quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O passeio da Peste

O PASSEIO DA PESTE


Estamos em uma aldeia de indios baptisados á margem do rio Tieté.
Administra-a o venerando jesuita, padre Domingos Salazar, homem dos seus cincoenta annos, e que ha vinte se occupa na ardua missão da catechese, segregado da sociedade civilisada e do convivio dos seus irmãos da Ordem.
O sol começa a afundar-se por detraz das serranias azues que se empinam ao longe; chilram cigarras no arvoredo de folhagem amarellada pela canicula; e a caboclada, que já terminou nesse dia os trabalhos a que a obriga o severo jesuita, estira-se nas rêdes de tucum, a bocejar enlanguecida pelo fortissimo calor do dia.
O padre Domingos Salazar, com as mãos cruzadas sobre o peito magro, de physionomia carrancuda, a resmoer no cerebro um pensamento que, pelas rugas fundas da fronte, parece afflictivo, passeia vagarosamente na frente do seu ranchinho, um pouco affastado dos da tribu, e de vez em quando levanta os olhos para o céo onde leves nuvens se esgarçam, varridas por brisas altíssimas.
Já ha um mez que não chove: o milho plantado pelos bugres está torcendo as folhas e secando o pendão, antes que o póllen se tenha derramado sobre a boneca e gerado o fructo; vão escasseando as aguas correntes e as dos charcos começam a apodrecer, exhalando emanações pestilenciaes.
O padre Domingos Salazar sente-se incommodado com a prolongação da secca; o calor tornou-se insupportavel; a colheita do milho e da mandioca está irremediavelmente perdida, e, o que é mais grave, annuncia-se a invasão de uma epidemia qualquer no aldeiamento.
Já dois meninos, que andavam no brejo a pescar trairas, caíram com febres de máo caracter; já vagam bugres pelo matto, colhendo a casca do pau-pereira para rebater as malignas.
Indubitavelmente as cousas iam mal, e o padre Domingos Salazar sentia-se embaraçado sobre o modo de resolver a crise com que se achava a braços.
A aldeia cerca de trinta leguas do primeiro povoado colonial. Não havia remedios para debellar o mal, si irrompesse, e, além disso, a caboclada era refractaria, por indole e natureza, a qualquer prescrição hygienica.
_ “ João tá com febe”, disse de repente uma cabocla que surgia no oitão da cerca, agravando assim, com annuncio tão desagradavel, o desasocego do jesuita.
A cabocla trazia ao collo um menino de quatro para cinco annos, que tinha os olhos quebrados e a pelle afogueada por intensa febre.
_” Com certeza deixaste que se metesse com os outros pelos brejos. Agora ahi o tens com uma maligna, talvez”, observou o padre Domingos Salazar em tom aborrecido e tomando o pulso ao doentinho. “ Está ardendo em febre...É isso, não fazeis caso do que digo!...”
Diversos caboclos approximaram-se para ver a criança enferma, e o padre Salazar, entrando no seu ranchinho, de lá trouxe um cobertor de lã.
_ “ Agasalha o menino com este cobertor e deita-o na rêde. Ao mesmo tempo faze coser estas hervas em pouca agua e logo que estiverem fervendo, tira a panella do fogo e vem dizer-me”.
E voltando-se para os seus administrados que o rodeiavam nesse momento, exclamou em tom imperativo:
_ “ Previnam ás mulheres que emquanto não chover não consintam que a criançada se metta pelos bréjaes. Ha muitos dias que não chove, teem morrido peixes e caranguejos em grande quantidade, e com esta soalheira apodrecem e desprendem vapores que envenenam as criaturas”.
Os caboclos ouviram em silencio, habituados como se achavam a obedecer em tudo ao austero discipulo de Loyola. Um delles, porém, já velho e que era o cacique do bando aldeiado, abanou a cabeça, como que duvidando que a causa da enfermidade que começava a declarar-se entre os seus fossem as emanações putridas dos charcos , e disse:
_” Peste, vem do brejo?! Hum! Póde ser, mas não tenho fé”. E voltando-se para os caboclos: “ Não se lembram daquelle tupinambá que passou por aqui na lua-nova?”
_ Que tem o tupinambá com as febres? Interrompeu o padre Salazar contrariado.
_ “ Desconfio que elle andava passeiando a Peste. Não te lembras, padre, como elle caminhava tão vergado para o chão, sendo no emtanto ainda moço? E parecia tão triste, tão cansado! Andava com certeza passeiando a Peste. Infelizes de nós”!
Todos os caboclos approvaram o que dissera o maioral, e o padre Salazar, que percebeu naquellas palavras a revelação de uma lenda religiosa ou de um mytho, mordido pela curiosidade, abancou-se em um toro de madeira que havia no terreiro, e pedio ao indio velho que lhe contasse por que forma a Peste passeiava.
Então, o indio, sentando-se ao lado do padre, ao passo que os outros, interessados na audição da lenda, se acocoravam no chão, contou em tom pausado e grave a seguinte historia:

* * *

“ Era no tempo dos cajús maduros, e todo o povo dos guayanazes andava na colheita dos fructos, para com elles preparar o cajuí , a excellente bebida com a qual se embriagaria no poracê, a grande festa sagrada da Nação.
“Isto deu-se antes que os portuguezes chegassem aqui pela primeira vez, e muitas gerações já passaram depois, que tal aconteceu.
“ Um homem d`aquelle povo, ( Irerê-una chamava elle) saiu uma manhã para colher cajú, e tendo já enchido um grande panacú, como o sol estava muito quente, e elle se sentia um tanto cansado, deitou-se á sombra da arvore e adormeceu profundamente.
“Todos se recolheram ás suas casas, e Irerê-una lá ficou, dormindo a somno solto debaixo do cajueiro.
“ Quando despertou já o sol se ia sumindo atraz das serras e Irerê-una admirou-se de ter dormido tanto.
“ Logo levantou-se, e preparava-se para lançar o panacú ás costas, quando uma visão extranha o fez pasmar, e por tal forma o assustou que lhe tirou os movimentos.
“ É que lá ao longe, por entre os ultimos cajueiros da praia, assomava uma mulher muito alta e de singular aspecto e feições, envolta em longo sudario branco, que, com o andar e com a aragem vinda do mar, se agitava brandamente. Os cabellos em alvoroço lhe escapavam por baixo do sudario. A physionomia era esquálida e severa. Os braços longos resequidos tinha-os ella cruzados sobre o seio no qual não se viam as eminencias dos peitos. A pelle de seu rosto era avermelhada, sanguinea e pintalgada de manchas negras e roxas, de um roxo de gangrena. Os olhos eram fundos e despediam um lampejo constante, fino como a lamina de uma faca.
“ A mulher ia cada vez se approximando mais, e já estava perto...Irerê-una teve medo, muito medo, e voltando as costas ao medonho Phantasma tentou fugir...
“ Não o poude, no emtanto: a Mulher-Phantasma estendeu um braço muito longo, sem fim, e pousou a mão sobre o seu hombro, fazendo o infeliz deter-se.
“ Irerê-una soltou um grito de pavor e caiu de joelhos a tremer-lhe o corpo todo. O contacto da mão da mulher extranha causára-lhe o effeito de uma cobra que se enroscasse ao pescoço.
_” Sabes, quem sou eu?” perguntou-lhe a medonha Apparição.
_”Bem te conheço, és a Peste!” respondeu Irerê-una, quase a sucumbir de medo e horror. “ poupa-me, deixa-me viver!”
_ Sim, sou a Peste! Confirmou o Phantasma” Andava a procura de um homem! Tu me appareceste, tanto melhor! Chegou o tempo de dar o meu passeio por entre os vivos, e assim desci do Céo num raio de lua-cheia. Escolhi-te; vais servir-me de montaria; desde já trepo em teus hombros, e tu me conduzirás a todas as nações desta terra, a todas as tabas, a todas as ócas.Vou fazer a minha colheita de vidas. Anda homem, caminha!...caminha!...Em paga de teu serviço não te matarei: sobreviverás a todos os homens!”.
“ E dizendo isto, a Peste saltou no cangote de Irerê-una, e , ahi agarrando-se, começou o pobre indio a caminhar.
“ Irerê-una não sentia peso algum nas costas, porém todas as vezes que levantava a cabeça dava de rosto com a medonha mulher de rosto avermelhado, pintalgado de um roxo de gangrena.


* * *
“ E começaram a caminhar _ o homem sempre carregando a assombrosa mulher.
“ Irerê-una levava a Peste a toda parte.
“ Tudo eram alegrias e festas pelas tabas, antes da sua passagem.
“ Bebia-se o cajuí, dansava-se o poracé e o yeroqui, tocava-se o boré e a inubia; o maracá chocalhava. Os homens contavam uns aos outros as suas façanhas de guerra e de caça; as mulhers cantavam; as crianças folgavam, cambalhotando na areia dos regatos, ou balançando-se nas cipoadas; as velhas torravam formiga vermelha para extraírem o veneno com que se hervam as settas.
“ Tudo eram festas, defumava-se a carne dos animaes mortos pelos mattos, secava-se o peixe colhido nas piracemas; limpavam-se os caminhos para a visita solemne dos pagés.
“ Mas para logo mudavam-se as cousas, desde que por ali passava Irerê-una com o terrivel Phantasma que o cavalgava.Dansas, festas, cantos de moças, prosas de guerra e de caça, folguedos de crianças, trabalhos divertidos _ tudo desapparecia, para dar logar ao pranto, aos gemidos, ás dores cruciantes, ás longas agonias e á morte.
“ Por onde Irerê-una passava, ficava um longo rastro de cadaveres, pela maior parte insepultos, a apodrecerem ao sol e servindo de pasto aos corvos.
“ Crianças, mulheres, guerreiros valentes, pagés venerandos, tudo a Peste matava. As aldeias transformavam-se em tristonhas tapéras, as canoas vagavam pelo rio abaixo abandonadas pelos remadores, ás vezes transportando um cadaver colhido pela Peste e por ella fulminado em meio da corrente.

* * *

“ Irerê-uma levou primeiro a Peste ás aldeias de seus inimigos: aos caethés do sul, aos tupinambás da margem do mar, e depois, não havendo mais taba, nem oca, nem tujupar que não visitasse, foi obrigado a levar o flagelo a sua própria nação, áquelles bons goyanazes, dos quaes elle se orgulhava de ser membro.
“ Pobre Irerê-una ! Quanto lhe doía na alma ver cair um por um todos os guerreiros que ao seu lado autr´ora combatiam com galhardia, os melhores caçadores da tribu, e as donzellas, as casadas, as velhas, os pagés reverenciados e a criançada alegre!
Quanto se amargurava o seu pobre coração em ver todo aquelle povo, que era o seu, fulminado pelo Phantasma horrendo, e a apodrecer pelos caminhos, sem ter mais quem se occupasse em sepultar os cadaveres!
“ Mas que fazer? Todas as vezes que Irerê-una estacava, o Phantasma esporeava-o, obrigava-o a caminhar, e a levar por toda a parte a devastação.

* * *

“ Tendo afinal Irerê-una chegado á margem de caudalosa torrente que bramia no fundo de um medonho abysmo, disse á Peste:
_ Deixa-me agora Peste; já mataste todos os da minha nação e os das nações visinhas; destruiste todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças, e não ficou taba habitada; deixa-me, pois, terrivel Peste, nada mais tens a fazer aqui!...
_ “ E aquelle tujupar que se vê ali, na encosta do morro, quase a desapparecer por entre as pacoveiras” disse a Peste apontando para uma pequena choupana sumida entre a folhagem. “ Ali há gente, homem, leve-me lá”.
_ “ Mas aquelle tajupar é meu, Peste; Ali vivem minha mulher e filhos”.
_ “ Não Peste, não posso! Como poderei ver atirados á lama do tibycoe, entes que me são tão caros?! Minha mulher é a minha ventura, minha alegria, minha melhor companheira! Meus filhos, serão os perpetuadores do meu nome, os que se encarregarão de dizer aos vindouros as minhas bravuras e minhas virtudes!”
_” Leva-me ao teu tajupar” ordenou novamente a Peste.
_” Não, não posso; por tal preço seria a vida para mim pesada em extremo, não poderia sobreviver ao anniquilamento de minha mulher e de meus filhos, que tanto prezo”.
_ “E dizendo isso, Irerê-una, o malfadado, lançou-se de cabeça para baixo no abysmo , e despedaçou-se nas pedras do fundo. A água tingiu-se com o seu sangue e os seus membros foram arrastados pela torrente.
_” A Peste, assim que o infeliz despenhou, deixou-o, mas como não possuía mais montaria, não poude transportar-se ao ranchinho da encosta do morro, e despedindo-se da Terra voltou ao Céo, subindo por um raio da lua. Sacrificára-se Irerê-una para salvar sua família. Foi ella o tronco da nova nação goyanaz”.

* * *

O padre Salazar, com o queixo magro, sumido entre as mãos compridas, tinha ouvido attentamente toda a exposição desta lenda selvagem que para aqui transportamos, apenas alterando a linguagem do narrador. Logo que o velho cacique terminou, dirigiu-lhe a palavra:
_ “ E assim, João Baptista, deconfias daquelle pobre Tupinambá que por aqui passou na lua-nova?”
_ “ De certo. Não vias, padre, como elle caminhava de cabeça tão baixa, que parecia vergado debaixo de um peso tão grande? Póde muito bem ser que o infeliz andasse a passeiar a Peste pelo Mundo”.


De O livro dos Phantasmas
por viriato Padilha
Edição 1925

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Casa mal Assombada

A CASA MAL-ASSOMBRADA




De um momento para outro o alferes de milícias de Villa Rica, João Rufino, apresentou-se cheio de dinheiro, naquellas Minas, bem enroupado, melhor montado, com armas garantidas, e a fazer uns gestos tão em desaccordo com sua anterior pobreza, que punha toda gente de boca aberta.
Onde fôra elle desentranhar dinheiro? Heranças não recebêra, pois bem conhecida era toda sua familia, paupérrima; no jogo, também não era possivel, pois nunca o tinham visto com semelhante defeito; para se dizer que passára algum contrabando de ouro ou diamantes, tambem não se podia admittir, pois João Rufino na verdade era um individuo muito alegre e folgazão, porém de conducta irreprehensivel.
O certo foi que os pacatissimos mineiros não atinaram com aquelle mysterio, e João
Rufino continuava a assombral-os com as suas incomparaveis despezas.
No emtanto o dinheiro de João Rufino, a acreditar-se na lenda que elle proprio se
encarrregára de divulgar, viera por bom caminho. E assim, depois de se ter divertido durante algum tempo com a curiosidade dos patricios, deliberou contar-lhes tudo, escolhendo para isso uma noite em que dava a ceiar a diversos amigos.

* * *


Achavam-se os seus convivas na sobremesa, tendo já devorado uma excellente canja feita de três gallinhas que rachavam de gordas, uma bem tostada leitoa e outras cousas suculentas, tudo regado com excellente vinho, quando João Rufino, dirigindo-se a elles, lhes falou deste modo:
_” Senhores, reservo uma surpreza para rematar esta modesta ceia. Em geral os meus amigos e conhecidos e quase a população de villa Rica teem-se admirado da minha rapida fortuna e sobre ella feito commentarios os mais variados. Em verdade é para merecer reparo uma transformação tão rápida, e por isso não podiam espantar-me, por mais extravagantes que fossem , mesmo quando fossem lesivos á minha reputação. E, si até esta data não vos fiz sabedor do que me succedeu, é porque há cousas tão espantosas que a mente recusa acredital-as. Todavia não tenho o direito de prolongar por mais tempo a vossa junsta anciedade, e hoje vos informarei dos extraordinarios acontecimentos que me conduziram á opulencia”.
Este exordio de revelação encheu os convivas da maior satisfação, pois a curiosidade era geral e rumores aprobativos fizeram-se ouvir em toda a mesa.
João Rufino, então, passando os convidados para uma outra sala, onde fez servir perfumoso café, narrou a sua aventura, em meio da mais circumspecta attenção.
Assim falou João Rufino:
_ “ Senhores, a fortuna que hoje desfructo chegou-me por vias honestas; e, si é certo que a não alcancei pelo trabalho e por uma rigorosa economia, durante annos , devo-a no emtanto á minha coragem, e, por conseguinte, é com toda a justiça que a gozo.
“Sabeis perfeitamente que em dezembro do anno passado, isto é, ha quatro mezes, fui encarregado pelo commandante do meu regimento de milicias de ir ao Rio de Janeiro comprar fardamento para a tropa e arreios para a nossa cavalhada. Parti d`aqui na ante-vespera de Natal, e no dia-de-Reis já me achava muito além de Mathias Barbosa, apezar do pessimo estado dos caminhos. Nunca havia feito tal viagem, e assim era facil desviar-me da verdadeira estrada. Foi o que me aconteceu.
“ Pouco adiante de Mathias Barbosa, deixei o verdadeiro caminho á direita e tomei á esquerda. Por elle andei cerca de tres horas, e já ia anoitecendo, sem encontrar pouso, quando deparei alguns viajantes que vinham para Mathias. Disseram-me elles que me achava errado, mas que não me era preciso voltar atraz para ganhar a estrada; d´ali á distancia de legua e meia, existia um caminho á direita que ia desembocar na referida estrada. Informando-me mais si existia alguma casa que me servisse de pouso, responderam-me que a primeira pousada era para mais de quatro leguas puxadas. Em todo esse percurso só havia uma casa, completamente isolada, onde ninguem pernoitava por ser considerada mal assombrada.
“ Voltar para Mathias, com os viajantes, não me era possivel; retroceder ao ponto em que havia errado o caminho, nada adiantava. Assim, só me cumpria proseguir na direcção que levava.
“ Perguntei-lhes, então, em que consistia a assombração da unica casa que ficava á beira da estrada, e elles disseram-me que ali vevêra autr´ora um individuo extremamente avarento; e que , desde o dia de sua morte, alguns viajantes perdidos, que por acaso pernoitavam na sua habitação, ouviam á noite ruidos extranhos: arrastar de correntes, som de passos pelas salas, bem como eram visitados por Visões assombrosas.
“ Agradeci aos viajantes todas essas informações, e despedi-me delles, disposto a viajar toda a noite afim de reganhar a estrada real.
“ Caminhando, ia pensando nos mysterios da casa asssombrada, nos quaes, para dizer com franqueza, pouco acreditava.
“ O sol entrava na sua agonia sanguinolenta do occaso. Já nos pontos em que o caminho serpenteava por baixo de moutas sentia-se a invasão das sombras crepusculares, e os insectos nocturnos davam os primeiros chilros prenunciadores da grande harmonia da noite, quando senti que o meu cavallo começava a banhar-se de suor frio, e da andadura ia pouco a pouco descambando para o passo pesado. E essa?! O pobr bicho ia afrouxando e naquelle andar não deitaria mais de meia legua.Conheceis perfeitamente o meu tordilho, não? Era um animal valente, mas desde Villa-Rica eu ia puxando por elle, em marchas diárias de seis leguas, e naquelle dia já havia vencido sete. Não era, pois, de admirar que o pobre animal desse de si.
“ Isso, no emtanto, contrariou-me extraordinariamente, mas continuei a caminhar.
“ D´ahi a um quarto de hora cheguei á porteira de um largo pasto todo grammado, em cujo centro existia uma grande casa silensiosa. Era a Casa-mal-assombrada! Nem uma voz humana, nem o latir de um cão, nem o pio de uma ave domestica! Tudo parecia morto ali!
“ O sol acabava de sumir por traz das grimpas da Mantiqueira, e a noite approximava-se.
“ Puz-me a pensar; O meu cavallo estava quase frouxo; avançar mais, seira arriscar-me a estragar o animal, sem nada adiantar; ali, pelo contrario, estava um bom pasto para o pobre bruto, e uma casa que me daria guarida durante a noite. Porque, pois, desprezar tão providenciaes commodidades, somente com medo de Phantasmas, cousas naturalmente creadas pela imaginação do vulgo ignorante e supersticioso?
“ Eu nunca fui medroso, graças a Deus! Dispuz-me, pois, a passar a noite ali mesmo. Estava bem armado. Que podia , temer, portanto?!...
“Tomada essa deliberação, abri resolutamente a porteira e penetrei no pasto. A porteira rangeu no enorme gonzo, e fechou-se em seguida, esbarrando com força no batente de cabiúna. Logo após, ouvi um grande gemido, muito prolongado e alto, partido, não sei de onde, mas que me produziu um arrepio em todo corpo. O meu cavallo espetou as orelhas e estacou nas patas dianteira, mas não esmoreci: quando tomo uma resolução, tenho por costume leval-a até o fim, custe o que custar.
“ Assim, dei uma chibatada no animal e orientei-o para a casa.
“ Antes de chegar ao terreiro, era preciso transpor a porteira de um curral. Abri-a, e ,, exactamente como succedeu com a primeira, logo se fez ouvir outro gemido, mais soturno e mais prolongado ainda que o anterior. Os cabellos tornaram a areepiar-se-me, e o cavallo bufou. Não me importei. Apeei-me e tratei de tirar a sella do pobre animal, pois queria passar minuciosa revista na casa, antes que anoitecesse de todo.
“ Fiz isso. Depois de soltar o bicho no pasto, carreguei os arreios nos braços, e subi com elles a escada de uma varanda já um tanto carcomida que havia na frente da casa, e penetrei na primeira sala da habitação, cujas janellas e portas estavam abertas de par em par. Mal apenas collocára eu o pé na soleira da porta, um outro gemido, ainda mais lúgubre e duradouro que os outros, fez-se ouvir, e parecia tão lacinante, tão maguado, que bem contra a vontade senti o sangue esfriar-me no corpoi e os arreios caíram-me das mãos tremulas! O meu tordilho, que já então se espojava satisfeito no pasto, ao ouvir essa cousa medonha, ergueu-se de um salto, e disparou, dando a prova mais cabal de se haver tambem assustado.
“ Todavia eu tinha que dormir naquella habitação, quer fosse mal assombrada, quer não; havia feito tal proposito, e nada me poderia demover delle. Por isso tirei dos coldres as pistolas, e enchendo-me de animo devassei toda casa; atravessei salas, quartos, corredores e nada encontrei. Tudo estava silencioso! Quando voltava, porém, para a frente da habitação, vi em um dos cantos da primeira sala um frango pellado, de pernas muito compridas, que ali procuava aninhar-se, como se tivesse aquelle costume.
“ Admirou-me ver aquella ave, pois quando atravessára a primeira vez a sala não a tinha percebido. Comtudo não me preocupei por muito tempo. Seria, pensei eu, algum pinto perdido por qualquer pombeiro, e que entrasse emquanto me occupára em revistar a casa.

* * *


“Devia ser isso mesmo, e nem podia ser outra cousa. Quanto aos gemidos, não os regougam tão tetricos as corujas grandes? Conduzi para dentro da sala os arreios; tirei de um picuá o resto do meu almoço; comi-o tranquilamente, e , depois, estendendo a manta, bairetro e o capote, fiz deles um leito em que me deitei, confiante em Deus e na minha coragem, tendo antes posto ao alcance das mãos as pistolas e o meu facão de viagem.
“ Deitei-me, porém não adormeci, embora estivesse bastante cansado. Contra a minha vontade, rolavam-me no cerebro cousas phantasticas, e, á medida que a noite se adiantava, cada vez mais me visitavam taes pensamentos.
“ Devia de ser mais de onze horas e meia , e ainda eu me conservava acordado, quando pouco a pouco vi a sala ir se enchendo de uma claridade dúbia, quase insensível no começo, mas que mais e mais ia augmentando. Não podia perceber de onde vinha essa luz extranha, amarellada, livida, pois não era noite de luar.
“ O pinto magro, pellado, que dormia no canto da sala, saiu para o centro. Batendo as azas e suspendendo o pescoço, cantou desentoadamente, com um esganiçar irritante, pronunciando estas palavras que ouvi arripiado de horror:
_” É meia-noite: não vens hoje?” E recolheu-se ao canto.
Immediatamente do tecto da casa partiu uma voz assombrosa que gritava;
_” Gaspar, eu caio”
O pinto lá no seu canto respondeu:
”Não caias!”
A voz tornou a gritar:
“Gaspar eu caio!”
“ E o pinto outra vez respondeu:
_” Não caias”
“ Ainda uma terceira vez a voz falou:
“ Gaspar eu caio!”
“ E eu, cheio de impaciencia e ao mesmo tempo apavorado com o que estava presenciando, exclamei:
_” Pois caia!”
“ Mal havia proferido tal phrase, quando vi despenhar-se do tecto da casa um braço humano e cair no meio da sala com um ruido abafado.
“ O meu coração batia de modo que parecia querer estalar. Um suor frio, inundava-me a fronte, e pela primeira vez na minha vida tive medo de véras.
“ D´ahi a alguns minutos a voz tornou a gritar;
_ “ Gaspar eu caio!”
“ De novo o pinto pelado esganiçou-se e suspendendo o pescoço repetiu:
_”Não caias”.
“ Segunda vez a voz falou:
_” Gaspar eu caio!”
“ Na terceira, eu berrei:
_” Pois caia!”
“ A mesma scena repetiu-se por quatro vezes; e eu que vencendo oterror me achava possuído da mais viva curiosidade pelo desenlace d´aquella comedia horrenda, ia mandando que caísse.
“ Assim caiu primeiramente junto aos dois braços uma perna, depois outra, e em seguida o tronco e finalmente uma cabeça, que, mal chegou ao soalho, reuniu-se aos diversos pedaços... E surgiu á minha vista um Phantasma, envolto num longo sudario negro e com os braços cruzados sobre o peito!...
“ O medo que tal Apparição me causou não se pode descrever com alavras. São dessas cousas que se sentem, mas não se defimem. No Emtanto, tive forças para empunhar o meu facão de viagem e pôr-me logo em guarda, esperando um ataque. Mas o Espectro, estendendo para mim um longo braço descarnado, pronunciou estas palavras com voz sepulchral:
_” Nada temas, viandante; não te pretendo fazer mal; a tua coragem salvou-me”.
“Então balbuciei:
_” quem és tu?”
“ E a Apparição respondeu-me:
_” A Alma-penada de um miserável avarento que, desde o dia que deixou os vivos, vagueia errante, em conseqüência da misserrima paixão que tanto o atormentou em vida.fui rico e levando meu amor ao ouro até a hora da morte, enterrei uma grande quantidade delle no pasto desta casa. Foi minha perdição. Minh´Alma acha-se presa a estes sítios e delles não se apartará emquanto o dinheiro ali se conservar. Tu tivswte coragem de affrontar o assombro desta habitação. Vou fazer a tua fortuna e liberar-me deste fadario. Quando o dia romper, irás á porteira do pasto, e na direcção de quatro braças ao nascente do batente da mesma porteira cavarás até a profundidade de quatro palmos. Ahi encontrarás um cofre de moedas de ouro de bôa especie. Toma-o para ti e manda dizer sete missas pela alma do finado Gaspar, na igreja que quizeres”.
“ E ao dizer esta ultimas palavras tudo desappareceu: Phantasma, pinto pellado, luz amarella e tudo.
“ Os meus nervos não podiam supportar a furiosa tensão a que os havia forçado: affrouxaram repentinamente, e eu, caindo protrado no leito improvisado, adormeci de somno pesado, sem sonhos, que se prolongou atpe as 7 horas da manhã do outro dia.
“ Logo que acordei, pouco me lembrava das terriveis scenas da noite, porém, pouco a pouco ellas me foram chegandi á memoria, e puz-me a pensar si tudo aquillo não seria um delirio da minha imaginação escandecida pela narração dos viajantes e pelo desolado aspecto da habitação.
“ Todavia procurei uma enxada que logo encontrei no porão da casa e dirigi-me á porteira do pasto. Ahi chegado, medi quatro braças ao nascente e puz-me a cavar.
“ O meu cavallo, que pastava tanquillamente a poucos passos distante de mim, levantou a cabeça e poz-se a encarar-me, e eu me ria comigo mesmo pensando que talvez estivesse representando um papel ridiculo que até o proprio cavallo delle se admirava.
“ Comtudo continuava a cavar, e de uma das enxadadas senti que o ferro batêra em outro ferro.O meu espirito alvoroçou-se com isto; amiudei as pancadas, e dentro em pouco tempo ficou a descoberto um cofre de ferro, tendo por cima um grande argolão. Puxei por elle e o cofre saiu para fora.
“ Corri immediatamente os fechos da peça e escancarando-a encontrei-me diante de um monte de bellas e reluzentes moedas de ouro. Introduzi-as no picuá e no capote e segui a desempenhar a minha commissão no Rio de Janeiro.
“ Eis, senhores, como do dia para a noite fiquei rico. Devo esta ventura á minha coragem e ao meu sangue frio”.
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De então por diante nunca mais se falou em Villa Rica sobre a fortuna do alferes João Rufino.Pois não era tão natural que elle encontrasse um thesouro enterrado?

De O livro dos Phantasmas
Por Viriato Padilha
edição 1925

segunda-feira, 13 de julho de 2009

PRAGA DE MÃE

O casamento de Luiza com o Pedreira era a tábua de salvação em que d.Maria tinha os olhos para preservar os seus filhos menores da miseria e da fome, pois o marido, ao morrer, deixára-a sem tecto, sem vintem, e ainda por cima carregada de dividas.
Appareceu, no emtanto, Pedreira, solicitando a mão de Luiza, a filha mais velha, e d.Maria vira nelle um Anjo descido do Céo, para lhe fazer aquelle pedido.
Pedreira estava bem: moço ainda, muito sisudo, havia abraçado a carreira commercial, e o seu nome já gosava de certo credito na Praça.
Que melhor partido podia ella, pois, desejar para a filha, que, afinal de contas, não passava de uma pobre desvalida, sem futuro algum?
A velha, agradecida, abraçou o ente providencial que lhe surgia em momento tão aziago; e, pressurosa, foi communicar a boa nova á filha, que a recebeu indifferente, sem todavia recusar assentimento ao enlace.
D. Maria attribuiu a acanhamento aquella maneira de proceder e, sem mais se preoccupar, tratou de apromptar o enxoval de noiva. A pobre senhora sentia-se tão feliz ao costurar aquellas roupas brancas!

* * *

Os calculos de bem estar futuro, feitos por ella, tinham, comtudo, de ser contrariados.
A moça não sentia inclinação alguma pelo Pedreira, apezar das carinhosas attenções de que elle a cercava, porque se achava perdidamente enamorada de um malandrim da peior especie, que todas as noites vinha offerecer-lhe serenatas por baixo das suas janellas.
Esse typo era um tal Quincas. Mimoso, sujeito de costumes depravados, jogador, desordeiro e libertino.
Mas... que querem? A rapariga deixou-se levar pela sua presença agradavel, pelos seus requebros, pelas suas cantorias, e, uma bella noite, quando faltavam apenas quinze dias para se realisar o seu casamento com Pedreira, teve a fraqueza de deixar Mimoso penetrar no seu quarto. E elle ahi conservou-se até madrugada, roubando o unico bem que a infeliz possuia _ a virgindade.
No dia seguinte, passado o primeiro momento de verdadeira allucinação, ao deixar os braços do amante, longe dos beijos capitosos, das suas deliciosas e embebedantes caricias , a moça compreendeu, então, toda a gravidade da sua falta, todo o horror da desgraça que a ferira. Viu-se deshonrada, no fundo abysmo da Perdição, em que cegamente se lancára, não tendo visto, enganada pela verdolente relva e pelas floresinhas primaveraes que lhe occultavam as guelas escancaradas. Julgando haver penetrado no Paraiso, despenhára-se no Inferno.
Não podia aceitar o vantajoso casamento com o honesto Pedreira, esse casamento que era o grande sonho de sua velha mãe, e que seria a salvação de toda a familia. Não queria enganar o digno moço, e mesmo receiava fazel-o. Pedreira, justamente por ser escrupulosamente serio, o prototypo da Honra e do Dever, escudado na sua dignidade, zelando a pureza do seu nome respeitado, si descobrisse a sua falta, o seu crime, a sua infamia _ como fatalmente sucederia _ oh! havia de ser justiceiramente inexoravel, e não lhe perdoaria! O Castigo que ella havia de receber seria a Morte.
E Luiza não queria morrer. Moça ainda, cheia de sonhos, e de illusões, e de esperanças sem ainda conhecer o Mundo, amava a existencia, e queria viver. Por isso não trepidou. Tendo combinado com Quincas Mimoso, tendo entrouxado toda sua roupa e algumas joais de phantasia que possuia, abandonou a casa materna, deixando uma carta relatando a sua mãe os motivos que a induziam a proceder d´aquella fórma.
A mãe, desesperada, irritou-se contra ella, e no seu desvairamento, sem bem saber o que fazia, cega de dôr, louca de desespero, acabando de lêr a carta, exclamou:
_” Vai-te desgraçada, vai-te, some-te da minha pesença! Tu me condemnas, e aos teus irmãosinhos á miseria, porém Deus é Justo e os Anjos me ouvem! Assim como tu arrancas hoje o pão da boca destas innocentes crianças, teus filhos, se tiveres, comerão, um dia, o pão amargo da emola. É a praga que te rogo! Vai-te, procura o teu seductor e nunca mais me appareças!
Luiza foi viver com Mimoso. Durante os primeiros seis mezes, que deviam ser para ella os da lua-de-mel, soffreu horrores
O biltre que se enfastiou da pobre moça, começou a matratal-a; obrigava-a a lavar e engommar para fora, o dia inteiro, e os minguados cobres que a infeliz apurava, consumia-os na mesa do jogo, e em orgias com meretrizes das mais descaradas.
Era-lhe a vida um tormento! Nem mesmo pancadas o miseravel lhe poupava!
No fim de um anno deu á luz uma menina, e então cresceram as agonias da infeliz, pois já não era a unica a soffrer, mas também o fructo querido de suas entranhas.
Esse martyrio durou tres annos, até que um dia Quincas Mimoso, achando-se em uma orgia com mulheres e individuos da peior especie, entrou em questão com um delles e recebeu certeira facada no coração, da qual lhe resultou a morte immediata.
Luiza, apezar dos maus tratos que Mimoso lhe dava, fez-lhe um enterro decente, e vetiu-se de luto, pois, por desgraça sua, amava deveras o infame.
Tal successo, porém, e o trabalho continuo e pesado a que se entregava, tiraram-lhe as forças debilitaram-lhe o organismo, e adoeceu.
Foi, então, que a miseria se tornou atroz. Não podendo trabalhar, nenhum dinheiro recebia, e muitos dias confrangia-se-lhe a alma, ao ver sua innocente filhinha chorar de fome.

* * *

Um dia a infortunada criança, vestida com uma camisa preta toda esfrangalhada, estava sentada á porta, muito tristesinha, e a roer uma casca de banana que encontrára na rua. A criturinha tinha fome! Por todo alimento, apenas havia comido na véspera um pão duro.
Pouco depois passou por ali um homem bem trajado, cheio de joias custosas e brilhantes, entre as quaes avultava uma bella corrente de relogio. Ao deparar-se-lhe aquella trsite scena, compreendeu tudo de relance. Condoido, metteu a mão no bolso do collete, e tirando delle uma moeda de prata de mil réis, collocou-a na mãosinha da criança, dizendo-lhe:
_”Vai, minha filha; entrega este dinheiro a tua mãe para ella comprar pão”.
E foi-se. No outro dia o homem tornou a passar por ali, viu de novo a criança sentada á porta e deu-lhe nova moeda.
No terceiro dia repetiu-se a mesma scena.
Tinha-se cumprido a praga da mãe, em tão má hora lançada. A filha de Luiza comia o pão amargo da esmola!

* * *
.
Nesse terceiro dia, porém Luiza recebeu a visita de sua madrinha que havia muitos annos não via.
Era uma velhinha, que, ao ver o estado miseravel em que se achava a afilhada, sentiu os olhos cheios de lagrimas. Abraçando-a, pediu-lhe que lhe contasse por que modo chegára ella áquella penuria.
A desgraçada começou a chorar, e desafogou toda sua dor no seio da madrinha.
Referiu-lhe a morte do pai, o seu projectado casamento com o Pedreira, como se deixára seduzir pelo Mimoso, a terrivel praga da mãe, o desmancho do casamento, e afinal os maus tratos que soffrêra de Quincas, a morte deste, a sua enfermidade e até as esmolas que a filha havia tres dias recebia de um transeunte.
Assim que ella terminou a narração de suas desventuras, a madrinha ergueu-se e disse-lhe:
_ “Minha filha, tudo isso te acontesse por causa da praga que te rogou tua mãe...Que coração, o da minha comadre Maria!... Nunca pensei! Dizem, porém, que a madrinha tem poder para tirar da afilhada a praga que a mãe lhe lança; e , assim, si Deus e Nossa Senhora acharem em mim merecimento bastante, pela virtude que recebi, ao te levar á pia do baptismo, tiro-te a praga que tua mãe te rogou!...”
Em seguida a madrinha retirou-se.

* * *
Luiza teve curiosidade de conhecer a pessoa que todos os dias dava uma moeda á sua filha. Por isso, no dia seguinte, foi collocar-se á janella, quando se approximava a hora do transeunte passar.
Não tardou. Qual não foi o seu espanto, a sua confusão, ao ver que o generoso bemfeitor de sua filha era Pedreira!
Elle, por seu lado, que não esperava vel-a em tal logar, ficou tambem perturbado. Mas, formando immediatamente uma resolução, tomou nos braços a criança que se achava á porta, e entrou.
A infeliz moça, ao ver seu antigo noivo, que tanto a amára, e com quem, si se houvesse casado, necessariamente teria sido feliz, sentiu-se morrer de dôr, de remorso, de angustia e de desespero. Queria falar, mas as palavras como que suffocavam, de mistura com lagrimas e os soluços. Padecia horrivelmente naquelle instante!
Pedreira, porém, meigo,carinhoso, encetou uma conversa habil e delicada.Sem proferir uma só palavra de condemnação ou de censura, sem lhe exprobar o procedimento, conseguiu que ella se acalmasse pouco a pouco, contando-lhe, emfim, toda a sua horrivel e desoladora historia.
Nesse dia o digno negociante pouco demorou, mas tornou a voltar na manhã seguinte, e assim todos os dias.
A antiga camaradagem que havia entre ambos, renasceu como outr´ora. Luiza sentia-se agradecida ao bom e generoso moço que a ia socorrendo, sem que o parecesse, com um geito e uma delicadeza que encantavam.
Ao cabo de um mez, a rapariga, boa, forte, robusta, restabelecida das commoções e necessidades que soffrêra, não era mais a criatura macilenta e faminta, que agonisava num catre. Surgiu uma outra Luiza, bella, formosa, elegante, toda cheia de carinhos e gratidão.
Mezes e mezes passaram-se. Tendo-se mudado para outro arrabalde, sempre por iniciativa de Pedreira, fez as pazes com a mãe, e viviam todos na mais excellente harmonia.
Um dia, quando já havia decorrido mais de um anno, depois que tornára a encontrar o antigo noivo, já estando esquecido de todo o negro passado, Pedreira propoz-lhe casamento, que ella aceitou, cosi estivesse sonhando, sem bem poder acreditar em tamanha felicidade.
E Luiza e Pedreira foram felizes, absolutamente felizes, cuidando do futuro, sem jámais recordarem os dias angustiosos que, para todo o sempre, haviam desaparecido na noite eterna do eterno Esquecimento!...



De O livro dos Phantasmas
Por Viriato Padilha
edição 1925 Rio de Janeiro

domingo, 12 de julho de 2009

O CAIPORA

O CAIPORA



Um dia perguntei ao velho Dominguinhos por que motivo elle, que quasi não sahia do matto, todavia não caçava durante o mez de agosto. A resposta que obtivemos foi a pequena historia que dentro em pouco vamos relatar.
Comtudo, antes de principiarmos essa narração, precisamos fornecer alguns esclarecimentos sobre o importante personagem que nella vai figurar como principal actor.
O velho Dominguinhos era um pardo de setenta annos bem puxados, pequenino, magro, enfezado mesmo, porém vivo, e o mais habil e apaixonado caçador que temos conhecido.
Dominguinhos caçava desde menino. Durante toda sua juventude e idade madura batêra de espingarda ao hombro as nossas formosas florestas, e ainda no ultimo quartel da vida não sahia do matto.
A caça constituiu, por toda a sua longa existencia, a exclusiva profissão e o unico vicio que tinha. Com a caça e pela caça considerava-se um mortal feliz, e na verdade o era.
Ninguem melhor do que elle arremedava as aves, ninguém como elle farejava um veado ou uma pacca.
Dominguinhos conhecia perfeitamente todas mattas da visinhança do logar em que residia, e mesmo as dos municipios limitrophes. Era sabedor perfeito dos sitios por onde passavam varas de caitetús e queixadas, de todas as pastagens dos veados; poços em que iam refocilar-se as capivaras; das trilhas das paccas, dos muricys a que se juntavam os jacús; dos poleiros dos macacos; dos taquaraes por onde vagavam as capivaras; era perito em fabricar mundéos, arapucas, laços de força, quebra-cabeças, de pegar pelhas; conhecia perfeitamente os usos, costumes e manhas de todos os animaes, desde o lagarto até a onça, desde a rolinha ao mutum, e sobre elles discorria de modo a fazer pasmar qualquer naturalista.
Além disso Dominguinhos era curado de cobra e como possuia antidotos efficazes contra mordedura de qualquer ophidio, era muito estimado dos fazendeiros em cujas casas passava todo tempo em que não estava no matto. Eram esse fazendeiros ainda que abasteciam de polvora e chumbo, pois Dominguinhos era pauperrimo e toda a sua fortuna resumia-se na sua excellente espingarda Laport, em duas cadellinhas já velhas, a Firmeza e a Namorada, e em um cachorro magro e pellancudi, o Penacho.
A physionomia de Dominguinhos denunciava a sua profissão. O seu rosto tinha feições de bicho do matto; o seu focinho de tatú e os seus olhos espremidos, porém espertos, e penetrantes, assemelhavam-se ao de uma raposa á espreita da caça em um cerrado. O seu andar era macio, parecendo a todo momento querer surpreender inhambós na latada.
No mais um bom homem. Nunca se ocupára em fazer nem bem, nem mal a pessoa alguma. As caçadas não lhe davam tempo de pensar no resto da humanidade, a não ser quando se tratava de mordeduras de cobra, porque, então, entrava em scena com os seus antídotos.
Dominguinhos era simplesmente um caçador, mas um caçador ás direitas.
Eis o retrato do singular personagem a quem perguntei um dia por que motivo não caçava durante o mez de agosto, tendo observado nelle tão curiosa anomalia

* * *

Foi assim que começou:
“ Desde menino ouvia dizer que o mez de agosto era aziago, por causa do dia 24, que, como vomecê sabe, é o de S. Batholomeu, quando tudo quanto é judeu anda solto por este mundão de Christo.
Ouvia falar a miudo que no mez de agosto não se devia fazr umas tantas cousas, e principlamente não era bom gente internar-se na mattaria, para não ter algum mau encontro.
Ouvia tudo isso, porém, vomecê sabe que, quando a gente é moço entra tudo por um ouvido e sae por outro, até que afinal tantas se leva na cabeça que se toma caminho, quer queira, quer não, mas á sua custa, e Deus sabe, ás vezes com que sacrificios.
Assim elles estavam falando p´ra ahi que não era bom caçar no mez de agosto
e eu todo o dia no matto, até que de uma vez me estrepei deveras para nunca mais.
Já lhe conmto como foi.
Foi em uma vespera de S. Bartholomeu. Antes que a manhã rompesse puz ao hombro a espingarda, uma Laport trouxada, de confiança; enfiei o embornal da munição; afivelei á cintura o facão; em outro embornal metti um pedaço de carne de vento e farinha; e, com Deus, Nossa Senhora e os Anjos da Corte-do-Céo penetrei na floresta.
Queria ver de perto naquella madrugada um macuco que sabia estar empoleirado n´um jaracatiá que havia bem no cocuruto da serra. O diabo do bicho andava a fazer-me fosquinhas havia um par de dias; eu piava, elle respodia; tornava a piar e elle vinha chegando, mas... quando já estava á distancia do tiro, não sei como o endemoninhado me avistava, e antes que tivesse tempo de levar a espingarda á cara, lá ia elle, tic, tic, tic pela folharada seca em fora, que ninguém mais o pegava.
Ninguém ignora que o macuco é um bicho muito ladino; quem não souber ou não tiver paciencia não o tira do matto, mas Deus está ahi mesmo.
Eu, porém, nunca permitti que bicho algum tivesse mais astucia do que eu e aquelle macuco estava jurado.
Persegui-o durante alguns dias, até que afinal, numa tardinha percebi que se empoleirava num pé de jaracatiá e assentei de dar cabo delle no outro dia de manhã. Podia ficar no matto aquella noite para fazer-lhe tocaia, mas não tinha trazido mantimento, estava com fome e assim foi-me preciso vir dormir em casa.
Quando entrei, ainda estava escuro. De uma ramalhada, levantava-se um bando de jacús, de outra corria uma cotia, mas o meu primeiro tiro estava guardado para o ladrão do macuco que me havia feito aguentar durante tantas horas as mordidellas de pernilongos.
Podia apparecer qualquer caça , que della eu nada queria. Emquanto não atirasse ao chão o macuco do jaracatiá, e o não esganasse na minha fieira, o meu tormento não cessaria.
Fui subindo, impassivel sempre, indifferente de todo á grande quantidade de caça que se me ia deparando pelo caminho. Quando o dia vinha rompendo, já estava no cocuruto da serra, bem debaixo do jaracatiá.
Olhei para a arvore: o macuco estava alli mesmo, de peito aberto para mim. Vomecê nunca foi amigo de caçadas? Não pode por comseguinte fazer ideia da alegria que se apossa de um homem que tem esse vicio, quando estica o cano da Laport para boa caça: um macuco, um veado, uma paca, uma anta, etc. Qual! Até a respiração da gente escapole do peito sem querer!
Fiz pontaria, bem certa: queria ver o bicho dar um tombo redondo. O macuco já estava resevado; seria um presente para o dr. Chiquinho, moço muito meu camarada e amante da caça.
Ah! Meu senhor! Preferia antes ter perdido um olho ou o braço direito do que errar aquelle macuco! Fiquei damnado da minha vida. Não pude conter-me e exclamei:
_ “ Vait-te, desgraçado, dou-te de presente ao Diabo!”
A minha vontade era partir o cano da espingarda de encontro ao jaracatiá. Não o fiz, todavia... Como?!... Uma espingarda que já havia te matado onça! Não!isso, nunca!
Resolvi voltar para casa, mas Deus, Nossa Senhora e os Anjos da Corte-do-Céo é que sabiam como eu estava! Errar um macuco na bucha, e depois de uma trabalheira d´aquellas?! Era para um homem nunca mais dar um tiro em toda sua vida.
Na descida, novamente esbarrava com toda especie de aves e de animaes de caça. E conservei-me ainda indifferente, mas desta vez raivoso, desesperado, pois que caçador que erra macuco ou veado não deve dar mais um tiro durante sete semanas. É uma vergonha!
Nisso ouço uma grande roncaria. Devia de ser uma vara de porcos que se approximava.
_” Não”, disse comigo mesmo, “ porco do matto não passa de rabo em pé, perto de mim. Isso mais devagar!”
Carreguei ás pressas a espingarda, e trepei a um tronco que se achava perto.
Vomecê deve saber que o porco do matto, logo que se esteja levantado do chão uns cinco palmos, nenhum mal faz porque não levanta os olhos e só morde para os lados.
O tronco em que trepei era uma cepa de óleo-vermelho, que haviam derrubado para delle se fazerem eixos de carro.
A porcada cada vez roncava mais perto. Ah! Excomungados! Iam-me pagar o tiro errado do macuco.
Pouco depois vi de facto a porcada surgir lá embaixo na grota. Eram innumeros os porcos. Escolhi um, que vinha de cachaço levantado e a estalar os dentes. Aquelle era meu, com certeza. Quando, porém, já ia puxar pelo gatilho, vi uma cousa, que, ainda quando me lembro se me arripiam as carnes. Que dia de S. Bartholomeu mais arrenegado!
No fim da manada e montado no cachaço de um dos maiores porcos, vinha o Cousa-Ruim!....Nem era bicho, nem era gente!...
Parecia-se, em verdade, com um homem, mas tinha o corpo todo pelludo e era de rosto fechado. Mas, o que é ainda mais para admirar, o Maldito trazia a tiracollo o macuco que eu havia errado.
Lembrei-me então, de tudo.Pois eu não havia dado aquelle macuco ao Diabo? O Diabo havia-o caçado.
Os porcos passaram todos, e não tive coragem de atirar nelles.
O Cousa-Ruim passou tambem, rente por mim. De vez em quando soltava um grito exquisito , para tocar a vara de porcos, e dentro em pouco tudo desappareceu _ os porcos e o Demonio!
Tratei de bater para minha casa... Quem disse, porém, que podia sair do matto?!...Qual! aquillo parecia até cousa mandada!
Um matto em que eu andava todo dia, e a qualquer hora, mesmo da noite! Pois, meu senhor, perdi-me: o caminho era ali mesmo, e eu ia andando. Mas, d´ahi a pouco, esbarrava numa moita de corumbaba por onde nem um rato passaria. Seguia por outro lado: tambem havia caminho por ali. Mas, d´ahi a bocado, via em frente uma tapada de brejaúba, com cada espinho que só uma cobra por ali poderia penetrar.
Bato para aqui; bato para li... Qual ! nada! Não sahia do mesmo logar! Não havia que duvidar, estava perdido!...
Assim passei todo dia, e já a noite se avisinhava sem que eu pudesse compreender como fora que me sucedêra aquillo, num matto em que era tão vagueano, quando então, me lembrei do que havia contado um caboclo velho. Ah! Agora compreendia porque me tinha perdido!
O Demonio, que tinha visto passear montado no porco, era o Caipora, e era quem não me deixava acertar com o caminho. Comtudo havia um meio de me ver livre d´aquella peste, segundo me ensinára o caboclo. Era dar-lhe fumo. Cortei logo uma porção do que tinha para o meu gasto, e sacudi-o numa touceira de taquara, dizendo:
_ “ Toma, Caipora, deixa-me ir embora...”
No mesmo instante o Cousa-Ruim, que passára montado no porco, saltou diante de mim, e, fazendo caretas, embrenhou-se por entre as taquaras, apanhou o pedaço de fumo, e poz-se no mundo.
Immediatamente acertei o caminho, e duas horas depois achava-me em casa.
De então por diante jurei nunca mais caçar durante o mez de agosto. Não que n´aquelle dia suei frio!...


De " O livro dos phantasmas"
Por Viriato Padilha
Edição 1925 / Rio e Janeiro

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A ALMA- PENADA DO BARÃO

O barão do Arrenegado era um importante fazendeiro de Serra-Acima, muito conhecido da praça do Rio de janeiro, com a qual entretinha assiduas relações commerciaes.
A historia que passamos a contar, e na qual o opulento e aristocratico barão do Arrenegado figura como principal personagem, fixa-se chronologicamente no tempo de Pedo I e pouco antes da expulsão desse Bragança do Brazil.
É sabido de todos que conhecem um pouco a historia patria que o filho de d.João VI, depois da dissolução da Constituinte, começou a temer seriamente o partido nacional, do qual eram principaes chefes os illustres Andradas, com os quaes se havia incompatibilisado.
Por isso cogitou da formação de um partido brazileiro para se oppôr áquelle, e no proposito de adquirir affeiçoados distribuiu profusamente titulos e mercês honorificas, facto esse que, segundo dizia o Tiphis Pernambucano, celebre jornal do martyr Frei Caneca, era um ultrage irrogado pelo Throno aos sentimentos democraticos da nação brazileira.
Muita gente, que nunca havia sonhado com brazões de armas e titulos de nobreza, viu-se por essa fórma transformada em barões, marquezes e viscondes, constituindo-se por tal meio no Brasil uma aristocracia achinellada, na phrase sarcastica de Timandro, que depois tambem para ella entrou, aceitando o ridiculo titulo de visconde de Inhomerim, logarejo insignificante que existe pouco adiante de Mauá e que apenas se salienta pelas sezões e pela grande quantidade de mosquitos.
Ora, um dos agraciados pela munificiencia do imperial amante da Domitilla, foi Francisco Vianna de Lobo, que na derrama das graças abiscoitou o titulo de barão do Arrenegado, unicamente por ter sido companheiro de deboches de Pedro I, quando simples principe de Bragança.
Ainda por intervenção de Pedro I, o barão do Arrenegado, casou-se com uma rica herdeira, e, opulento e nobre, tornou-se fazendeiro.
Vianna de Lobo era um homem alto, robusto, de pés e mãos enormes, olhos azuis e cabellos ruivos e duros, barba da mesma cor e consistencia, sobrancelhas bastas e de fios muito longos, pelle vermelha, afogueada.
Tudo em sua physionomia tinha um cunho ferroz, selvagem. Á primeira vista compreendia-se logo que se estava em presença de um brutamontes. E assim era. As concordâncias que Lavater encontrou entre o physico e o moral dos indivíduos explicavam-se perfeitamente no barão do Arrenegado.
A sua indole condizia com a aspereza da sua physionomia. Vianna de Lobo era homem de maus bofes: cruel com seus escravos, rispido para com sua resignada e digna consorte, brutal para com todas as pessoas que com elle tratavam.
Com excepção da esposa, que o adorava, sem compreender porquê, e de Pedro I, cuja indole afinava um tanto com a sua, ninguem gostava do barão do Arrenegado. Mas, o que mais antipathias lhe attrahia, ao eram os seus modos bruscos e incivis, e sim o desrespeito com que elle tratava as cousas da Religião em que nascêra e fora baptisado.
Vianna de Lobo era profundamente atheu, e comprazia-se em ostentar a todos a sua irreligião, facto esse que enchia de desgostos a pobre baroneza, excellente senhora e em tudo obdiente ao marido, porém em extremo religiosa.
Acredita o povo que o atheismo do barão do Arrenegado foi severamente punido pela Providencia-Divina qe tudo prescruta e a tudo provê. Encarregar-nos-emos de revelar a fórma por que tal castigo lhe foi aplicado, seguindo em tudo a tradição popular.

* * *

As anthipatias contra o governo despotico de Pedro I, os seus frequentes attentados ás liberdades constitucionaes, que jurára defender, começaram a brotar de todos os angulos do paiz. Uma revolução estava eminente, porém, o imperador julgava-se com forças para conjural-a.
Minas-Geraes era uma das provincias onde o descontentamento lavrara mais intenso, e Pedro I, que tinha illimitada confiança em si proprio, deliberou transportar-se em pessôa a Villa Rica, esperando que a sua presença bastasse para serenar os animos, tal como acontecêra na sua primeira excursão á velha Terra-do-Ouro, quando ainda regente do Brazil, em nome de d.João VI.
Por isso partiu do Rio de Janeiro acompanhado de sua segunda esposa, e, ao passar pela fazenda do barão do Arrenegado, onde fora tratado de um modo faustoso, convidou o antigo companheiro de pandegas para fazer parte de sua comitiva ná viagem que ia empreender.Apromptou-se logo o barão, e, despedindo-se da esposa, tocou para Minas, com seu imperial patrono, satisfeito por poder desenfadar-se um pouco da vida monotona que passava na fazenda.
Deixamol-o cavalgar para a prisca Villa Rica e vejamos o que se passa em sua casa a sua ausencia.

* * *

Uma semana depois da partida do barão, vieram alguns escravos communicar á baroneza um facto singularissimo e que encheu a respeitavel senhora de emoção.
Diziam esses escravos que no pasto da fazenda e bem no ôco de uma frondosa aroeira que ali existia, haviam encontrado elles uma Imagem da Virgem-Maria, modelada com tanta perfeição, que mãos humanas não podiam fazer igual, e, o que era mais extraordinario, essa primorosa peça da estatuaria christã não fôra ali embutida, porém sim lavrada na propria casca da aroeira, da qual fazia parte integrante.Não era crivel que um artista viesse ás occultas deixar aquelle attestado da sua devoção e talento. O aparecimento da Santa, não podia deixar de ser um milagre.
Essa noticia alvoroçou a baroneza, cujo sentimento religioso era profundo, segundo já dissemos. Nesse mesmo dia partiu Ella para a Arvore-de-Nossa-Senhora, acompanhada de toda a escravaria, e mandando cercar a Imagem de cirios bentos, fez rezar uma ladainha cantada, que ella mesma ia entoando devotamente.
Rapida se espalhou por toda a visinhança a noticia do milagroso acontecimento, e começaram a affluir devotos de toda a parte, afim de fazerem preces á Nossa Senhora encontrada na arvore da fazenda do barão.
O padre do arraial visinho, acompanhado da Irmandade do Santissimo-Sacramento, veiu em procissão solemne, e, de cruzes alçadas, visitar a Imagem, junto á qual foi celebrada uma missa campal.Todos os devotos eram hospitaleiramente agasalhados pela piedosa baroneza, que se sentia jubilosa por ter Deus achado nella bastante merecimento para que em suas terras se verificasse tão surpreendente milagre, ainda mais encarecido pelo facto de se começar a espalhar que um galhinho ou uma lasca da Aroeira Santa, possuía mirificas virtudes, só com trazel-o ao pescoço, ou em um bentinho.
O capim, que crescia em redor da arvore, foi cuidadosamente mondado pelos devotos, sendo a baroneza a primeira a dar o exemplo tomando uma enxada e capinando-o.Um carpinteiro cercou a Imagem com um bem acabado gradil, outro artezão enladrilhou a base da arvore, e tudo corria na maior effusão de religiosidade, quando regressou á fazenda o barão do Arrenegado, seu legitimo e unico proprietario.


* * *

O barão vinha contrariadissimo pelo desrespeitoso acolhimento que recebêra em Minas o arrogante Pedro I, a cuja sombra elle medrava.
A velha e altiva patria de Tiradentes recebêra dessa vez de cara enfarruscada o poderoso soberano dos Brazis. Para ella PedroI não era mais o penhor augusto das liberdades nacionaes, mas simplesmente o estrangeio infenso ás prerogativas populares alcançadas com a Independência.
Não lhe encobriu, pois, o seu desagrado. A população dos diversos logares corria acintosamente aos templos, quando o imperador a elles chegava, e ia assistir missas por alma de Libero Badaró, que os seus apaniguados haviam assassinado em S.Paulo.
O imperador regressára despeitadissimo, e do mesmo modo o seu válido, o barão do Arrenegado, que mais ainda se enfureceu, quando, ao penetrar em terras da fazenda, a viu devassada pela chusma de devotos que faziam romaria á Virgem-da-Aroeira.
Raivoso, enterrou os acicates na barriga da potranca que cavalgava, e, em poucos minutos esbarrava no terreiro.
Mal avistou a esposa, e antes mesmo de lhe dirigir qualquer saudação, perguntou-lhe com semblante carregado:
_ “ Senhora baroneza, que quer dizer todo esse povo extranho que me palmilha o campo da fazenda? Serão ciganos?! Não tenho prohibido tantas vezes a entrada dessa canalha nas mimnhas terras?!”
_” Socegai, barão; não são ciganos. Como fostes de viagem? Acho-vos um tanto abatido”.
_” Qual abatido, qual nada! O que desejo é saber quem é toda essa corja de vagabundos que por aqui transita, como si estivesse em sua casa?Por ventura teriam recebido noticia de minha morte?Não compreendo, como, sabendo-me vivo, a senhora consinta que se desrespeitem tão injuriosamente as minhas ordens? Parece-me que ainda valho alguma cousa, com os diabos! Quem é aquella gente, e que quer ella?”
_” É boa gente, barão, gente honesta e piedosa”, respondeu a baroneza, toda confusa. E atendendo á impaciencia do barão, viu-se obrigada a referir-se logo em seguida toda a historia da descoberta da Imagem, a ladainha lá rezada, a procissão feita pelo padre do arraial, a construção da cerca, o enladrilhamento e toda base da arvore, e finalmente as extraordinarias virtudes que diziam possuir a casca e ao ramos da Aroeira Santa.
O barão ouviu toda a narração, mostrando visiveis signaes de impaciencia e de enfado. Seus olhos passeiavam sem parar da mulher para as pessoas que estavam no campo. Apenas ficou inteirado de toda a historia, exclamou encolerisado:
_ “ Que indigna comedia, senhora baroneza! Que patifaria, senhora! Qual Santa, nem qual diabo! Tudo isso não passa de atificios desse miseráveis padres, que julgam poder intimidar-me com tão grosseiros embustes! Nunca se viu tamanha cachorrada! Não há milagre, nem cousa alguma! Foram elles, esses patifes, que mandaram ás accultas modelar a Imagem no tronco da arvora; foi isso e mais nada. Mas enganam-se, esses estupidos falsarios, si pensam que sou tão facil em acreditar nas suas patranhas! Hoje mesmo não ficará de pé nem cerca, nem arvore, nem Imagem, nem cousa alguma!”
“ Que ides fazer, meu Deus?!” exclamou a baroneza, tomada do maior assombro.
O barão não lhe deu resposta: estava quase louco de cólera. Chamando um pagem de confiança, berrou:
_ “ José! Vá dizer áquellas pessoas que andam pelo campo que se ponham já fora da minha vista, e isso quanto antes, sinão não respondo pelo que acontecer”. E logo, virando-se para outro escravo, gritou: “ Sabino, vai apanhar um machado e acompanhe-me.Ah! patifes, querem divertir-se á minha custa?! Corto a vergalho aquelle damnado padre Manuel, pois não
foi outro o autor de tal peça!”.
_ “ Por Deus! barão” disse a baroneza enlaçando-se ao esposo, e com o pranto a borbulhar-lhe nos olhos, “ que ides fazer?! Não chameis o castigo de Deus sobe nossas cabeças”!
O barão, porém, não era homem para attender a lagrimas de mulheres. Desvencilhou-se dos braços da esposa, com um repellão, e, partiu para a Aroeira, acompanhado do creoulo Sabino, que se armara do competente machado.
A baroneza consternada, e vendo que não poderia deter o marido, no seu furor iconoclasta, mandou acender as velas no Oratório e foi rezar aos Santos de sua devoção.

* * *

O barão do Arrenegado no entanto chegava á Aroeira, e logo destroçou e espesinhou cerca, cirios, flores offerendas pias que os devotos haviam pendurado ao tronco. Em seguida ordenou ao escravo que derrubasse a arvore.
Sabino levantou o machado e vibrou o primeiro golpe, que penetrou fundo na Aroeira. Os galhos mais delgados da arvore estremeceram, e uma chuva de folhas miudas caiu no chão, ao mesmo tempo que ella exhalava um gemido.
O escravo olhou assombrado para a copa da arvore e exclamou:
_” Sinhô, Aroeira gemeu!”
_” Não foi nada”, respondeu o barão, “ é algum ramo que rangeu ao roçar em outro”.
Sabino deu a segunda machadada, e a arvore exhalou segundo gemido.
_” A Aroeira tornou a gemer, sinhô!” repetiu Sabino cada vez mais assombrado.
_” Eu nada ouvi”, respondeu o barão; “ corta a arvore, e não te ponhas com ideias “.
Mais um terceiro golpe e mais um novo gemido.
O escravo começou a tremer.
_” A arvore não pára de gemer, meu sinhô”!
_” Córta a arvore”, tornou furioso o colerico fazendeiro; ou antes dá-me o machado, pois parece-me que o medo vai tirando-te as forças. Sai d´aqui, vai-te para o Inferno com as tuas invenções de gemidos”!
E tomando brutalmente o machado das mãos do escravo, o barão atacou resolutamente a arvore.
Sabino continuava a ouvir os singulares gemidos, porém o barão, todo occupado na destruição da Arvore-Santa, não os escutava, e, com ardor crescente, decepava a fronde.
Dentro de alguns minutos toda a arvore estremeceu , e com mais alguns golpes a copa do soberbo vegetal inclinou-se, rangeu, e despejou-se por terra com medonho estrondo.
Ao despregar-se a alentada fronde da copa, a arvore escorregou para a frente, ao contrario do que desejava o barão, e antes que elle pudesse fugir com o corpo para o lado, foi colhido e ficou esmagado pelo madeiro.
Sabino, que se achava á distancia, deu um grito de horror, e correu para o senhor. O barão do Arrenegado estava morto!...
A baroneza, ao saber do ocorrido, apenas teve forças para exclamar:
_” Foi castigo , meu Deus! meu coração bem o adivinhava!”
E caiu desmaiada nos braços das mucamas.
Levantada a arvore, com grossos espeques, foi retirado o corpo do barão, em pessimo estado, e carregado para a fazenda.
Ao recobrar os sentidos, já a baroneza o tinha a seu lado.
Apezar da rispidez com que a tratava o marido, a infeliz tinha por elle sincero affecto. A sua dôr foi enorme.
Deliberou fazer solemnes exequias ao esposo, e, para esse fim, ordenou que o corpo fosse transportado para o arraial, onde poderia ser amortalhado com a decência compativel com a sua elevada posição social e opulencia.
Quasi ao escurecer, partiram da fazenda doze negros conduzindo o cadaver numa rêde, afim de ser depositado em camara-ardente na igreja do arraial.
A desolada viuva e as mucamas deviam, pelo correr a noite, reunir-se ao corpo, pois ficaram apromptando-se para a viagem.

* * *

O arraial distava cêrca de quatro leguas da fazenda do barão, e quando os pretos que conduziam o corpo já se achavam em meio do caminho, começaram a sentir que elle se tornava muito pesado.
O creoulo Sabino, que fazia parte do cortejo funebre, sendo o primeiro a observar tal facto, voltou-se para um preto africano, já meio velho e disse:
_” Pai Antonio, o defunto está pesando muito”.
_” Cala boca lapazi”, respondeu Antonio gemendo debaixo da carga, “é que esse que tá hi tinha pecado caté nu zoio”.
E lá se foram, sacolejando o cadaver do aristocratico barão, pela estrada em fóra.
Mas o corpo a cada momento augmentava de peso e as mudas de carregadores tiveram que se revezar a miudo. Os pobres pretos quasi deitavam a alma pela boca, quando deixavam o fardo.
Afinal chegou o triste cortejo a um vasto campo, onde serpeava a fita branca da estrada. Ahi, nesse logar, o cadaver tornou-se tão pesado que os negros cairam repentinamente de joelhos, vergados sobre a enorme carga.
Os escravos, assombrados com o que estava acontecendo, juntaram-se, em numero de doze, para verem si, reunidos, conseguiam transportar o defunto ao arraial, que apenas distava um quarto de legua d’aquelle logar.
Acercaram-se, pois, da rêde, e dispuzeram-se a levantal-a, porém com o esforço que fizeram quebrou-se o grosso canudo de taquarassú. Mas a rêde não caiu no chão! O maldito defunto parecia ali pregado!
Achavam-se elles naquella incerteza, sem nada poderem resolver, quando desembocaram na estrada dois cavalleiros, que se offereceram logo para transportar o cadaver.
Os negros aceitaram, embora não acreditassem que aquelles dois homens pudessem fazer o que doze não haviam conseguido.
Os cavalleiros, porém, sem que a carga parecesse superior ás suas forças, colheram a rêde pelos punhos, mesmo montados como se achavam, ergueram-n’a á altura dos peitos dos cavallos; e começaram a caminhar, sem prestarem attenção aos asnaticos commentarios que os creoulos faziam, admirados com aquella força herculea.
Poucos instantes depois, observaram os negros que aos lados da rêde se achavam quatro cavalleiros, sem que soubessem por onde tinham chegado os outros dois. Ao cabo de dez minutos surgiram mais quatro, vindos sempre pela mesma fórma mysteriosa.
_”Ué!”disse pai Antonio para os outros, “donde tá chegano turo esse gente. Cruzo!”
Mal fôra feita essa observação, appareceram cavalleiros de todos os lados, que , num berreiro infernal, dispararam com o cadaver do barão.Num abrir e fechar d’olhos, sumiram-se, fazendo ouvir medonho estrondo, que atordoou todos os pretos. No mesmo instante sentiu-se um forte tremor de terra, e na direcção em que haviam desapparecido os phantasticos cavalleiros viram-se compridas e azuladas linguas de fogo que se enroscavam pelo chão como cobras, e nelle penetravam.
_”Valha-nos Nossa Senhora!”disse o crioulo Sabino.”Parceiros, aquelles cavalleiros são soldados do Tinhoso! Vieram buscar o corpo de sinhô para levar para o Inferno. Valha-nos Nossa Senhora! Estamos perdidos! Quem souber alguma reza que diga, já, sinão ficamos assombrados”.
_”Iô, sabe rezá”, disse pai Antonio”. Todos os outros rodearam-n’o immediatamente:
_”Reza, pai Antonio! Reza, pai Antonio!”
Pai Antonio ajoelhou-se contrictamente, juntou as mãos, e na sua atrapalhadissima lingua, principiou:
_”Iô, pecandô me cunfesso cum Deu tudo poduroso, bê zicancaráro Santa Maria, bê zicancaráro São Migué di Acanja, bê zicancaráro S.Joó di Caputisso, e Santo de Apóssa cu sua Pedro, cu sua Paulo e turo zu santo e a vussucê que peccô pro munta vezi, pru sua curpa, sua grande curpa...””
_”Eu não!” interrompeu o crioulo Sabino , “eu não! nunca pequei! Você é burro, pai Antonio!”
_””Burro é você, muleque, pruquê assi foi uqe iô prendeu”.
Os outros escravos, quasi todos moleques pernosticos, desataram a rir, e assim terminou em comedia aquella lugubre scena.

* * *

Não pára no emtanto aqui a espantosa historia do celebre barão do Arrenegado.
Exactamente quando fazia um anno que Vianna de Lobo havia sucumbido debaixo da Aroeira-de-Nossa-Senhora, conta o povo, haver occorrido na fazenda um acontecimento que encheu de assombro todos quantos o presenciaram.
Na noite desse dia, já passadas onze horas, achava-se ainda desperta e fazia suas orações a baroneza, cujas maguas tinham-se aviventado naquelle dia, pelo facto de ser elle o do anniversario da morte do esposo, quando ouviu grande tropel de cavallos.
Chamou uma escrava, mandando ver o que se passava. A rapariga dirigiu-se para a sala da frente, e d’ahi a pouco regressava, mas em tal estado de assombro que lhe faltaram as forças para explicar o que vira.
Admirada a baroneza com o espanto que via pintado no rosto da mucama, levantou-se, e encaminhou-se para as janellas da frente, acompanhada de diversas raparigas, que, com o tropel dos cavallos e gritos que partiam do exterior, haviam despertado em sobresalto.
Lá fóra passava-se uma scena medonha, e todos recuaram tomadas de horror e medo.
Um magote de Demomios, de fórmas extravagantes, cavalgando fogosos ginetes cujas ventas despediam linguas de fogo azul, caracolavam no terreiro, quando, de repente, surgiu em meio delles um cavalleiro envolto em longo sudario branco.
A baroneza conheceu logo esse Phantasma: era o do marido, que immedatamente tomou a frente da cavalhada, e com ella partiu em disparada para o ponto do pasto onde outr’ora existira a Aroeira. Ali tudo aniquilou-se com terrivel estampido.
Durante sete annos, sempre no mesmo dia do anniversario da sua morte, o Phantasma do barão, acompanhado de um esquadrão de Demonios, vinha fazer a sua ronda no campo da fazenda.
No oitavo anno, porém, nada mais se viu e o que é ainda singular, sete annos exactamente depois do infausto acontecimento, a Aroeira, que até então não havia brotado, tornou a vicejar, e em pouco tempo readquiriu o primitivo tamanho. Nunca mais, porém, ali se viu a Imagem da Santa tão impiamente destruida pelas impias mãos sacrilegas do barão do Arrenegado.


Por Viriato Padilha, Rio de Janeiro, O Livro dos Phantasmas edição 1925.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A vingança do morto

A VINGANÇA DO MORTO



A historia que passamos a contar e que desentranhamos de uma velha chronica , já rendáda pela traça, remonta ao primeiro período da colonisação do Brasil.Teve por theatro a velha capitania de Pernambuco, e começa em tempos da governação geral de Manuel Telles Barreto.

* * *

Lopo de Villa-Flôr era o que , com toda a franqueza e semcerimonia, se póde chamar um refinadissimo patife.
Bebado, jogador, devasso, desordeiro e mesmo ladro, quando se lhe offerecia occasião de defraudar o alheio, o governo de Portugal viu-se obrigado a deportal-o para o Brazil, não obstante ser elle filho espurio de um dos condes de Villa-Flôr, gente que surgia na primeira linha da nobreza lusitana.
Não eram raros os individuos desse quilate, entre os fidalgos do seculo XVI. Os extensos privilegios de que gosava a nobreza, a noção erronea e perniciosa do demerito trazido pelo trabalho a divisão social de classe, a frouxidão da justiça, embaraçada e desvirtuada pela imcompreensão do principio de equidade, uma pesada ignorancia, fanatismo e preconceitos de toda a casta, influíam tão directamente na depreciação do caráter, que até principes herdeiros presumptivos da Coroa, como esse filho de Henrique IV de Inglaterra, e outros, figuram ás vezes na tradição como heroes de orgias, onde da bebedeira se passava ao roubo e ao homicidio, sendo em seguida tudo isso lavado da consciencia por uma rica dotação a um convento ou uma peregrinação aos grandes centros de devoção christã _ Jerusalém, Roma, Santhiago, etc.
Ora, nestes casos estava o heróe da presente historia. Filho do Conde Villa-Flõr com a viuva de um fidalgo que morrêra na India, pelejando pelo lustre das quinas portuguezas, Lopo fora criado com todo carinho e mais que exagerada sollicitude no faustoso solar do conde. Crescêra, sendo-lhe permittidas pelo pai todas as extravagancias, e cedo os fâmulos e servos começaram a supportar o genio caprichoso e brutal do fidalguinho, sempre desculpado pelo velho conde que por elle tinha um affecto vivissimo.
Chegando á idade viril, Lopo começou, dilatado assim, o campo das suas aventuras, a exercer a sua indole, mas os simples camponios, que o tinham por verdadeiro demônio: quotidianamente chegavam ao pai noticias de espancamentos, desrespeitos a donzellas, e perversidades de toda a especie praticadas pelo seu Benjamin, e tanto este cresceu em audacia e
cynismo que um dia levantou mão criminosa contra o pai, quando o repreendia por certo delicto.
Indignou-se por tal fórma o velho e honrado conde, com esse iníquo procedimento do infame, que, fazendo calar o grande amor que lhe consagrava, o expulsou da casa paterna, cobrindo-o de maldições.
Então Lopo de Villa-Flôr passou-se para Lisboa, onde, em consequencia do alto conceito que gosava sua familia, recebeu logo ao chegar favoravel acolhimento na Corte. Cedo, porém, revelando o degradante fundo do seu caracter, imcompatibilisou-se com a sociedade lisboense , e a Policia do rei viu-se obrigada a deportal-o para o Brazil, onde não seria tão prejudicial <>, dizia o alvará que o remetteu.
Eis o personagem que vai figurar como protagonista da presente historia.

* * *

Com a mudança de ares não modificou Lopo o seu comportamento, e a população de Olinda contou desde o dia da sua chegada com mais um flagello em seu seio. A sua vida decorria entre o bordel, a taverna e a espelunca, attribuindo-se-lhe grande numero de desacatos ás pessoas e lesões ás propriedades. As cousas chegaram a tal ponto que o ouvidor lhe moveu séria perseguição, e o nosso valdevinos, para furtar-se ás garras da justiça, evadiu-se de Olinda, por uma madrugada, buscando a Villa do Cabo. Com isto contentaram-se os moradores da velha capital pernambucana e o ouvidor deu por finda a sua missão.
A nossa, porém, irá mais longe, e nessa batida não abandonaremos mais o tresloucado fidalgote.

* * *

Havia duas horas que Lopo de Villa-Flôr cavalgava em direcção ao Cabo, e o sol já vinha rompendo, quando percebeu na sua frente um outro cavalleiro que seguia a mesma direcção que elle. Lopo, interessando-se em saber quem era o cavalleiro, deu de esporas á egua que montava, e em breves minutos emparelhava com o matutino viandante.
Era d.Sancho, joven fidalgo seu conhecido, bom rapaz, porém um tanto amigo do jogo, facto que permittiu a Villa-Flôr travar com elle relações em uma espelunca.
Cumprimentaram-se alegremente, e logo entabolaram conversação. D.Sancho ia á Villa da Escada visitar um tio, rico proprietario de engenhos, dessa localidade; Lopo Villa-Flôr, occultando o verdadeiro motivo da sua retirada de Olinda, disse ao companheiro que se dirigia á villa do Cabo por motivo de negocio.
Não falaram mais sobe os motivos da jornada, e começaram os dois, ao trote lago de suas cavalgaduras, a discretear sobre a vida em Olinda, e principalmete sobre aventuras de jogo.
Assim chegaram a um ponto em que o caminho era atravessado por um limpido regato. Ahi, virando-se d.sancho para Villa-Flôr, disse-lhe:
_ “ Amigo, já que o acaso nos reuniu para companheiros de jornada, permitta que o convide participar de um magro almoço que aqui trago, o qual, embora pouco solido e variado, servirá para restabelecer em nossos estomagos um certo equilibrio”.
_ “ De bom grado”, repondeu Villa-Flôr. “ mesmo porque o ar fresco da manhã e o trote deste cavallo abriram-me damnadamente o apetite”.
_ “ Nesse caso façamos alto aqui, afim de aproveitarmos esta belissima agua”.
_ “ Como quéira”.
Apeiaram-se, amarraram os cavallos no tronco de um espinheiro, e sentaram-se commodamente na barranca afim de apreciarem o almoço, que constava de uma boa lasca de presunto, um requeijão, farinha de mandioca e um botijão de excellente vinho portuguez. Comeram e beberam melhor, tudo na mais satisfatória harmonia, e , terminada a refeição, Lopo disse para o companheiro:
_” Para que a nossa pequena festa seja completa devemos agora jogar alguns cruzados numa pequena parada”.
_” Mas onde estão os dados?”.
_” Tenho-os aqui”.
_” Todavia não jogo, pois não venho sufficientemente abastecido de dinheiro”.
_” Nem eu tambem me acho folgado. No emtanto, vinte ou trinta cruzados que se percam não aleijam ninguem, nem pelo temor de perdel-os deve-se deixar escapar tão bôa ocasião “.
_” Vá lá, porém com uma condição”.
_ “ Aceito-a desde já”.
_” È que, quando qualquer de nós tenha perdido quarenta cruzados, não se jogará mais”.
_” A´s mil maravilhas. Todo o meu dinheiro é apenas cincoenta cruzados e assim me ficarão ainda dez para os gastos”.
Convem observar ao leitor que cincoenta cruzados, ou por outra vinte mil réis, eram naquelle tempo uma quantia assaz importante, a regular-se pelos ordenados dos governadores-geraes, os quaes, embora representassem a pessoa real e tivessem um mando que ia até o direito de morte em peões e gentios, apenas percebiam 400$000 annuaes.
Estabelecida a preliminar da suspensão do jogo, logo que um dos parceiros perdesse quarenta cruzados, Lopo de Villa-Flôr , tirou do bolso do gibão uns dados de osso , e começou a partida, tendo cada um parado dez cruzados de mão.
Lopo perdeu, e d.Sancho embolsou o dinheiro. Seguiu-se uma outra partida, tambem de dez, e Lopo tornou a perder. Já um tanto impaciente, Lopo jogou numa terceira partida o resto dos quarenta cruzados da convenção, isto é, vinte.
Tornou a perder, e d.Sancho, embolsando as moedas, levantou-se disposto a proseguir em sua viagem. Deteve-o Villa-Flôr com estas palavras:
_ “ Amigo, joguemos outra partida”.
_ “ Por forma alguma; segundo dissestes, o vosso dinheiro constava unicamente de 50 cruzados, perdestes 40. Com que dinheiro fareis o resto de vossa jornada, si a sorte continuar a fugir de voz numa nova parada? Eu tenho por principio inabalavel não restituir dinheiro ganho em jogo, ainda que o perdesse o meu proprio pai , e depois foi a condição que ditei antes de começarmos o jogo...”.
_ “ Com que, então d.Sancho”, redargüiu colerico o filho do conde de Villa-Flôr, me arrancaste quarenta cruzados e assim me deixais no meio da estrada, quase sem dinheiro para pagar a hospedagem na primeira albergaria?!...permitti que vos diga, sr.d. Sancho, que vosso procedimento se assemelha muito ao de um bandido de estrada”.
_” Sr.Lopo, si a nobre familia de Villa-Flôr tem por habito tragar sem protesto de ponta de espada insultos como os que acabais de proferir, nunca a de Sancho de Miranda, em todos os seus descendentes, até o mais longinquo futuro, soffrel-as-á sem responder ao atrevido, enristando-lhe o ferro dos desagravos honestos”.
Eram de bom gosto nesse tempo essas tiradas infladas de basofia e sensitivos pundonores, mas assim como se dizia fazia-se, e , seguindo a regra d. Sancho procurou desnudar a espada.
Embaraçou-se, porém, em tiral-a da bainha, e o pérfido Villa-Flôr, aproveitando-se desse desarmamento momentaneo, sacou da sua adaga, e enterrou-a até as guardas no peito do inimigo.
D.Sancho, sem soltar um gemido, tombou, golfando sangue pela boca.
Em tres segundos era cadaver.
Lopo de Villa-Flôr, saqueando-lhe as algibeiras, arrastou o corpo para junto de um penhasco, que da estrada não se percebia, e em seguida continuou a sua viagem, sem se preoccupar o mais levemente possivel com o monstruoso crime que acabava de perpetrar.
Ora...tinha na algibeira dinheiro sufficiente para a crápula...Que lhe impotava o cadaver feito por suas mãos, que ficava apodrecendo junto á estrada, sem ao menos uma cruz presidindo à final consumação da carne?

* * *

Passaram os tempos. Insufficiente como era a policia no primeiro periodo de colonisação do Brazil, tendo de exercer-se de minguadas forças e em dilatadissimas extensões, apezar dos esforços empregados pela familia de d.Sancho, afim de descobril-o, o crime de Lopo Villa-Flôr não foi conhecido, e o assassino continuou a desregrada vida de bebedeiras, jogatinas e crápula.
Cinco annos já eram decorridos, quando aconteceu um dia cursar Villa-Flôr caminho entre a Escada e Olinda. Era a primeira vez que isso lhe acontecia, depois que ali praticára o seu nefando homicidio, do qual bem pouco se lembrava já.
Cavalgando, chegou ao riacho, onde cinco annos antes havia feito a merenda e jogado aquella partida de dados que tão fatal fora a d.Sancho.
Então veiu-lhe ao pensamento todos os incidentes dàquella triste scena, e como por sugestão diabólica teve viva curiosidade de examinar o logar em que havia depositado o cadaver do inditoso mancebo. Não poude resistir á tentação, e, apeiando-se, dirigiu-se para o penhasco. Logo o encontrou.
O cadáver apodrecêra ali mesmo, e fora devorado pelos corvos. Os ossos achavam-se espalhados por um cicuito de quatro a cinco braças, no qual a relva havia fenecido.
Bem no centro da ossada dispersa achava-se a caveira.
Lopo de Villa-Flôr teve um gesto de horror, assim que avistou esses restos, porém domando tal movimento, procurou encher-se de coragem, e apostrophou a caveira da seguinte fórma:
_” Então, d.Sancho, queres agora jogar mais uma partida?”.
E sorriu-se, admirado do próprio cynismo.
Qual não foi, porém, o seu assombro ao ver a caveira torcer-se no chão com estalidos secos, e responder-lhe em voz de tão estranha modulação que lhe fez gelar o sangue nas veias:
Vai seguindo teu caminho,
Não perturbes minha paz,
Joga, encharca-te de vinho,
Faze tudo o que te apraz.


Por ora nada te opprime,
E não te digo mais nada,
Mas tua conta de crime,
Será na Bahia ajustada.

Lopo de Villa-Flôr, ao ouvir tão extranhos versos, cujo sentido não compreendia, sentiu os cabellos levantarem-se-lhe na cabeça, e o corpo entrou-lhe todo a tremer. Assim permaneceu alguns segundos, porém, afinal, recobrando algum animo, correu espavorido para a estrada, montou a Cavallo, e a todo galope fugiu daquelle sitio assombrado.

* * *

As medonhas palavras que ouvira não podiam, no emtanto, sair-lhe da mente; e, assim, na primeira povoação a que chegou, procurou um padre e pediu-lhe que o ouvisse de confissão, communicando ao sacerdote o seu crime e a terrivel ameaça da phantastica caveira.
O Padre ficou assombrado com o que ouvira, e prescrevendo ao criminoso dura penitencia, aconselhou-o que nunca dirigisse os seus passos á Bahia pois as palavras da caveira lhe annunciavam que nesse logar encontraria elle o castigo do seu delicto.
Durante alguns mezes Lopo de Villa-Flôr conservou-se appreensivo sobre o seu destino, mas afinal a vida de dissipação que levava, e bem assim o firme proposito que havia formado de nunca ir á Bahia, tanquilisaram-n`o de todo, e pouco a pouco foi perdendo a lembrança do succedido.
Por esse tempo os hollandezes tinham invadido Pernambuco, e vencendo a tenaz resistência que lhes havia opposto o esforçado Mathias de Albuquerque, haviam conseguido destruir o arraial do Bom-Jesus e expellir os portuguezes de Pernambuco, depois de derrotal-os em diversos pontos.
Lopo de Villa-Flôr pelejava ao lado dos portuguezes, como commandante de uma companhia, e, assim, quando o príncipe Bagnuolo, após o insucesso de Porto-Calvo, retirára-se para as Alagoas, Lopo de Villa-Flôr, bem como todo o exercito protuguez fora obrigado a acompanhal-o.
Senhores de Pernambuco, os batavos perseguiram os portuguezes até as margens do S.Francisco, e estes, não podendo offerecer resistência efficaz ao inimigo, em Sergipe, tiveram de se recolher á Bahia.
Achou-se, pois Lopo de Villa-Flôr sem o querer, e sem mesmo nisto pensar, no logar que tanto temia, ali conduzido pelo acaso ou pelo desígnio da Providencia.

* * *
No emtanto o filho do conde portuguez não ligava mais a menor importancia ás suas antigas appreensões. Os episodios da grande guerra em que se achava empenhado, o espectaculo da morte que tantas vezes havia presenciado, tornaram-no inacessivel ao remorso, e, como outr`ora, a sua unica preoccupação era jogar, beber e folgar.
Ora, de uma vez Lopo de Villa-Flôr convidára alguns camaradas de armas para almoçar com elle e depois jogar algumas partidas.
A reunião devia te logar numa sexta-feira, e Villa-Flôr na manhã desse dia dirigiu-se á Praça afim de comprar qualquer peça de carne com que regalasse os amigos.
Com a permanencia das tropas Pernambucanas na Bahia, a vida nesta cidade tornára-se muito difícil, sendo geral a escassez de viveres. Os que apareciam nas feiras eram logo arrematados por preços elevadissimos e muitissimas familias começavam a soffrer duras privações.
Assim, Lopo de Villa-Flôr teve enorme difficuldade em encontrar um bom guisado para offerecer aos seus convidados. No mercado da cidade não havia mais nada de suculento para comprar, tendo Lopo que se contentar com uma cabeça de carneiro, cujo corpo já tinha sido arrematado por alguns afficiaes que andaram mais adiantados do que elle.
Embora mortificado por esse contratempo, Lopo de Villa-Flôr, pagou bem caro a cabeça de carneiro, mettendo-a dentro de um saco de estopa, e levou-a para casa, confiando que seu cozinheiro, um creoulo bahiano, saberia dar a essa peça inferior um tempero digno do paladar dos seus amigos.
* * *

Quando chegou á sua habitação, já lá se achavam os convidados: eram uns quatro ou cinco rapazes alegres que o receberam com uma salva de palmas e exclamações jubilosas.
_” Com que, então”, disse um delles, “ temos hoje um almoço de arromba?”.
_”Qual o quê”, respondeu Lopo constristado, “ nada encontrei digno de vós, nos mercados; tudo já tinha sido arrematado. Em caminho encontrei-me com um frade gordo de S.Francisco, que conduzia embrulhado no habito seboso um excellente capão.
tive ímpetos de assassinar aquelle guloso servo de Deus, e roubar-lhe o bicho, que daria uma magnífica cabidella, porém temi encontrar-me no Inferno com aquelle patife, o qual, por seu compadresco com o Diabo me obigaria a restituir-lhe o frangão”.
Uma gargalhada acolheu essa tirada.
_” Mas então, nada encontraste?”
_ “ Isso não; aqui trago uma bella cabeça de carneiro, que, sendo confiada á habilidade do nosso Lourenço, que em materia de cozinha é mais perito do que o seu primo Henrique Dias, em questão de guerrilha, nos dará um almoço regular”.
_” Pois, então, viva a cabeça de carneiro, em falta de cousa melhor” exclamaram os rapazes alegremente.
_” O que lhes garanto é que é uma cabeça de carneiro do tamanho da de um novilho. Eil-a”.
E, dizendo isso, Lopo desceu a boca do saco e fez rolar no soalho o conteudo do mesmo.
Mas....oh! assombro!
Em logar de uma cabeça de carneiro, rolou na sala, a espadanar sangue, uma cousa monstruosa. O que Lopo e seus convidados viram, no maior espanto, foi uma cabeça humana, medonhamente livida, de olhos vidrados, labios espumantes e cabellos empastados.
Um grito de pavor saiu de todos os peitos, e Lopo de Villa-Flôr, não podendo conter a extraordinaria emoção que delle se apoderou, exclamou tremulo e de olhos esbugalhados:
_”D.Sancho de Miranda!”.
O assassino tinha reconhecido nos traços daquella cabeça as feições da sua victima.
Nada mais poude dizer: uma nevoa densa obscureceu-lhe a vista, ganhou-lhe o corpo todo um torpor indizivel, e rolou sem sentidos na sala.

* * *

Comprehenderam logo os companheiros que se tratava de um crime nefando, pois alguns reconheceram igualmente aquella cabeça como a de d.Sancho que havia muitos annos tinha desaparecido da capitania de Pernambuco.
Assim entregarm Lopo de Villa-Flôr á justiça, e o indigno, sendo tomado de extranha confusão, revelou immediatamente o crime que havia commettido, com todas as suas minudencias e agravantes.
Foi-lhe instaurado processo;e, comparecendo em julgamento, condenado á morte, sentença essa que a Casa-da-Supplicação de Lisboa confirmou. Como era nobre, não subiu á forca: cortaram-lhe simplesmente a cabeça em uma das praças da Bahia, e assim se cumpriu a extranha ameaça proferida pela caveira de d.Sancho... “E”, termina a chronica de onde extrairmos esta historia, “ tudo assim aconteceu, para que não ficasse no mundo sem castigo um homem que tantos agravos ás pessoas e bens havia praticado _ um endurecido peccador que agora está pugando as suas grandes culpas nas profundezas dos infernos”.



Do " O livro dos Phantasmas"
Por Viriato Padilha
Rio de Janeiro
Edição 1925

Algumas coisinhas do Milton

Algumas coisas que meu irmão Milton escreveu, ele que partiu tão cedo, mas deixou muita saudade e a lembrança de seu bom humor, suas brincadeiras, seu jeito de viver intensamente cada instante:


H O
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Que resistência incrível,
E não resiste a nada.
No seu sossego,
Fica ali, parada.
O vento sopra,
Ela responde tremendo.
O sol aquece,
Ela responde chovendo.
O som lá longe,
Ela responde vibrando.
O tom agride,
Ela responde chorando.


Quando limpa,
Sacia, banha, germina.
Quando suja,
Revida, contamina.
Quando armazenada,
Faz o que lhe convém
Toma a forma exata
De seu armazém.
Quando libertada,
Qual o caminho a tomar ?
Toma o que for mais fácil,
Pra que complicar ?

No frio rigoroso,
Ela se tranca, dura.
Mas ao calor se entrega lânguida
Qual mulher pura.
Mulher encantadora e importante, sim!
Mulher que é dona de 75% de mim.





SOLIDÃO

Solidão não é o estado
De alguém que se sente isolado.
Ela é a impressão
Individual da emoção,
Quando me sinto largado.

Estado é circunstância.
É o jeito de um momento.
Às vezes, paixão e ânsia
Bom, mesmo com sofrimento

Solidão é um sentimento
Que é alívio ou lamento
É o momento do vazio
É a falta do vizinho
Solidão não é estar
Porque somos sempre sozinhos.






VIVER HOJE


Hoje é dia de batalhar.
De novo, o ovo de cada dia.
É dia de maltratar,
A notícia que é má.
Só vou guardar o que é bom.
Meu humor não sai do tom.
Tem que correr, ou se perde.
Para quem chegar primeiro.
Tem que entender, ou se engana.
E volta lá pra janeiro.
É bom ser liso, bem descolado.
Feito bagre ensaboado.
Viver hoje, a gente escolhe.
“A vida é dura pra quem é mole”.




CATANDO COQUINHO


Começar com coisas completamente certas.
Com certeza caminharíamos conturbadamente.
Comecemos catando coquinho
Coisa corriqueira, criancice!
Comendo castanha
Colhendo coisinhas
Cercando coelho
Chorando...
Chupando chupeta.
Cresçamos convivendo calmamente
Cada coisa, cada caso.
Comedidos, compulsivos
Corajosos, covardes
Complacentes, conclusivos
Combatentes, conhecidos
Contingentes, convalescentes.
Cortejando certamente
Com calma, candura
Corte costura
Conquistaremos cama
Culminante, corruptível
Cópula claro com camisinha.
Cheguemos concisos
Concomitantes caducos
Concordando, cedendo
Conhecedores calmos
Crianças coexistentes
Chapados, crentes
Concluiremos contentes!




O RELÓGIO


Que horas são ?
Tá na hora.
Que hora ?
Ora! Não sei.
Ora sei, ora sei lá!
Tá na hora!
De aprender as horas.
Tá na hora
De Ter um relógio.
Que relógio ?
Qualquer um,
Vai perder mesmo.
Olha o tempo!
Olha a hora!
Tá na hora
Hora de *Citizen
Esse ainda não tem hora
Tá na hora!
Hora de comprar um Rolex.
Melhor que essa hora passe.
O tempo é mais precioso
O tempo que a gente tem
O tempo que a gente faz
O que o relógio marca
E marca o que a gente quer.
Que horas são ?
É agora.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac......

* Citizen ( cidadão em inglês)


PINGO D’ÁGUA

Que volúvel pingo d’água.
Ora alegria... ora mágoa.
Forte, só em bando,
Ou nas costas de um inseto,
Ou, também, quando pingando
Bem no meio do meu teto.

Pintura, carpete novinho.
Com quanta raiva eu ficava.
Vinha você bem quietinho
E no meio da sala pingava.
E haja pano de chão!
Na parede branca, um enorme borrão.
E foi plift...plift...plift...por todo o verão.

Outono e inverno já passados.
Primavera começando.
Eu, já bem determinado,
Fui por cima reformando.
Cimento na laje passei.
A parede de novo branquinha.
O carpete, de raiva, troquei.
A casa, outra vez, novinha.

Outro verão chegou, lindo!
Quente, alegre, esplendoroso.
Mas também trouxe, se rindo
Aquele visitante asqueroso.
E na decoração incluindo
Um balde rosa, horroroso.

Sujeitinho atrevido, insignificante,
Mas conseguiu novamente, incessante.
Pingar na minha sala.
Assíduo e constante.
O balde ele encheu várias vezes.
Na parede um novo borrão.
E foi plunft...plunft...plunft...
Por mais um longo verão.

Porém, agora, “amiguinho”,
Vou dizer um palavrão
Sei que você se arrepia
Mas eu não tenho dó não!

O que vou falar agora
É impermeabilização!

Por essa você não esperava.
Nem eu, mas aconteceu.
E no meio da minha sala.
Nunca mais, então, choveu.



MUNDO... BOLA


Mundo, bola,
Que cai na grama
Que morre e seca
Que vira adubo
Que aviva a planta
Que vira janta
Que muda o homem
Que estava triste
Que tinha fome
Que agora ri
Que de bem trabalha
Que tece o fio
Que vira malha
Que tira o frio
Que agasalha
Que muda os climas
Que muda os ares
Que muda os rios
Que muda os mares
Que muda e bole
Que bola é essa?
É a bola mundo
Que deixe...
Que role.




O GRITO


Saí da gruta, gritei.
Queria mais grude, gritei.
O grilo fininho gritava.
Aquele gritinho gravei.


O grito pede ou espanta.
Grito de dor ou prazer.
Mais grave é o grito calado
Que os olhos não podem conter.


Grinalda ou gravidez
As grifes, os grossos
Guri ou grisalho
Todos têm vez.


Gritar é alerta ou alegria.
Gritar é alarme ou é longe.
Gritar pra dentro é pra monge
Para fora dá mais euforia.




CONSTRUÇÃO



Alvenaria, cheia de massa,
O tijolo é tão fosco,
Benditas as pás
E as colheres
Bendito é o fruto
Desse batente,
João!

Dona Maria, mãe de Deus,
Cuidai desses trabalhadores,
Agora e na hora
Daquele andaime, também!




A NOITE



Te espero a cada dia ansioso
Quando chegas, relaxo contente
Te prolongo no meu sono ocioso
Me arrependo, dormi contigo novamente.

No teu escuro, escondo meus defeitos
Na tua quietude, não escuto ninguém
Só percebo a mim mesmo
E vejo que estou noite também.

Os dias me amedrontam
A clareza das coisas me delata
Minha condição de vampiro me incomoda
A fuga do dia me maltrata.

Porém isso não me consome
Vejo como uma fase e acabando
Percebo um amanhecer próximo
Maravilhoso me iluminando.

Além do mais, eu adoro alho.




A PERDA


Hoje perco a esperança
Acordando de um sonho colorido
Acordo com um chute dolorido
De adulto que chuta criança.

Sinto a força física do mundo
E dói mais quando esta força é sabida
Pois em algum lugar da vida
Alguém sentiu meu chute tão profundo.

Não me sinto culpado nem vítima
Nem me espanto com tal resultado
Pois o caminho por mim é traçado
Triste é ser janela feia, sempre a última.

Apesar disso, sinto-me forte e resistente
A mais um chute dos raros que levei
E, hoje, com o tal com que me deparei
Sinto a dor igual, só o ângulo diferente.

Porém, as perdas são ilusórias, irreais
São do tempo, coisa que inexiste
Hoje, estou absurdamente triste
Mas a esperança não perco jamais.






SEM TITULO

Hoje me sinto vazio, inútil
Olho minha vida, me aborreço
Minha realidade sempre fútil
Tudo o que faço é sem preço

Sozinho me assusto sem rumo
Lidando com perdas do que nunca tive
Procurando uma muleta, um prumo
Só de ilusão é que não se vive

Nesse oco esquisito eu me desgasto
Olhando o que já fiz no mundo
Me culpo, me critico, me afasto
De mim mesmo feito moribundo

Tendo consciência do que sou
Vejo que a saída está em mim
Tenho certeza de que vou
Melhorar em tudo sim!

Em Deus eu ponho meu caminho
Em Deus que eu amo e acredito
Sei que não estou sozinho
Por isso, sem vergonha eu grito:
Piedade Senhor
Me ajude!








O PROGRESSO




_ Ô, Maria, sabia que eles vão asfartá a estrada ?
_ Que nem lá nu cumpadre João, onde o filho dele morreu tropelado ?
_ É. E tamém vai tê luz elétrica, nóis pode joga as lamparina fora.
_ Ô, Zé, mais aí nóis vai tê que pagá conta, vai tê televisão e um monte de coisa pra tirá o sussego da gente ?

_ É, e tamém tá vino uma indústria de leite, já vai vim no litro fechadinho.
_ Com água junto né, Zé ?
_ É, e tamém vai abri um banco, pras pessoa bota o dinhero.
_ Ih! Zé, maís aí, pra cuidá do dinhero,nóis vai tê que pagá um monte de taxa, pegá fila e nem vai sabê onde ele tá.
_ É, Maria, tamém vai abri uma cooperativa grande, vai tê tudo quanto é verdura.
_ Ah! Zé, então o dinherinho que eu pego com as minhas arface, babau?
_É, Maria, e tamém...
_ Ói, Zé, eu não quero mais sabê de nenhuma novidade, só quero sabê pra quem é que tão fazendo isso.
_ Uai! É progresso
_ Ó,eu não conheço esse home, mas só sei que ele é muito besta!.





FELIZ NATAL


Faz tempo que se comemora
Então façamos como jamais outrora
Livres de toda mágoa e melancolia
Imbuídos de amor e alegria
Zilhões de beijos mandemos agora


Naquele que amou incondicionalmente
A luz brilhou e brilha intensamente
Todos podemos ser a luz maravilhosa
A coisa a fazer é a mais gostosa
Lembrar que o aniversário é da gente.




CARAMUJO
Sou um pobre caramujo?
Tenho essa vida mesma?
Sentindo a pressa da lesma?
E todos me vêem sujo?

Tenho mesmo essa carcaça?
Aparência de molusco?
Sou singular e fosco?
Feito casulo da traça?
Me basto ensimesmado?
Minha boca é que me grita
Até ser hermafrodita
Carece de outro ao lado.

Chega de casca!
Chega de gosma!
Chega de lesma!
Chega de lósna!

Algumas coisas que ele ecreveu e deixou comigo, uma pequena homenagem para um grande irmão.
Milton Carvalho Cavutto (04.01.1962 -23.09.2006)