no chão, posto nella o seu chapéo e o casaco, e esconder-se a um canto. O outro dava-lhe o tiro que não pegava, e então seria obrigado a dar-lhe o dinheiro que lhe promettêra. Não sabem das cousas e querem se metter nellas! Não, que desencantar um lobishomem tem suas historias! A pessoa depois que se livra daquelle fado ruim, fica envergonhada, e , si póde, dá cabo de quem a desencantou. Coitado do Juca Bembem, era tão bom rapaz, e valente até ali!...” _” E D. Cecília, qual foi seu destino?” perguntei, interessado pela sorte da infeliz esposa do Lobishomem. _” D. cecília”, rspondeu Bigode, “ nunca mais quis habitar sua casa. Os cabellos se lhe embranqueceram de todo dentro de um mez, e pouco depoius começou a tossir e a deitar escarros de sangue pela boca. Estava soffrendo do peito, e seis mezes depois da morte de Juca Bembem e do desapparecimento de Quincas Pacheco, dava ella sua alma aos anjos. Bazilio de Moura ainda é vivo; soffreu muito, mas o patrão bem sabe que gente velha tem couro duro para desgostos. Já está quilotado”.

Do " Livro dos Phantasmas"
Por
VIRIATO PADILHA


RIO DE JANEIRO
LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA
71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73
1925

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A mula sem cabeça

A MULA-SEM-CABEÇA


No mundo extranho e singularmente phantastico de que nos estamos occupando, a Mula-sem-cabeça tem logar proeminente, e não ha quem o ignore, por menos versado que seja em materia de crendices populares.
A mula-sem-cabeça, assim como a Bruxa e o Lobishomem, não é uma verdadeira Alma do Outro Mundo ou Espirito Sobrenatural, e sim uma criatura humana, dotada das mesmas qualidades de outras, porém que, por determinadas circumstancias, adquiriu propriedades phantasticas e attributos que não se encontram no resto da humanidade.
A crença na Mula-sem-cabeça foi importada de Portugal: é geralmente a mulher que mantem relações amorosas com qualquer padre, o qual, pelo juramento de castidade que faz, ao receber ordens, chama sobre aquella que com elle cohabita, a maldição divina, pois o caracter de Mula-sem-cabeça é o de um fadario isto é, a degradação momentânea e periodica do ser humano em vil animal.
Entre as muitas historias de Mulas-sem-cabeça que sabemos, todas assentando sobre a mesma base da punição da mulher pelo seu amor precaminoso ao padre, e com mais ou menos variantes, vamos contar uma que teve por theatro o velho arraial do Infeccionado, em Minas-Geraes.
É uma historia singela, porém emocionante, e que não deixa de ter um grande fundo de verdade, bem visivel a qualquer intelligencia.

* * *
João era um caipira honesto, muito trabalhador e comedido. Nunca o viram escorado ao balcão das vendas; fugia das lôbregas mezas do marimbo e do pacau e evitava os cateretês da visinhança.
Homem de foice, machado e enxada, na extensão mais ampla da phrase, o pequeno sitio
em que vivia, com sua mãe, já velhinha, era cuidado com esmero, e assim, si não andava na abundancia, estava no emtanto livre da penuria.
O chiqueiro e o poleiro achavam-se bem guarnecidos, e a roça dilatava-se em farturas de toda a sorte.
Além disso João era um rapaz forte, sadio, sem pretenções e grandezas e glorias futuras, e , sob o ponto de vista do saber humano, satisfazendo-se com os escassos conhecimentos empyricos adquiridos na labutação da lavoura e da criação de animaes domesticos.
Afilhado de estimação do coronel Fonsecão, chefe politico respeitado, que, sempre estava com o governo, e , por conseguinte, nunca declinando a vara do poder local, nas quadras de recrutamento, que são as mais escabrosas para o matuto, nunca se mettiam com elle, e assim João deslisava placidamente na corrente da existencia, sem della soffrer os esbarros ou os ennovelantes redemoinhos.
Collocado em tão favoráveis condições, o nosso caipira podia ser um homem feliz. Mas... João era moço, contava vinte e tres annos apenas, e uma circumstancia impedia que a sua ventura fosse completa.
Não é preciso dizer ao leitor que, quando se está nessa idade, toda de ardencias e desejos vivos, qualquer homem é um Colombo a anceiar pelos mundos novos do amor, a sonhar dia e noite com os horisontes fagueiros da ternura feminina; e, na perseguição dessa chimera, muitas vezes veste-se a alma de espinhos, ou pelo menos, perturba-se a nossa placidez de espirito.
Ora, João assim que entrou nos vinte e tres annos teve que se submetter a esta lei natural. Então começou a sentir-se isolado e muitas vezes esquecia-se, debruçado no cabo da enxada, ou com o machado seguro á entalha cavada na fronde do jequitibá, e ali perdia-se em vagas scismas, a seguir com o pensamento uma visão agradavel, que se aprazia em visital-o por taes horas. E, depois de vel-a desapparecer, continuava o trabalho, mas um tanto esmorecido, como que si lhe faltasse o alento essencial á sua actividade.
È que João se sentia homem, forte para a vida e para o amor, disposto á rudeza do trabalho material e apto para supportar os encargos da familia _ essa trouxa pesada como alguns dizem. Porque, então, não procurava uma companheira, bonita, como sonhava seu coração, bôa como mereciam seu caracter e qualidades? Não a tinha o Antonico, um criançola, que nem siquer apresentava barba?. Não se casara o Juca, seu irmão collaço e filho do coronel Fonsecão? E até o Anselmo, um pobre diabo, sem eira nem beira, não se atrevêra a pedir em casamento a filha do Xico Andorinha?
Porque, então, não se casava elle? Estava na idade; e tinha graças a Deus, com que dar de comer a mulher e filhos.As suas terras eram proprias, uma bôa casinha, toda coberta de bicuiba e bem entaipada, lavoura convenientemente tratada e rendosa, criação de terreiro abundante, e dois cavallos de sella no pasto.
Depois de matutar alguns mezes essas idéias, o nosso excellente João chegou á conclusão de que o casamento era para elle cousa facilima de commetter, e ao mesmo tempo inevitavel . Resolveu, pois realisal-o quanto antes, e , depois, que Deus o ajudasse! Si afinal, os homens não se casassem, que seria do mundo?

* * *

Quanto á escolha da mulher, era com que João não podia embaraçar-se. Pois com quem devia elle casar, sinão com Ritinha, a filha de mestre Manuel Theodoro, o marceneiro do Infeccionado? Não estava ella moça feita e bonita, como nenhuma outra em todo arraial e lavouras da visinhança? Não podia ser com outra, estava claro.
Estimavam-se desde meninos e quando brincavam o tempo-será e o chicote –queimado, já se sentiam vivamente attraidos um para o outro. Fôra sua companheira predileta nas folias infantis, sel-o-a igualmente na phase das responsabilidades.
Pelo ultimo São João tiraram sortes e estas prognosticaram o seu enlace. Do seu amor estava certo: Não havia, pois, que hesitar: seria Ritinha sua mulher. E tendo assentado nesse projecto, pediu-a em casamento, sendo recebido jubilosamente, tanto pela moça como pelo velho Manuel Theodoro.
Marcou-se o noivado para o Dia-de-Reis, e logo nas duas casas começou-se a trabalhar activamente nos preparativos para a importante solemnidade, pois, embora pobre, João desejava que a festa se fizesse com a decência compativel com o credito que gosava.

* * *

Faltavam apenas algumas semanas para chegar o Dia-de-Reis, pelo qual nosso caipira suspirava, contando dia por dia, quando sobreveiu um acontecimento que determinou alteração completa no theor das cousas estabelecidas.
Morrêra o velho vigário do Infeccionado, bom homem, geralmente estimado na freguezia, e intimo amigo de Manuel Theodoro, pai de ritinha. Era Manuel Theodoro quem armava a igreja, nos dias festivos, e Ritinha quem cuidava da lavagem e engommação das toalhas do altar e das sobrepelizes, serviço com o qual granjeava uns cobresinhos, tudo isso por intervenção do velho vigario, que as más linguas do logar achavam um tanto parecido com a filha de Manuel Theodoro, pondo assim em grave risco a reputação da esposa do marcineiro, a veneranda d.Thomazia, morta, havia tempos.
Para substituir o fallecido na vigararia do Infeccionado, nomeára o bispo o padre Salustio; e este, quinze dias depois dos funeraes do seu antecessor, chegava á freguezia. Era um homem moço, ainda com o cheiro de seminario, mineiro de nascimento, e de familia opulenta do Grão-Mogol. Tinha feições regulares, pelle macia e muito branca, olhos negros e cheios de vivacidade, bella estatura e maneiras affaveis. Pela influencia que gosava sua familia junto ao bispado, isentára-se da condição pouco invejavel de coadjuctor; e , apenas recebêra ordens; conquistára a vigararia do Infeccionadp aliás bastante rendosa.
Esse facto da mudança de vigario no velho arraial do infeccionado, póde parecer indifferente ao leitor. No emtanto, é, sobre elle que se estabelece o enredo desta narrativa singela, e por isso tem alta importancia neste momento.
Foi o padre Salustio, ou antes, foram os seus olhos petulantes, os seus labios bem desenhados na face, as sua mãos finas e pequenas, e todas as suas outras graças physicas que crearam o pequeno romance de que nos ocupamos, aliás verídica historia, authentica pelo testemunho insuspeito do ancião que m´a referiu, o João André, antigo tropeiro das estradas mineiras, do tempo ainda em que se batia carga em Magé e no porto da Estrella, outr´ora importantes centros commerciaes, hoje tristes e desoladas taperas.
Mas... passemos adiante.

* * *

Tres dias depois que o padre Salustio se estabelecera no Infeccionado, recebeu elle a visita da graciosa Ritinha, filha do velho marcineiro Manuel Theodoro, e noiva do nosso amigo João.
Ritinha era rapariga realmente formosa, e isto nos faz crer que, embora escasso de instrucção, não era despido de gosto o afilhado do coronel Fonsecão.
De estatura regular, era enxuta de carnes e de fórmas correctas, seio farto sem excesso, cintura delgada, anca fornida, braços bem dispostos, mãos e pés pequenos. Os olhos eram pardos, poucos brilhantes mas doces, os labios cheios, o nariz bem feito, os dentes brancos e pequenos, a pelle láctea e tudo isso encaixilhando-se num oval suavissimo, coroado por uma soberba cabelleira acastanhada, abundantissima, em fios tenuissimos, de uma delicadeza e brilho de seda frouxa.
Ritinha vinha em nome do pai cumprimentar o sr, vigario, e ao mesmo tempo fazer-lhe entrega de umas tantas toalhas bordadas de altar que ficaram em seu poder, ao fallecer o antigo padre.
O padre Salustio agradeceu muito a fineza da joven, fel-a sentar-se e entrou com ella em demorada conversação sobre sua familia e do rapaz com o qual ia casar-se, bem como acerca de outros assumptos mais relativos aos fieis no Infeccionado, e padecimentos e morte do padre velho, acabando por pedir-lhe que continuasse com o encargo de lavar e engommar os pannos da igreja, pois não convinha desviar tão preciosos artigos, para outras mãos attendendo-se á facilidade com que o geral das lavadeiras lhes davam descaminho.
Desde o primeiro momento, Salustio ficou deslumbrado com a belleza da moça, pois, embora sacerdote e prezo á castidade por juramentos solemnes, era muito moço ainda, e de temperamento bastante vivo, para não se impressionar com a plastica soberba que tinha diante de si, mais realçada por uma certa candura combinada com languidez que lhe ia matar.
Por seu lado, Ritinha sentia-se bem conversando com o jovem sacerdote, não a importunavam as perguntas um tanto indiscretas que elle lhe fazia, e admirava-lhe a graça do falar e dos gestos, a elegância do porte, e a doçura do olhar.
Sentiram-se, pois, talvez, sem o quererem, reciprocamente inclinados um para o outro; e quando o padre Salustio, ao despedir-se da moça, lhe apertou demoradamente as mãos, e a envolveu num longo olhar sensual, que parecia enredal-a na lingua de um fogo extranho, Ritinha, sentiu-se enleiada, enrubesceu, tremeu, e retirou-se apressadamente, sem saber que lhe responder...

* * *

Durante todo o dia em que teve logar esta scena, Ritinha não arredou o padre Salustio um só momento da imaginação. Rememorava mentalmente uma por todas as suas palavras, lembrava-se com intimo prazer dos cumprimentos que elle havia dirigido á sua belleza, e procurava reviver na memoria todos os seus traços physionomicos que achava de uma regularidade e delicadeza superiores. Sobretudo tinha-lhe causado vivissima impressão o sorriso do padre Salustio, tão cheio de encantos e fascinação.
Falou a mestre Manuel Theodoro com muito calor do novo vigario; e , á noite, vindo visital-a o João, sem saber porque sentiu-se mal. Como que a presença do rapaz lhe perturbava o seguimento de uma ideia cara. Pela primeira vez achou o noivo inferior, grosseiro de mais no falar e nos modos, anguloso de feições, desageitado de fórmas. Incommodaram-lhe as attenções carinhosas do pobre rapaz, e causaram-lhe enfado os seus projectos. Para evital-o petextou uma enxaqueca subita e recolheu-se logo ao seu quarto. Deitou-se mas não adormeceu. Só chegou o somno quando os gallos começaram a cantar, pois no cérebro rolavam-lhe com persistência os mesmos pensamentos, pensamentos nos quaes o padre Salustio, com o seu encantador sorriso, figurava sempre.

* * *


Por seu lado o novo vigario, do infeccionado, achou-se tambem por muitas vezes a scismar na formosa engommadeira das suas sobrepelizes. Achava-lhe um tom distincto, maneiras superiores ás das mulheres vulgares, voz singularmente cariciosa e principalmente bella como uma tentação.
Saído havia pouco do seminário, o padre Salustio achava-se ainda puro de inclinações amorosas e até então julgava cousa facil guardar o preceito da castidade onde tantos sacerdotes naufragam. Empossando-se da sua vigararia, trazia o proposito de formar uma reputação de homem pio.
Assim traçando a linha de sua conducta futura, o padre Salustio não consultára as exigências imperiosas da sua idade e do seu temperamento ardente de mineiro. O resultado foi, logo ao começar a sua carreira ecclesiástica, sentir-se fraco para luctar contra a paixão pela mulher, a mais irresistivel de todas.
Durante todo dia e noite que seguiram-se á sua entrevista com a filha do marcineiro, sentia a todo momento voltar-se-lhe o espirito para a gentil criatura que lhe deixou o aposento embebido de uma fragancia entontecedora; e ao adormecer pensava ainda na sua basta cabelleira acastanhada, sedosa e cheia, onde tão grato seria repousar a fronte e escaldar de desejos lubricos, embora se esforçasse por afugental-os.
O padre Salustio tinha dado a Ritinha uma sobrepeliz para passar a ferro, pedindo-lhe urgência, talvez por desejo de vel-a mais depressa.
Era provavel que a moça assim compreendesse tambem, pois logo no outro dia batia á porta da casa do padre Salustio, levando-lhe o paramento, cuidadosamente dobrado e entrouxado em fina toalha de renda.
Ritinha achava-se ataviada com mais esmero do que no dia antecedente; percebia-se que tivera a pretensão de fazer sobresair os seus attractivos, porém a physionomia conservava signaes indeleveis das agitações que na vespera lhe haviam conturbado o espirito.
O padre Salustio sentiu pular-lhe o coração no peito quando ella , sempre donairosa, porém pudica, assomou á porta. Correu ao seu encontro, chamou-a para junto de si, fel-a sentar-se em um canapé; e, tomando-lhe as mãos entre as suas, com a fronte quase a roçar na sedosa coma acastanhada da moça, um tanto tremulo, febril, como que ébrio pelo perfume daquella carne fresca, sadia e bella.
Escusamos descer a minudencia dos detalhes desse colloquio cujo desenlace é visivel.
Ambos moços, ardentes, apaixonados e inclinados irresistivelmente um para o outro, não era possivel que vencessem a attracção. Depois de meia hora de palestra cairam nos braços um do outro: _ elle, ardentissimo, impetuoso, brutal _ ella, nervosa, envergonhada, chorosa, porem abandonando-se sem resistencia intimamente satisfeita pelo arrojo do companheiro.
Desse dia em diante Ritinha transformou-se em amante do padre Salustio.
Embora recatassem muito suas relações amorosas, foram ellas percebidas no fim de alguns dias pelo sachristão, e esse bom homem, sempre pedindo o mais rigoroso segredo, revelou-as aos amigos. Dentro em pouco o arraial era sabedor do escandaloso successo.
Já Ritinha notava que as amigas e antigas companheiras de escola publica e de folguedos começaram a evital-a, e que, quando passava pelas ruas, percebia dentro das lojas risinhos abafados nos caixeiros e cochichos que lhe pareciam referir-se aos seus amores com o padre. João porem continuava alheio aos dicterios do arraial, e , todo engolfado na sua paixão e na sua completa ignorancia dos factos, suspirava continuamente pelo dia venturoso em que veria estender-se no leito de jacarandá _ rosa do seu noivado, obra prima de mestre Manuel Theodoro _ o delicioso corpo de Ritinha, de uma brancura fascinante de leite e todo rescendente a agua da colônia.
Essa situação feliz não tardaria a desapparecer.

* * *


Em uma tarde de sexta-feira, João achava-se socegadamente em casa a amilhar os seus dois cavallos de sella, um dos quaes, o alazão, destinava para montaria da sua dilecta Ritinha, quando lhe appareceu uma preta velha muito conhecida em todo o Infeccionado, a tia Rosa, que á funcção de parteira entendida, reunia a de rezadeira de quebranto, mau olhado, espinhella cahida, cobreiro e outros males. Tia Rosa havia-se indisposto com Ritinha por esta lhe attribuir o furto de um panno de altar, e a sua ida a casa de João não tinha outro fim sinão esclarecel-o sobre a conducta immoral da sua noiva.
João recebeu-a como pessoa de casa e depois de trocar algumas phrases banaes com ella, disse-lhe em tom de troça, ao mesmo tempo que continuava a tirar os carrapichos da crina do alazão:
_ “ Dentro de um anno, Tia Rosa, vancê tem um servicinho nesta sua casa e algumas patacas a ganhar”.
_ “ antes fosse já”, respondeu a preta, “ bem precisada ando eu de alguns cobres para pagar uma promessa de três libras de cera que devo a nossa Senhora dos Remedios. Mas os tempos antam tão ruins, nhô-Joãosinho!...Então, há alguma novidade cá por casa, d´aqui a um anno?”
_ “ Pois vancê não sabe que eu estou de casamento ajustado para o dia-de-Reis? Ora, já vê que d´aqui a um anno é provavel já haver gente nova que lhe dará algum pequeno incommodo.
“.
Tia Rosa, sabia perfeitamente do casamento de João. Fingindo, porém , ignoral-o, fez um gesto de admiração e exclamou:
_ “ que é que vancê está dizendo? Pois isso é sério? Ora, não brinque com a sua preta velha, nhonhô”.
_” Estou falando sério, tia Rosa. Caso-me no dia-de-Reis com Ritinha, a filha de Manuel Theodoro, lá do arraial”.
_ “ Com Ritinha, nhô-Joãosinho? ” interrogou a preta, simulando o maior espanto.
] _ “ Sim, com Ritinha”, tornou João.
_ “ Ah! Então não sou eu quem ha de pegar seu filho, nhô-Joãosinho”.
_ “ E porque, tia Rosa?”.
_ “ Porque, nhô-Joãosinho, porquê? Porque eu não sou parteira de Mula-sem-cabeça. Credo! Nossa Senhora dos Remedios, me livre de tal tentação. Cruzes canhoto!Vá para as areias gordas!...Arruda com pé e tudo!...”.
João ficou atordoado com o destampatorio da negra, e sentando-se no coche em que os cavallos comiam a ração de milho, arregalou muito os olhos e perguntou-lhe ancioso e indgnado:
_ “ Mas, então tia Rosa: Ritinha é Mula-sem-cabeça?” E, ao fazer essa interrogação, os seus punhos crisparam-se, como si tivesse ímpetos de esganar a negra.
Esta porém, sem se perturbar, persignou-se de modo beato, e exclamou tranquillamente:
_ “ Desde que me seccou o umbigo, eu ouço dizer que mulher que anda com padre vira Mula-sem-cabeça; e não ha ninguem nestas redondezas que não esteja farto de ouvir que nhá- Ritinha está mettida com o vigario novo”.
_ “ Com o padre Salustio?”
_ “ Quem duvida? Seu Juca sachristão viu os dois se abraçarem, e eu mesma que aqui estou encontrei aquella relaxada saindo da casa do padre Salustio ás doze horas da noite”.
Em seguida a negra discursou longamente sobre o facto, e acabou com estas terriveis palavras o seu feroz mexerico:
_ “Sua noiva, nhô-Joãosinho, é uma Burra-de-padre, é uma Mula-sem-cabeça; não olhe mais para aquella descarada, que, mais cedo ou mais tarde, há de ser montada pelo Tinhoso, que lhe rasgará a barriga com uma chilena de fogo, para castigar o seu peccado”.
Dizendo isto, a preta retirou-se, satisfeita por haver realisado a sua vingança, ficando o pobre caipira abancado no coche, como que atordoado, e a repetir com obstinação de idiota estas phantasticas palavras: _ “ Mula-sem-cabeça!...Mula-sem-cabeça!...” Fôra tão rude o golpe que lhe vibrára a maldita negra, que lhe tirou momentaneamente a faculdade de raciocinar. Sentia uma zoada no ouvido; tremiam-lhe as pernas; o coração como que lhe não batia no peito
Nesse estado conservou-se até cair a noite. Só então arrancou-se de tão pesada atonia, e a passos lentos, dirigiu-se para o arraial.
Formára tenção de averiguar aquelle negocio que tanto o affligia.
“ Quem lhe dizia que tudo aquillo não passava de calumnias forjadas pela negra, afim de se vingar de alguma offensa recebida da moça, ou simplesmente por espírito de maldade? Convinha não emprenhar pelos ouvidos. Era crivel que ella o atraiçoasse, compromettendo de modo tão funesto a sua propria felicidade? E logo com quem? Com um padre?! Não!Convinha ser prudente. Tia Rosa _ todos a conheciam _ era uma enredadeira”.
Assim raciocinando, chegou junto á casa de Ritinha, quando soavam nove horas. A casa estava fechada, e pelas frestas não se percebia luz do lado de dentro. Manuel Theodoro deitava-se cedo, porem Ritinha tinha por costume conservar-se acordada até tarde, quer costurando, quer fazendo renda. Porque, então, não se viu luz na casa?
João abeirou-se ao seu quarto collou o ouvido á frincha da janella, e procurou ouvir si ella resonava. Mas...nada!... o silencio era completo:só o interrompia o cantar estridulo de um grillo.
Retirou-se da janella contrariado, e continuou a caminhar, sempre avançando para o arraial.
A casa do padre Salustio ficava logo á entrada do largo da Matriz. Era um velho casarão assobradado, ainda dos tempos coloniaes, todo de cataria grosseira e com largas janellas e caixilhos miudos.
Já de longe o rapaz percebeu que havia luz em um dos aposentos da casa do padre, que se coava atravez da vidraça de uma das janellas, resguardada interiormente por uma cortina de cassa branca.
Approximou-se todo apprehensivo, e veiu postar-se no centro da rua a observar aquella claridade que lhe enchia a alma de um luar sinistro.
Depois de alguns minutos que ali se achava, percebeu dentro do aposento dois vultos. Era evidente que no quarto do padre Salustio estavam duas pessoas. “ Uma dellas seria Ritinha sua noiva?”perguntava-lhe o coração preságo, quase a estourar no peito.
Resignou-se a esperar...Duas horas passaram com extraordinaria anciedade para elle, quando, afinal, sentiu ruido de passos descendo a escada, e logo em seguida sentiu que tiravam a tranca da porta.
João coseu-se com um taipume fronteiro, e aguardou a saída das pessoas, que desciam a escada.
A porta abriu-se a meio e um homem saiu a calçada. Reconheceu-o logo; era o padre Salustio. O sacerdote observou attentamente para todos os lados, afim de examinar si alguém transitava pela rua áquella hora; e tendo se certificado do seu isolamento, fez sair de dentro da casa uma mulher. Colheu-a nos braços, deu-lhe um beijo prolongado na face, e depois tornou a recolher-se, fechando sobre si a porta.
A mulher achava-se por tal fórma embrulhada num chalé, que não se lhe percebiam as feições; e , assim que o padre fechou a porta, começou a caminhar pela rua acima.
Nesse momento o sino da igreja dava onze horas.
A mulher embuçada, no emtanto, embora não correse, caminhava com muita rapidez: parecia antes deslisar sobre o terreno do que andar, e o moço esbofava-se para seguil-a.
Todavia tinha um pressentimento de que era Ritinha, e esperava que a carreira terminaria ao chegar á casa de Manuel Theodoro.
Effectivamente quando a mulher emparelhou com a casa do marceneiro estacou, e voltou-se, naturalemte procurando ver si alguém a acompanhava. Com a marcha, o seu longo chalé havia descido da cabeça, e João julgou reconhecer a basta cabelleira acastanhada da sua querida e pérfida Ritinha. Mas a distancia em que se achava, não lhe permittiu ainda reconhecer-lhe perfeitamente as feições.
O caipira esperava que a mulher entrasse na casa de Manuel Theodoro... Mas, qual não foi o seu espanto ao ver que a mysteriosa transeunte continuava a marchar, batendo a estrada, cuja areia se prateava ao clarão tranquillo da lua, nesse momento em pleno zenith!...
Isso desconcertou-o. “ Onde iria essa mulher, _ Ritinha ou outra qualquer _ a taes horas, e por uma estrada tão deserta? Da casa de Manuel Theodoro até o sitio de João não havia outra casa, e a distancia entre as duas era a de uma boa meia légua. Que iria, pois, fazer essa mulher _ Ritinha ou não, porém moça _ porquanto era impossível que o padre Salustio enlaçass e beijasse tão amorosamente uma velha, _ que iria buscar essa criatura em sitio tão isolado”.
Tambem raciocinava; “ Para que fosse Ritinha, conhecêra-a sempre tão medrosa, incapaz até de entrar num quarto sem luz, como de um momento para outro adquirira tamanha intrepidez? No emtanto, aquella formosa cabelleira castanha não podia ser de outra; elle bem conhecia todas as moças do Infeccionado.
E a mulher sempre a andar!... A sombra do seu corpo, muito esguia e phantastica, rastejava com o caipira. A areia da estrada rangia sob os seus rapidos passos, emquanto o roceiro se perdia num dédalo intrincavel de conjecturas que a nada conduziam, acompanhando quase automaticamente aquelle Mysterio, que lhe fugia, sob fórma de uma mulher.

* * *
Nisso a criatura chegou a um ponto onde o caminho se bifurcava, formando o que os caipiras chamam uma encruzilhada. Era a Encruzilhada-do-Ingazeiro, assim denominada por existir bem na dichotomia uma frondosa leguminosa dessa variedade.
Esse logar era preferido pelos tropeiros para “pouso”, e , ali viam-se espectadas no chão, algumas dúzias de varas, nas quaes se amarrava a burrada do lote. Mas quando, ao cair da noite, João por lá passou, nenhuma tropa se achava no pouso da Encruzilhada.
A mulher embuçada, ao chegar a esse sitio, estacou, e voltou-se para a direcção em que elle vinha. O nosso caipira, como que movido por um poder superior, deteve-se igualmente. Nesse instante ideia singular lhe atravessou o espirito. Quem sabe si tia Rosa não teria razão, e Ritinha, sua futura esposa, não viria por essa estrada afora em cumprimento do sombrio fadário
Reservado ás infelizes que faziam os padres violar o solemne juramento de castidade?... O dia _ uma sexta-feira _ a hora _ meia- noite _ tudo lhe acudiu á atribulada imaginação, naquelle momento; e os cabellos, a seu pezar, se lhe erriçavam. Teve medo de avançar, de reconhecer afinal aquella mysteriosa mulher em cuja indagação tanto se havia empenhado.
Ao cabo de alguns minutos, a mulher continuou a caminhar, porém agora vagarosamente... e dissipando-se-lhe um tanto o pavor, João proseguiu na marcha D´ahi a pouco novo successo assombrava-o. Quando, ao anoitecer, passara pela Encruzilhada-do-Ingazeiro, nenhuma tropa ali havia. Agora, porém lá estava uma fila de cangalhas, e um sujeito, de pernas cruzadas diante de um pequeno fogo, tocava uma viola muito sebosa, e cantava os seguinte versos, em toada rustica:

Eu botei meus cachorro no matto,
Para vê si levanta veado,
Espingarda de cano quebrado
Eu corri fui cercar no cerrado
Cachorrada latiu não vi nada...
Oh! Minha senhora dona,
No seu matto não tem nada!

E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá.
Vai se embora, passo branco,
Deixa o caçado passá...
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.

João, distraindo a attenção para esse facto de se achar ali arranchada aquella tropa, perdeu de vista a mulher, não sabendo por qual dos galhos da eEncruzilhada havia enveredado. Para se orientar, ao chegar em frente ao violeiro, disse-lhe:
_ “ Boa noite, meu patricio; vancê me sabe dizer que rumo tomou uma dona que passou inda ha pouco por aqui? Seguiu pela direita ou pela esquerda?”.
O homem da viola não lhe deu resposta e continuou a tocar o rasgado, que fazia o acompanhamento da sua cantoria. O moço, aborrecido, tornou a formular a sua pergunta. Então, o individuo, encarando-o friamente, deu uma grande e prolongada risada, que fez estremecer o rapaz, e, torcendo a boca desdentada para um lado, cantou:

Eu mandei meu menino depressa,
De carreira chamá o doutô....
No caminho tinha muita lama,
O cavallo atolado ficou...
Recoluta no campo ta alerta
Meu menino lá preso ficou!
Ai triste de quem ama
Quem ama padece dô!

E o passo branco avuô
Avuô para as banda de lá.
Vai se embora passo branco,
Deixa o caçado passá...
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.

Escandalisado pela desattenção do tropeiro o noivo de Ritinha perguntou-lhe de novo:
_ “ Amigo, toda a pergunta tem resposta... Faça favor de me dizer que rumo tomou uma moça que passou ainda ha pouco por aqui...”
O sujeito da viola tornou a encaral-o friamente, soltou uma gargalhada mais prolongada do que a primeira, e em seguida, virando outra vez a boca desdentada para um lado, cantou com voz aguda:

Triste vida, tropeiro, coitado!
Vai na venda demora um bocado,
Compra avista, não compra fiado,
Chega em casa patrão tá zangado
Periquito não vem no roçado.
Quem fala mal do tropeiro
Merece sê enforcado.

E o passo branco avuô
Avuô para as bandas de lá.
Vai se embora, passo branco,
Deixa o caçadô passá!.
Adeus, morena,
Não deixa seu bem pená.
E continuou a rasgar a viola soturnamente, sem prestar a menor attenção ao caipira. João desconfiou com o typo...” Será surdo ou idiota?” pensou elle; sem querer perguntar mais nada, resolveu seguir pelo caminho que o conduzia á sua casa.
Comtudo, mal havia andado uns cincoenta passos, avistou logo a mulher mysteriosa.
Achava-se enconstada ao batente de uma porteira, desmantelada, e pela segunda vez receiou avançar, tomado de súbito horror inexplicavel . A mulher, assim que o viu na estrada, arrancou o chalé da cabeça, rasgou as roupas e lançou-as fora, ostentando-se completamente nua ao clarão da lua. Elle reconheceu, então, perfeitamente Ritinha, com a sua famosa cabelleira castanha, arripiada pela aragem que a espalhava sobre as espáduas brancas, de uma alvura de leite.
Ritinha, ou melhor a Visão, depois de despida, lançou-se ao chão furiosamente, rebolcou-se por algum tempo na poeira da estrada, e d´ahi a pouco ergueu-se, mas não já como se havia deitado por terra. O que appareceu á vista do caipira apavorado, foi um monstro horrendo, um animal, com a apparencia de uma mula, porém sem cabeça, a lançar um fogo azulado pela cavidade da garganta.A cousa medonha encheu de couces o batente da porteira, e disparou pela estrada a fora, com estridulos, relinchos, bater de ferraduras e grande alarido de campainhas. O rapaz soltou um grito enorme, e, correndo, voltou para a Encruzilhada afim de implorar a protecção do tropeiro. A Mula-sem-cabeça, sempre a relinchar, a dar couces e a tanger o seu phantastico cincerro, vinha atraz delle, e quase o alcançava. Por momentos elle sentia o calor da língua de fogo que jorrava da sua medonha garganta.
Era uma cousa atroz o que o pobre moço sentia... Queria gritar e não podia; arredar-se do caminho para deixar passar o monstro, mas não atinava com o desvio salvador... E assim continuava acorrer pela estrada sentindo sempre atráz de si a horrenda e phantastica alimária.
Chegou emfim á Encruzilhada-do-Ingazeiro. Ahi novo assombro o aguardava. O singular tropeiro que lhe havia negado resposta pouco antes, achava-se agora em meio da estrada, de chicote em punho e chilenas nos pés, a “cortar jaca” de um modo diabolico. As suas chilenas , ao bater uma na outra, tiravam chispas de fogo; o seus dedos castanholavam doidamente. Ria-se de um modo pavoroso, e os seus olhos pareciam dois tições acezos.
Logo que o roceiro esbarrou com essa figura grotesca e medonha deu um salto para o lado, e a Mula passou adiante. Então o tropeiro que “cortava jaca” na estrada, encarrapitou-se nella, de um salto, correndo-lhe uma longa chilenada, desde a tabua do pescoço até á garupa. Um risco de fogo ficou no corpo da burra, e ella começou a corcovear damnadamente e a desandar couces em todas as direcções.
João nada poude ver. No logar onde se passava aquella scena, tudo era poeira e fogo... Houve um momento em que o caipira sentiu o extranho animal vibrar-lhe um couce nos peitos.
Immediatamente rolou na estrada, sem sentidos.

* * *

Alguém que passou no outro dia pela manhã na estrada, encontrou o pobre rapaz estendido e conduziu-o para o seu sitio, onde a mãe conseguiu reanimar-lhe os sentidos.
No emtanto uma violenta febre cerebral havia o acommettido. Durante um mez, o infeliz esteve ás portas da morte, e , quando chegou a levantar-se do leito estava, completamente doido. A molestia tinha-lhe roubado a razão, que tão rudemente fôra maltratada na Encruzilhada-do-Ingazeiro.
Era todavia um doido inoffensivo: trabalhava regularmente desempenhava-se de qualquer commisão de que o imcumbissem. Mas, si uma moça se approximava delle, o pobre louco entrava na maior afflição, e fugia da criatura, gritando espavorido:
_ “ A Mula-sem-cabeça! A Mula-sem-cabeça!”

Do " Livro dos Phantasmas"
Por VIRIATO PADILHA RIO DE JANEIRO LIVRARIA - QUARESMA – EDITORA 71 e 73 Rua De S.Jose/71 e 73 1925